Capítulo 19 · 22 min de leitura
O Crente Não É Órfão
O CRENTE NÃO É ÓRFÃO.
NOTAREIS que a margem traz: “Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.” Na ausência do nosso Senhor Jesus Cristo, os discípulos eram como crianças privadas dos seus pais. Durante os três anos em que Ele estivera com eles, resolvera todas as suas dificuldades, carregara todos os seus fardos, e suprira todas as suas necessidades. Sempre que um caso era demasiado difícil ou demasiado pesado para eles, levavam-no a Ele. Quando os seus inimigos quase os venciam, Jesus vinha em socorro, e mudava o rumo da batalha. Eram todos bastante felizes e seguros enquanto o Mestre estava com eles; Ele andava no meio deles como um pai em meio a uma grande família de filhos, alegrando toda a casa. Mas agora estava prestes a ser-lhes tirado por uma morte ignominiosa, e bem podiam sentir que ficariam como crianças pequenas privadas do seu natural e amado protetor. O nosso Salvador conhecia o temor que havia nos seus corações, e, antes que pudessem exprimi-lo, removeu-o dizendo: “Não sereis deixados sozinhos neste mundo agreste e desértico; ainda que eu esteja ausente na carne, estarei presente convosco de um modo mais eficaz; virei a vós espiritualmente, e da minha presença espiritual tirareis ainda mais bem do que poderíeis ter tido da minha presença corporal, se eu tivesse continuado no vosso meio.”
Observai, primeiro, que aqui há um mal evitado: “Não vos deixarei órfãos”; e, em segundo lugar, aqui há uma consolação provida: “Voltarei para vós.”
I. Primeiro, aqui há um mal evitado.
Sem o seu Senhor, os crentes, à parte do Espírito Santo, seriam como outros órfãos, infelizes e desolados. Desse-se-lhes o que se desse, a sua perda não poderia ser compensada. Nenhum número de lâmpadas pode suprir a ausência do sol; por mais que ardam, ainda é noite. Nenhum círculo de amigos pode suprir a uma mulher enlutada a perda do seu marido; sem ele, ela ainda é viúva. Assim também, sem Jesus, é inevitável que os santos sejam como órfãos; mas Jesus prometeu no texto que não o seremos; a única coisa que pode remover a provação Ele declara que será nossa: “Voltarei para vós.”
Ora, lembrai-vos de que um órfão é aquele cujo pai morreu. Isto, em si mesmo, é uma grande tristeza, ainda que não houvesse outra. O querido pai, tão amado, foi subitamente abatido pela doença; velaram por ele com ansiedade; cuidaram dele com esmerada dedicação; mas ele expirou. O olho amoroso fecha-se para eles nas trevas. Aquela mão ativa não mais labutará pela família. Aquele coração e mente não mais sentirão e pensarão por eles. Debaixo da relva verde dorme o pai, e cada vez que a criança contempla aquele pequeno outeiro cavado, o seu coração incha de dor. Amados, não somos órfãos nesse sentido, pois o nosso Senhor Jesus não está morto. É verdade que Ele morreu, pois um dos soldados com uma lança lhe traspassou o lado, e logo saíram sangue e água, prova certa de que o pericárdio fora traspassado, e de que a fonte da vida fora rompida. Ele morreu, é certo, mas não está morto agora. Não vás ao sepulcro para o buscar. Vozes de anjos dizem: “Ele não está aqui, porque já ressuscitou.” Ele não podia ser retido pelos laços da morte. Nós não adoramos um Cristo morto, nem sequer pensamos nele agora como um cadáver. Aquele quadro na parede, que os romanistas pintam e adoram, representa Cristo como morto; mas, oh!, é tão bom pensar em Cristo como vivo, permanecendo numa existência real e verdadeira, não menos vivo por ter morrido, mas tanto mais verdadeiramente cheio de vida por ter passado pelos portais do sepulcro, e reinar agora para sempre. Vede, pois, caros amigos, que a amarga raiz da tristeza do órfão se foi de nós, pois o nosso Jesus não está morto agora. Nenhum mausoléu guarda as suas cinzas, nenhuma pirâmide sepulta o seu corpo, nenhum monumento assinala o lugar do seu sepulcro permanente.
“Ele vive, o grande Redentor vive,
Que alegria dá a bendita certeza!”
Não somos órfãos, pois “ressuscitou verdadeiramente o Senhor.”
O órfão tem uma dor aguda que brota da morte do seu progenitor, a saber, que fica sozinho. Não pode agora recorrer à sabedoria do pai que o poderia dirigir. Não pode correr, como outrora fazia, quando estava cansado, para subir ao joelho paterno. Não pode reclinar a sua dorida cabeça sobre o peito paterno. “Pai”, pode dizer, mas nenhuma voz responde. “Mãe”, pode clamar, mas esse título carinhoso, que despertaria a mãe se ela dormisse, não pode acordá-la do leito da morte. A criança está só, só quanto àqueles dois corações que eram os seus melhores companheiros. O pai e aquele que a amava se foram. Os pequeninos sabem o que é ser abandonado e desamparado. Mas nós não somos assim; não somos órfãos. É verdade que Jesus não está aqui em corpo, mas a sua presença espiritual é tão abençoada como teria sido a sua presença corporal. Antes, é melhor, pois, supondo que Jesus Cristo estivesse aqui em pessoa, não poderíeis todos vir e tocar a orla da sua veste — não todos de uma vez, ao menos. Poderia haver milhares esperando por todo o mundo para falar com Ele; mas como poderiam todos chegar até Ele, se Ele estivesse apenas aqui em corpo? Poderíeis todos querer dizer-lhe algo, mas, no corpo, Ele só poderia receber um ou dois de vós de cada vez.
Mas, em espírito, não é preciso que te movas do banco, nem é preciso dizer uma palavra; Jesus ouve o falar dos teus pensamentos, e atende a todas as tuas necessidades no mesmo instante. Não é preciso acotovelar-se para chegar a Ele porque a multidão é grande, pois Ele está tão perto de mim como está de ti, e tão perto de ti como dos santos na América, ou nas ilhas do Mar do Sul. Ele está presente em toda a parte, e todos os seus amados podem falar com Ele. Podes contar-lhe neste momento as tristezas que não ousas abrir a mais ninguém. Sentirás que, ao declará-las a Ele, não as sopraste ao ar, mas que uma Pessoa real te ouviu, alguém tão real como se pudesses apertar-lhe a mão, e ver o amoroso brilho do seu olhar, e notar a compassiva mudança do seu semblante.
Não é assim convosco, ó filhos de um Salvador vivo? Bem sabeis que sim; tendes um Amigo mais chegado do que um irmão. Tendes Alguém próximo e querido, que, no mais fundo da noite, está na câmara, e no calor e no fardo do dia está no campo de trabalho. Não sois órfãos, o “Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” está convosco; o vosso Senhor está aqui; e, como aquele a quem sua mãe consola, assim Jesus vos consola.
O órfão, também, perdeu a mão bondosa que cuidava sempre de que houvesse alimento e vestuário, de que a mesa estivesse bem provida, e de que a casa se mantivesse em conforto. Pobre criatura fraca, quem proverá às suas necessidades? O seu pai morreu, a sua mãe se foi: quem cuidará agora do pequeno errante? Mas conosco não é assim. Jesus não nos deixou órfãos; o seu cuidado pelo seu povo não é menor agora do que era quando se assentava à mesa com Maria, e Marta, e Lázaro, a quem “Jesus amava”. Em vez de as provisões serem menores, são até maiores, pois, desde que o Espírito Santo nos foi dado, temos alimento mais rico e somos mais mimoseados com consolações espirituais do que eram os crentes antes de a presença corporal do Mestre ter partido. Estão as vossas almas com fome esta noite? Jesus vos dá o pão do céu. Tendes sede esta noite? As águas da rocha não cessam de fluir.
“Vem, faze conhecidas as tuas necessidades, os teus fardos.”
Não tendes senão de dar a conhecer as vossas necessidades para que sejam todas supridas; Cristo espera para ser gracioso no meio desta assembleia. Ele está aqui com a sua mão de ouro, abrindo essa mão para suprir as necessidades de toda alma vivente. “Oh!” diz um, “eu sou pobre e necessitado.” Continua a citação: “mas o Senhor cuida de mim.” “Ah”, diz outro, “roguei três vezes ao Senhor que afastasse de mim um espinho na carne.” Lembra-te do que Ele disse a Paulo: “A minha graça te basta.” Não ficas sem a força de que necessitas. O Senhor é ainda o teu Pastor. Ele proverá por ti até que te conduza pelo vale tenebroso da morte, e te leve aos pastos resplandecentes nos cumes da glória. Não estás destituído, não precisas de mendigar asilo a um mundo ímpio, curvando-te às suas exigências, ou confiando nas suas vãs promessas, pois Jesus nunca te deixará, nem te desamparará.
O órfão, também, fica sem a instrução que é mais adequada para uma criança. Digamos o que quisermos, mas não há ninguém tão apto para formar o caráter de uma criança como o seu pai. É uma perda muito triste para uma criança ter perdido o pai ou a mãe nos seus primeiros dias; pois o mais hábil preceptor, ainda que possa fazer muito, pela bênção de Deus muitíssimo, não passa de um substituto provisório, e apenas em metade supre a original ordenação da Providência, de que o amor do pai molde a mente do filho. Mas, caros amigos, não somos órfãos; nós, que cremos em Jesus, não ficamos sem educação. Jesus não está aqui Ele mesmo, é verdade. Atrevo-me a dizer que alguns de vós desejariam poder vir aos dias do Senhor, e ouvi-lo! Não seria doce olhar para este púlpito, e ver o Crucificado, e ouvi-lo pregar? Ah! assim pensais, mas o apóstolo diz: “ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo.”
É muito mais para o vosso proveito que recebais o Espírito da verdade, não por meio do vaso de ouro de Cristo na sua presença atual aqui, mas por meio dos pobres vasos de barro de humildes servos de Deus como nós. De qualquer modo, quer falemos nós, quer um anjo do céu, o orador não importa; é só o Espírito de Deus o poder da Palavra, e o que faz essa Palavra tornar-se vital e vivificante para vós. Ora, tendes o Espírito de Deus. O Espírito Santo é dado de tal modo, que não há verdade que não possais entender. Podeis ser conduzidos aos mais profundos mistérios pelo seu ensino. Podeis ser levados a conhecer e a compreender aqueles pontos difíceis da Palavra de Deus que até aqui vos confundiam. Não tendes senão de olhar humildemente para Jesus, e o seu Espírito continuará a ensinar-vos. Digo-vos: ainda que sejais pobres e ignorantes, e talvez mal possais ler uma palavra na Bíblia; apesar de tudo isso, podeis estar mais bem instruídos nas coisas de Deus do que os doutores em teologia, se recorrerdes ao Espírito Santo, e fordes por Ele ensinados. Os que recorrem só aos livros e à letra, e são ensinados pelos homens, podem ser tolos aos olhos de Deus; mas os que recorrem a Jesus, e se assentam a seus pés, e pedem para ser ensinados pelo seu Espírito, serão sábios para a salvação. Bendito seja Deus, há não poucos entre nós deste tipo. Não fomos deixados órfãos; temos ainda um Instrutor conosco.
Há um ponto em que o órfão é muitas vezes tristemente lembrado da sua orfandade, a saber, na falta de um defensor. É tão natural nas crianças pequenas, quando algum rapaz maior as molesta, dizer: “Vou contar ao meu pai!” Quantas vezes o costumávamos dizer, e quantas vezes ouvimos dos pequeninos, desde então: “Vou contar à minha mãe!” Às vezes, o não poder fazer isto é uma perda muito mais severa do que podemos imaginar. Homens cruéis e desumanos arrebataram dos órfãos o pouco que o amor de um pai deixara; e no tribunal não houve defensor para proteger os bens do órfão. Se o pai ali estivesse, a criança teria os seus direitos, dificilmente ousaria alguém infringi-los; mas, na ausência do pai, o órfão é devorado como pão, e os ímpios da terra devoram a sua herdade. Neste sentido, os santos não são órfãos. O diabo roubar-nos-ia a nossa herança se pudesse, mas há um Advogado para com o Pai que intercede por nós. Satanás arrebatar-nos-ia toda promessa, e arrancar-nos-ia todas as consolações do pacto; mas não somos órfãos, e, quando ele move uma ação judicial contra nós, e pensa que somos os únicos réus na causa, engana-se, pois temos um Advogado nas alturas. Cristo intervém e pleiteia, como o Amigo dos pecadores, por nós; e, quando Ele pleiteia no tribunal da justiça, não há receio de que o seu pedido não tenha efeito, e a nossa herança estará segura. Ele não nos deixou órfãos.
Agora quero, sem dizer muitas palavras, levar-vos, que amais o Mestre, a sentir que pensamento tão precioso é este: que não estais sozinhos neste mundo; que, se não tendes amigos terrenos, se não tendes ninguém a quem levar os vossos cuidados, se estais bem solitários no que toca a amigos exteriores, ainda assim Jesus está convosco, está realmente convosco, praticamente convosco, poderoso para vos ajudar, e pronto a fazê-lo, e que tendes um bom e bondoso Protetor bem perto neste momento presente, pois Cristo o disse: “Não vos deixarei órfãos.”
II. Em segundo lugar, aqui há uma consolação provida: o remédio pelo qual o mal é evitado é este — o nosso Senhor Jesus disse: “Voltarei para vós.”
Que significa isto? Não significa, pela conexão, isto: “Voltarei para vós pelo meu Espírito”? Amados, não devemos confundir as Pessoas da Divindade. O Espírito Santo não é o Filho de Deus; Jesus, o Filho de Deus, não é o Espírito Santo.
São duas Pessoas distintas da única Divindade. Mas há, contudo, uma unidade tão maravilhosa, e o bendito Espírito age tão admiravelmente como o Vigário de Cristo, que é bem correto dizer que, quando o Espírito vem, Jesus vem também, e “Voltarei para vós” significa “Eu, pelo meu Espírito, que tomará o meu lugar, e me representará, virei para estar convosco.” Vede, pois, cristão, tendes o Espírito Santo em vós e convosco para ser o Representante de Cristo. Cristo está convosco agora, não em pessoa, mas pelo seu Representante — um Representante eficiente, todo-poderoso, divino, eterno, que está no lugar de Cristo, e é como Cristo para vós na sua presença nas vossas almas. Porque assim tendes Cristo pelo seu Espírito, não podeis ser órfãos, pois o Espírito de Deus está sempre convosco. É uma deleitosa verdade que o Espírito de Deus habita sempre nos crentes — não às vezes, mas sempre. Ele nem sempre está ativo nos crentes, e pode ser entristecido até que a sua presença sensível seja de todo retirada, mas a sua presença secreta está sempre ali. Em nenhum único momento o Espírito de Deus se aparta por completo de um crente. O crente morreria espiritualmente se isto pudesse acontecer, mas isso não pode ser, pois Jesus disse: “porque eu vivo, e vós vivereis.” Mesmo quando o crente peca, o Espírito Santo não se aparta inteiramente dele, mas está ainda nele para o fazer sofrer pelo pecado em que caiu. As orações do crente provam que o Espírito Santo está ainda dentro dele. “Não retires de mim o teu Espírito Santo” foi a oração de um santo que caíra muito torpemente, mas em quem o Espírito de Deus ainda mantinha a sua morada, apesar de toda a torpeza da sua culpa e pecado.
Mas, amados, além disto, Jesus Cristo, pelo seu Espírito, faz ao seu povo visitas de um tipo peculiar. O Espírito Santo torna-se maravilhosamente ativo e potente em certos tempos de refrigério. Somos então especial e alegremente sensíveis ao seu poder divino. A sua influência flui por cada câmara da nossa natureza, e inunda a nossa alma sombria com os seus raios gloriosos, como o sol brilhando na sua força. Oh, como isto é deleitoso! Às vezes sentimos isto à mesa do Senhor. A minha alma anseia por assentar-me convosco àquela mesa, porque me lembro de muitas horas felizes em que os emblemas do pão e do vinho auxiliaram a minha fé, e acenderam as afeições da minha alma numa chama celestial. Estou igualmente certo de que, na reunião de oração, sob a pregação da Palavra, na meditação particular, e no esquadrinhar das Escrituras, podemos dizer que Jesus Cristo veio a nós. Como! Não tendes nenhum monte Mizar para recordar? —
“Nenhumas visitas ao Tabor para relatar,
quando com Ele no Santo Monte”?
Oh, sim! Alguns destes tempos abençoados deixaram a sua marca nas nossas memórias, de modo que, entre os nossos pensamentos de morte, se há de mesclar a lembrança daqueles tempos abençoados em que Jesus Cristo se manifestou a nós como não faz ao mundo. Oh, estar envolto naquela veste carmesim, estreitamente apertado “ao seu lado aberto”! Oh, meter o nosso dedo na marca dos cravos, e enfiar a nossa mão no seu lado! Sabemos o que isto significa por experiência passada.
“Querido Pastor dos teus poucos escolhidos,
renova aqui as tuas antigas misericórdias.”
Permiti-nos sentir uma vez mais a verdade da promessa: “Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.” E agora, reunindo os poucos pensamentos que proferi, deixai-me lembrar-vos, caros amigos, de que cada palavra do texto é instrutiva: “Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.” Observai o “Eu” ali, por duas vezes. “Não vos deixarei órfãos; pai e mãe o podem fazer, mas eu não; amigos outrora amados podem tornar-se de coração de pedra, mas eu não; Judas pode fazer o papel de traidor, e Aitofel pode trair o seu Davi, mas eu não vos deixarei desamparados. Tivestes muitas decepções, grandes tristezas que partem o coração, mas eu nunca vos causei nenhuma; eu — a fiel e verdadeira Testemunha, o imútável, o inalterável Jesus, o mesmo ontem, e hoje, e eternamente, eu não vos deixarei desamparados; voltarei para vós.” Agarrai-vos àquela palavra, “Eu”, e digam as vossas almas: “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado; se tivesses dito: ‘Enviar-te-ei um anjo’, teria sido uma grande misericórdia, mas que dizes tu: ‘Voltarei para ti’? Se tivesses ordenado que alguns dos meus irmãos viessem falar-me uma palavra de conforto, eu ficaria agradecido, mas o puseste assim, na primeira pessoa: ‘Voltarei para vós.’ Ó meu Senhor, que direi, que farei, senão sentir uma fome e uma sede de ti, que nada satisfará até que cumpras a tua própria Palavra: ‘Não vos deixarei desamparados; voltarei para vós’”?
E depois notai as pessoas a quem é dirigida: “Não vos deixarei desamparados, a ti, Pedro, que me negarás; a ti, Tomé, que de mim duvidarás; não vos deixarei desamparados.” Ó tu que és tão pequeno em Israel que às vezes pensas ser uma pena que o teu nome esteja sequer no livro da igreja, porque te sentes tão sem valor, tão indigno, Ele não te deixará desamparado, nem mesmo a ti! “Ó Senhor”, dizes tu, “se cuidasses do restante das tuas ovelhas, eu te bendiria pela tua ternura para com elas, mas eu — eu mereço ser deixado; se eu fosse abandonado por ti, não poderia culpar-te, pois me prostituí contra o teu amor, mas ainda assim tu dizes: ‘Não vos deixarei.’” Herdeiro do céu, não percas a tua parte nesta promessa. Rogo-te que digas: “Senhor, vem a mim, e, ainda que refrijas todos os meus irmãos, contudo, Senhor, refrigera-me com algumas das gotas do teu amor; Ó Senhor, enche o cálice para mim; o meu espírito sedento anseia por ele.
“‘Tenho sede, desfaleço, morro por provar
a grandeza do amor redentor,
o amor de Cristo por mim.’
Agora, Senhor, cumpre a tua palavra à tua indigna serva, enquanto estou como Ana na tua presença. Vem a mim, teu servo, indigno de sequer levantar os olhos para o céu, e ousando apenas dizer: ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador.’ Cumpre a tua promessa até mesmo para mim: ‘Não vos deixarei desamparados; voltarei para vós.’”
Tomai qualquer das palavras que quiserdes, e cada uma delas cintila e fulgura desta maneira. Observai, também, a riqueza e a suficiência do texto: “Não vos deixarei desamparados; voltarei para vós.” Ele não promete: “Enviar-vos-ei graça santificadora, ou misericórdia sustentadora, ou preciosa misericórdia”, mas diz aquilo que é a única coisa que impedirá que sejais órfãos: “Voltarei para vós.” Ah! Senhor, a tua graça é doce, mas tu és melhor. A videira é boa, mas os cachos são melhores. Bom é ter um dom da tua mão, mas, oh!, tocar a própria mão. Bom é ouvir as palavras dos teus lábios, mas, oh!, beijar esses lábios como a esposa fez no Cântico — isto é melhor ainda. Sabeis que, se há uma criança órfã, não podeis impedir que ela continue órfã. Podeis sentir grande bondade para com ela, suprir as suas necessidades, e fazer tudo o que puderdes por ela, mas ela ainda é órfã. Tem de reaver o seu pai e a sua mãe, ou então ainda será órfã. Assim, o nosso bendito Senhor, sabendo isto, não diz: “Farei isto e aquilo por vós”, mas: “Voltarei para vós.”
Não vedes, caros amigos, que aqui está não só tudo o que podeis querer, mas tudo o que julgais poder querer, embrulhado numa frase: “Voltarei para vós”? “Aprouve ao Pai que nele habitasse toda a plenitude”; de modo que, quando Cristo vem, nele vem “toda a plenitude”. “Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”; de modo que, quando Jesus vem, a própria Divindade vem ao crente.
“Tudo o que as minhas amplas faculdades podem desejar
em ti ricamente se encontra;”
e, se vieres a mim, é melhor do que todos os dons do teu pacto. Se te obtenho, obtenho tudo, e mais do que tudo, de uma vez. Observai, pois, a linguagem e a suficiência da promessa.
Mas quero que noteis, além disso, a contínua frescura e força da promessa. Alguém aqui deve a outra pessoa cinquenta libras, e dá-lhe uma nota promissória: “Prometo pagar-vos cinquenta libras.” Muito bem! O homem apresenta-se com essa nota amanhã, e recebe cinquenta libras. E de que serve a nota promissória agora? Ora, não tem mais valor algum, está quitada. Que vos pareceria ter uma nota promissória que fosse sempre válida? Isso seria um presente bem régio. “Prometo pagar para sempre, e este título, ainda que pago mil vezes, continuará válido.” Quem não gostaria de ter um cheque desse tipo? Contudo, esta é a promessa que Cristo vos dá: “Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.” Na primeira vez em que um pecador olha para Cristo, Cristo vem a ele. E depois? Ora, no minuto seguinte é ainda: “Voltarei para vós.” Mas eis um que conhece Cristo há cinquenta anos, e teve esta promessa cumprida mil vezes por ano: não estará esgotada? Oh, não! Ali está ela, tão fresca como quando Jesus a proferiu pela primeira vez: “Voltarei para vós.” Então trataremos o nosso Senhor ao seu próprio modo, e o tomaremos pela sua palavra. Iremos a Ele tão frequentemente quanto pudermos, pois nunca o cansaremos; e, quando Ele mais tiver guardado a sua promessa, então iremos a Ele, e lhe pediremos que a guarde ainda mais; e, após dez mil provas da sua verdade, só teremos uma maior fome e sede de vê-la cumprida de novo. Esta é provisão adequada para a vida, e para a morte: “Voltarei para vós.” No último momento, quando o teu pulso bater fracamente, e estiveres prestes a atravessar a cortina, e a entrar no mundo invisível, poderás ter isto nos teus lábios, e dizer ao teu Senhor: “Meu Mestre, cumpre ainda a palavra em que me fizeste esperar: ‘Não vos deixarei desamparados; voltarei para vós.’”
Deixai-me lembrar-vos de que o texto é, neste momento, válido, e por isso me deleito nele. “Não vos deixarei desamparados.” Isso significa agora: “Não vos deixarei desamparados agora.” Estais desamparados nesta hora? É culpa vossa. Jesus Cristo não vos deixa assim, nem vos faz assim. Há coisas ricas e preciosas nesta palavra: “Não vos deixarei desamparados; voltarei para vós, voltarei para vós agora.” Pode ser um tempo muito sombrio para vós, e estais definhando por chegar mais perto de Cristo. Muito bem, então alegai a promessa diante do Senhor. Alegai a promessa sentados onde estais: “Senhor, disseste que virás a mim; vem a mim esta noite.” Há muitas razões, crente, por que deveríeis alegar assim. Quere-lo; precisas dele; necessitas dele; portanto alega a promessa, e espera o seu cumprimento. E oh!, quando Ele vem, que alegria é; Ele é como um noivo que sai da sua câmara, com as suas vestes perfumadas de aloés e cássia! Como bem o óleo de alegria perfumará o teu coração! Quão depressa o teu pano de saco será posto de parte, e as vestes de regozijo te adornarão! Com que alegria de coração a tua alma pesada começará a cantar quando Jesus Cristo sussurrar que és dele, e que Ele é teu! Vem, meu Amado, não te demores; sê semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes da separação, e prova-me verdadeira a tua promessa: “Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.”
E agora, caros amigos, em conclusão, deixai-me lembrar-vos de que há muitos que não têm parte no texto. Que posso dizer a tais? De minha alma tenho pena de vós, que não sabeis o que significa o amor de Cristo. Oh!, se ao menos pudésseis conhecer a alegria do povo de Deus, não descansaríeis uma hora sem ela.
“Se todas as nações conhecessem o seu valor,
por certo o mundo inteiro também o amaria.”
Lembrai-vos: se quiserdes achar Cristo, Ele há de ser achado no caminho da fé. Confiai nele, e Ele é vosso. Firmai-vos no mérito do seu sacrifício; lançai-vos inteiramente sobre isso, e estais salvos, e Cristo é vosso.
Queira Deus que todos partamos o pão no reino lá do alto, e nos banqueteemos com Jesus, e partilhemos da sua glória! Estamos esperando a sua segunda vinda. Ele virá pessoal e gloriosamente. Esta é a mais brilhante esperança do seu povo. Esta será a plenitude da sua redenção, o tempo da sua ressurreição. Antecipai-o, amados, e faça Deus as vossas almas cantar de alegria!
“‘Em meio aos esplendores da glória
que esperamos em breve partilhar;
Cristo, nossa Cabeça, e nós, seus membros,
havemos de aparecer, divinamente formosos.
Oh, quão glorioso!
Quando o encontrarmos nos ares!
“Brilhante a perspectiva que em breve nos saúda
daquele tão ansiado dia nupcial,
quando o nosso celestial Noivo nos encontra
no seu caminho régio e vitorioso;
Na glória,
Noiva e Noivo reinam para todo o sempre!”
Capítulo 19 concluído
O Crente Não É Órfão