Capítulo 15 · 18 min de leitura
Ação de Graças Versus Queixa
“Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1 Tessalonicenses 5:18).
A ação de graças e a queixa são duas atitudes opostas. A alma que dá graças pode encontrar conforto em tudo; a alma que se queixa não encontra conforto em nada.
A ordem de Deus é: “Em tudo dai graças.” É uma ordem positiva. Se queremos obedecer a Deus, precisamos simplesmente dar graças em tudo. Não há como escapar disso. Contudo, muitos cristãos veem isso como um “conselho de perfeição” que a mera carne e o sangue jamais poderiam alcançar. Inconscientemente, eles mudam as palavras para “seja resignado” em vez de “dê graças”, e para “em algumas coisas” em vez de “em tudo”.
Eles argumentam: “Se tudo viesse diretamente de Deus, eu poderia fazê-lo, mas a maioria das coisas vem por meios humanos ou pelo pecado.” A isto respondo: nem sempre podemos dar graças pelas coisas em si, mas sempre podemos dar graças pelo amor de Deus nas coisas. Ele está nelas em algum lugar, fazendo que até as mais dolorosas cooperem para o nosso bem. A fé nunca vê “causas secundárias” (as pessoas ou os erros que nos ferem); vê apenas a mão de Deus por trás delas. Quando os efeitos de uma provação nos alcançam, já se tornaram a vontade de Deus para nós e devem ser aceitos de suas mãos.
A história de José é uma ilustração. Nada poderia ter parecido mais contrário à vontade de Deus do que ser vendido como escravo por seus irmãos. Contudo, se ele tivesse conhecido o fim desde o princípio, teria sido cheio de gratidão. Sua escravidão foi a porta direta para as maiores bênçãos de sua vida. Ao final, José pôde dizer: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gênesis 50:20). Aos olhos dos sentidos, seus irmãos o enviaram ao Egito; aos olhos da fé, “Deus me enviou” (Gênesis 45:7).
Lembro-me de uma provação em minha própria vida, causada por outra pessoa. Eu estava cheia de amarga rebeldia e não via nada pelo que ser grata. Mas foi justamente aquela provação que produziu as mais ricas bênçãos da minha vida. Se ao menos eu tivesse tido fé suficiente para dar graças desde o início, quanta tristeza me teria sido poupada.
Receio que o mais alto a que muitos cristãos chegam seja “esforçar-se por alcançar a resignação” diante de coisas que não podem mudar. A ação de graças é um exercício quase desconhecido. No mundo, é considerado indelicado receber um benefício e deixar de agradecer; não consigo ver por que não seria igualmente indelicado para com Deus. Jamais pensaríamos em deixar de enviar um bilhete de agradecimento a um amigo por um presente insignificante, mas deixamos de agradecer a Deus pelos inúmeros benefícios que Ele derrama sobre nós.
Pior ainda, muitos se permitem queixar-se e murmurar. Está escrito que “o povo se queixou, e isso foi mau aos ouvidos do Senhor; e o Senhor ouviu, e a sua ira se acendeu” (Números 11:1). Somos tentados a pensar que a nossa queixa “espiritual” não O desagrada — que é sinal de zelo ou de profundo discernimento. Mas a queixa é o oposto da fé que agrada a Deus.
Mas a queixa é sempre igual, esteja ela no plano temporal ou no espiritual. Contém sempre o elemento da censura. Webster diz que queixar-se significa “fazer uma acusação ou imputação”. Não é apenas desgostar da coisa que temos de suportar; é encontrar culpa no agente que está por trás dela. Se examinarmos com cuidado o íntimo das nossas queixas, geralmente descobriremos que se fundam numa sutil censura a Deus. Sentimos secretamente como se Ele fosse o culpado, e formulamos acusações mentais contra Ele.
Por outro lado, a ação de graças sempre envolve o louvor ao Doador. Você já reparou quanto somos exortados na Bíblia a “louvar ao Senhor”? Essa era a parte principal da adoração de Israel: “Louvai ao Senhor, porque o Senhor é bom; cantai louvores ao seu nome, porque é agradável” (Salmos 135:3). Creio que, se as contássemos, encontraríamos mais ordens para dar graças “sempre por tudo” do que para qualquer outro ato. É evidente que o Senhor gosta de ser agradecido e louvado tanto quanto nós. Isso Lhe dá verdadeiro prazer, e a nossa falta em Lhe agradecer pelas suas “boas e perfeitas dádivas” (Tiago 1:17) fere o seu coração, assim como os nossos são feridos quando os que amamos deixam de valorizar o que lhes damos.
Quando o Apóstolo nos exorta a sermos “imitadores de Deus, como filhos amados”, ele inclui isto: “dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Efésios 5:1, 20). “Sempre por tudo” é uma expressão abrangente. Deve significar que não há nada em nossa vida — seja qual for o canal — que não contenha uma bênção oculta de Deus.
O Apóstolo nos diz que “toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ação de graças” (1 Timóteo 4:4). Mas é difícil crer que as coisas são boas quando não o parecem. Muitas vezes, as dádivas de Deus parecem maldições aos que só veem a superfície.
Quantas “boas e perfeitas dádivas” temos considerado maldições? Por quantas temos agradecido a nós mesmos, aos nossos amigos ou às nossas circunstâncias, sem olhar, para além dos doadores terrenos, ao Doador Celestial? É como se agradecêssemos ao mensageiro, mas nunca enviássemos uma palavra ao amigo que enviou o presente.
Mesmo quando percebemos que as coisas vêm de Deus, é difícil agradecer-Lhe pelo que dói. Contudo, agradecemos a um médico habilidoso por um tratamento, ainda que seja severo. Não deveríamos igualmente agradecer ao nosso Médico Divino quando Ele nos dá um remédio amargo para curar uma enfermidade espiritual, ou realiza uma operação dolorosa para nos livrar de algo nocivo?
Em vez de agradecer-Lhe, queixamo-nos. Normalmente dirigimos as nossas queixas não contra o Médico, mas contra o “frasco” em que Ele enviou o remédio. Esse “frasco” costuma ser um ser humano cuja indelicadeza ou descuido causou o nosso sofrimento — mas essa pessoa é apenas a “causa secundária” de que Deus se serviu para a nossa cura. O bom senso nos diz que é loucura irritar-se contra o frasco do remédio; é igual loucura irritar-se contra as “causas secundárias” destinadas a ensinar as nossas almas.
Quando os israelitas peregrinavam, eles “murmuraram contra Moisés e contra Arão” (Êxodo 16:2). Mas, na realidade, a sua queixa era contra Deus, pois fora Ele quem os levara até ali. O salmista chama a isso “falar contra Deus” (Salmos 78:19). A história divina não leva em conta as causas secundárias; vai diretamente à verdadeira Causa por trás delas.
Podemos assentar isto, então: toda queixa é “falar contra Deus”. As causas secundárias são impotentes para agir, exceto pela permissão de Deus; o que Ele permite torna-se disposição sua. O Senhor indignou-se com os que se queixavam “porquanto não creram em Deus, nem confiaram na sua salvação” (Salmos 78:22). No fundo, toda queixa significa que não confiamos na sua salvação.
O salmista diz: “Louvarei o nome de Deus com um cântico, e engrandecê-lo-ei com ação de graças. E isto agradará ao Senhor mais do que um boi ou novilho” (Salmos 69:30-31). Muitos estão dispostos a oferecer um grande sacrifício, mas um pouco de louvor genuíno Lhe agradaria mais.
A Bíblia a chama de “sacrifício de ação de graças” (Levítico 7:12). É um ato de adoração. “Ofereçam sacrifícios de ação de graças, e anunciem as suas obras com júbilo!” (Salmos 107:22). É algo fácil de oferecer, mas, se as orações dos cristãos fossem anotadas por um único dia, receio que descobriríamos — como aconteceu com os dez leprosos — que nove em cada dez não ofereceram nenhum agradecimento genuíno.
O nosso Senhor entristeceu-Se com aqueles leprosos ingratos: “Não foram dez os limpos? E os nove, onde estão?
Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro?” (Lucas 17:17-18). Fará Ele a mesma pergunta a nós? Admiramo-nos da ingratidão deles, mas e da nossa? Não passamos nós por inúmeras bênçãos e fixamos os olhos nas nossas “perdas”, até que todo o nosso horizonte se enche delas?
Podemos avaliar quanto isso deve entristecer o Senhor pelos nossos próprios sentimentos. Um filho que se queixa da provisão que um pai lhe fez fere o coração desse pai, muitas vezes além de qualquer palavra. Todos nós conhecemos pessoas que estão sempre se queixando — nada as agrada, e nenhuma bondade é jamais valorizada.
Sabemos quão desconfortável a companhia delas nos torna e, ao contrário, quanto a vida se ilumina com alguém que encontra algo que lhe agrade em tudo o que vem. Creio que muito mais infelicidade é causada nos corações humanos pelas resmungações daqueles a quem amam do que imaginamos; e creio que feridas que jamais sonhamos são infligidas ao coração do nosso Pai que está nos céus pela contínua murmuração de seus filhos.
Quantas vezes se diz dos espíritos impacientes: “Será que nada jamais os satisfará?” E quantas vezes Deus há de afastar-Se, entristecido pelas nossas queixas, quando o seu amor tem sido prodigalizado sobre nós em bênçãos incontáveis. Já pensei, por vezes, que, se percebêssemos isso, refrearíamos a nossa dor desmedida, mesmo diante da perda daqueles que amamos, e procuraríamos, por amor a Ele, ser alegres e contentes ainda em nossa condição solitária.
Lembro-me de ter ouvido falar de uma menina que passou por um tratamento médico muito doloroso. Os médicos temiam os seus gritos, mas, para espanto deles, nem um gemido lhe escapou. Ela apenas sorria para o pai. Quando lhe perguntaram como conseguia, respondeu: “Eu sabia o quanto meu pai me amava, e sabia como ele sofreria se me visse sofrer; por isso procurei esconder, e sorri para fazê-lo pensar que não me importava.” Será que algum de nós pode fazer isto pelo nosso Pai Celestial?
Jó foi um grande queixoso, e poderíamos pensar que tinha boa razão. Ele disse: “A minha alma tem tédio da minha vida; darei livre curso à minha queixa, falarei na amargura da minha alma” (Jó 10:1). Dificilmente podemos admirar-nos dele. Contudo, se ele pudesse ter visto o lado divino, teria sabido que as suas aflições foram permitidas no mais terno amor, para lhe trazer uma revelação de Deus que ele não poderia ter por nenhum outro meio. Se ele tivesse visto o fim desde o princípio, a ação de graças teria tomado o lugar da queixa.
Os filhos de Israel estavam sempre se queixando. Queixaram-se quando não tinham água e, quando a água lhes foi dada, queixaram-se de que era amarga. Fazemos o mesmo quando a nossa “água” espiritual parece amarga — quando os exercícios religiosos parecem enfadonhos e insatisfatórios. Afastamo-nos da “fonte das águas vivas” e depois nos queixamos porque as “cisternas rotas” que cavamos para nós mesmos não retêm água (Jeremias 2:13).
Os israelitas queixaram-se do seu alimento, temendo morrer de fome, e depois se queixaram quando o maná lhes foi dado, porque a sua “alma tinha fastio deste pão tão vil” (Números 21:5). Nós também nos queixamos do nosso alimento espiritual — de que o nosso pregador não nos “alimenta” ou de que nos faltam os privilégios que outros têm. Pedimos pão e depois nos queixamos de que Ele nos deu uma pedra. Mas o nosso Mestre Divino sabe qual alimento e qual bebida nos são melhores. O admirável é que não conseguimos crer, sem esperar pelo fim, que o Pastor sabe qual é a melhor pastagem.
Jonas fornece uma ilustração maravilhosa. A sua oração de ação de graças veio do “ventre do inferno”: “Da minha angústia clamei ao Senhor, e Ele me respondeu... Mas eu te oferecerei sacrifício com a voz do agradecimento” (Jonas 2:2, 9). Nenhuma profundidade de miséria é grande demais para o sacrifício de ação de graças. Não agradecemos a Deus pela miséria, mas na miséria, sabendo que Ele está ali para ajudar e abençoar.
Não é porque as coisas são boas que agradecemos ao Senhor, mas porque Ele é bom. Não somos sábios o bastante para julgar se uma circunstância é, em sua essência, alegria ou tristeza, mas sabemos que a sua bondade torna certo que aquilo que Ele permite há de ser para o nosso bem final.
No folheto “A Caixa Missionária da Sra. Pickett”, uma mulher que se queixara a vida inteira foi desafiada a pôr uma moeda numa caixa por cada benefício que descobrisse. Ela disse: “‘Grandes benefícios eu tenho!’, digo eu... ‘Acho que os pagãos não vão tirar muito de mim.’ Resolvi que ia manter a conta, só para mostrar a mim mesma quão pouco eu tinha.”
Mas, sentada em seus degraus, ouvindo falar de mulheres em outras terras que passavam fome e eram maltratadas, ela exclamou: “Bem, se sou viúva, sou grata por estar onde posso ganhar o meu próprio sustento!” A sobrinha lhe disse que aquele era o seu primeiro benefício. Ela deixou cair uma moeda. Depois pôs outra, porque não era chinesa. Então vendeu alguns ovos — “uma moeda vendendo ovos” — e, quando tentou dizer que aquilo não era um benefício do Senhor, a sobrinha cantou: “A graça de Deus é a única graça, e toda graça é a graça de Deus.”
Logo ela estava à procura de coisas pelas quais ser grata, e a caixa já não chacoalhava tanto quando a sacudia.
Há um Salmo que chamo de o nosso Salmo dos Benefícios. É o centésimo terceiro, e ele relata alguns dos benefícios que o Senhor nos concedeu, e nos exorta a não os esquecer. “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios” (Salmos 103:2). A caixa de Benefícios da nossa querida irmã lhe havia ensinado algo do sentido deste Salmo. A vida inteira ela vinha esquecendo os benefícios que o Senhor lhe concedera, mas agora começava a recordá-los.
Já começamos a recordar os nossos?
Se, durante o ano passado, tivéssemos mantido a conta daqueles benefícios pelos quais realmente demos graças, quantas moedas, pergunto-me, teriam as nossas caixas?
Às vezes cantamos, nas reuniões missionárias, um hino de ação de graças, cujo estribilho diz: “Conte as suas muitas bênçãos, enumere-as uma a uma, e ficará surpreso com o que o Senhor tem feito.” E, por vezes, me perguntei se algum de nós que o cantávamos tão de coração já mantivera o mínimo registro das suas bênçãos, ou se sequer sabia, de fato, que tinha alguma.
Pois o problema é que, muitíssimas vezes, as dádivas de Deus nos chegam embrulhadas em invólucros tão ásperos que somos tentados a rejeitá-las como sem valor; ou os mensageiros que as trazem vêm sob o disfarce de inimigos, e queremos fechar-lhes a porta e não lhes dar entrada. Mas perdemos muito mais do que imaginamos quando rejeitamos até as mais improváveis.
“O mal é apenas o escravo do bem, e a tristeza, a serva da alegria; e louca é a alma que recusa alimento vindo do menor a serviço de Deus.”
Somos ordenados a entrar pelas suas portas com ação de graças, e em seus átrios com louvor, e estou convencida de que dar graças é a chave que abre essas portas mais depressa do que qualquer outra coisa. Experimente, caro leitor. Da próxima vez que você se sentir morto, frio e abatido, comece a louvar e a agradecer ao Senhor. Enumere para si mesmo os benefícios que Ele lhe concedeu, e agradeça-Lhe de coração por cada um, e veja se o seu ânimo não começa a elevar-se e o seu coração a aquecer-se. Às vezes, pode ser que você se sinta desanimado demais para orar; então experimente dar graças em vez disso; e, antes que perceba, você se encontrará “alegre” na multidão das suas benignidades e das suas ternas misericórdias.
Uma de minhas amigas me contou que o seu filhinho, certa noite, recusou-se terminantemente a fazer as suas orações. Ele disse que não havia uma única coisa no mundo inteiro que desejasse, e não via de que servia pedir coisas que não queria. Um pensamento feliz ocorreu à sua mãe, e ela disse: “Bem, Charlie, então que tal darmos graças por todas as coisas que você tem?” A ideia agradou à criança, e ele, de muito boa vontade, ajoelhou-se e começou a dar graças. Agradeceu a Deus pelas suas bolinhas de gude, e por um pião novo que acabara de ganhar, e pelas suas pernas fortes que podiam correr tão longe, e por não ser cego como um menininho que ele conhecia, e pelo seu pai e pela sua mãe bondosos, e pela sua boa cama, e por uma após outra das suas bênçãos, até que a lista ficou tão longa que, por fim, ele disse acreditar que nunca acabaria. E quando finalmente se levantaram dos joelhos, ele disse à mãe, com o rosto brilhando de felicidade: “Ah, mamãe, eu nunca soube antes como Deus é perfeitamente esplêndido!” E creio que, se seguíssemos por vezes o exemplo desse menininho, também nós descobriríamos, como nunca antes, a bondade do nosso Deus.
É muito notável observar quanto a ação de graças teve a ver com a construção do Templo.
Quando haviam ajuntado os tesouros para o Templo, Davi deu graças ao Senhor por os ter capacitado a fazê-lo. Quando o Templo ficou concluído, deram graças outra vez. E então aconteceu uma coisa maravilhosa, pois sucedeu que, quando os trombeteiros e os cantores eram como um só, para fazerem ouvir uma só voz, bendizendo e louvando ao Senhor . . . então a casa se encheu de uma nuvem, a casa do Senhor, de modo que os sacerdotes não podiam permanecer em pé para ministrar, por causa da nuvem, porque a glória do Senhor encheu a casa de Deus. Quando o povo louvou e deu graças, então a casa se encheu da glória do Senhor. E podemos ter certeza de que a razão de os nossos corações não se encherem mais amiúde da “glória do Senhor” é que não fazemos ouvir a nossa voz com bastante frequência, louvando e agradecendo a Ele.
Se dar graças é o caminho para abrir as portas do Senhor, a queixa, por outro lado, fecha essas portas. Judas cita uma profecia de Enoque a respeito dos murmuradores: “para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele. Estes são murmuradores, queixosos da sua sorte, andando segundo as suas concupiscências” (Judas 1:15-16). As pessoas que são “murmuradoras” e “queixosas” proferem, em suas queixas, mais “duras palavras” contra o Senhor do que gostariam de admitir, ou do que hão de querer enfrentar no último dia. E não é de admirar que o resultado seja o juízo de Deus, em vez da “glória de Deus”.
Quem me dera ter espaço para citar todas as passagens da Bíblia sobre dar graças e louvores ao Senhor. É seguro dizer que há centenas e centenas delas; e é espantoso como puderam ser tão persistentemente ignoradas. Peço-lhe que leia os últimos sete Salmos e veja o que acha. Eles estão simplesmente transbordando de uma lista das coisas pelas quais o salmista nos convoca a dar graças; todas elas coisas relativas ao caráter e aos caminhos de Deus, que não ousamos contestar. Não são, em sua maior parte, bênçãos particulares nossas, mas as bênçãos comuns que pertencem a toda a humanidade, e que contêm em si mesmas toda bênção particular de que possamos precisar. Mas são bênçãos que continuamente esquecemos, porque as tomamos como certas, e mal notamos a sua existência, e nunca damos graças por elas.
Mas o salmista sabia como “contar as suas muitas bênçãos e enumerá-las uma a uma”, e ele quer que façamos o mesmo. Experimente, caro leitor, e você ficará de fato surpreso ao ver o que o Senhor tem feito. Percorra estes Salmos versículo por versículo, e bênção por bênção, e veja se, como o menininho da nossa história, você não é levado a confessar que nunca soube antes “como Deus é esplêndido”.
O último versículo do Livro dos Salmos, tomado em ligação com a visão de João no Livro do Apocalipse, é muito significativo. O salmista diz: “Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor” (Salmos 150:6). E, no Livro do Apocalipse, João, que se declara nosso irmão e companheiro na tribulação, nos diz que ouviu isso ser feito: “E ouvi toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e todas as coisas que neles há, dizer: ‘Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre!’” (Apocalipse 5:13). O tempo do louvor universal certamente há de chegar algum dia. Comecemos a fazer a nossa parte agora.
Ouvi certa vez falar de um homem descontente e queixoso que, para grande surpresa dos seus amigos, tornou-se alegre e feliz, e cheio de gratidão. Depois de observá-lo por algum tempo e de se convencerem de que a mudança era permanente, perguntaram-lhe o que acontecera. “Ah”, respondeu ele, “mudei de residência. Eu costumava morar na Travessa da Resmungação, mas agora me mudei para a Praça da Ação de Graças, e descubro que sou tão rico em bênçãos que estou sempre feliz.”
Faremos cada um de nós essa mudança agora?