Grande Poder na Oração ·O Trono da Graça

Capítulo 2 · 37 min de leitura

O Trono da Graça

“O trono da graça.”—Hebreus 4:16

ESTAS palavras encontram-se engastadas naquele versículo tão cheio de graça: “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno”; são uma joia num engaste de ouro. A verdadeira oração é uma aproximação da alma, pelo Espírito de Deus, ao trono de Deus. Não é a pronúncia de palavras, não é tão somente o sentir de desejos, mas é o avanço dos desejos a Deus, a aproximação espiritual da nossa natureza para com o Senhor nosso Deus. A verdadeira oração não é um mero exercício mental, nem uma execução vocal, mas é algo muito mais profundo do que isso—é um comércio espiritual com o Criador do céu e da terra. Deus é um Espírito que olho mortal não vê, e que só pode ser percebido pelo homem interior; o nosso espírito dentro de nós, gerado pelo Espírito Santo na nossa regeneração, discerne o Grande Espírito, comunga com ele, apresenta-lhe as suas petições e recebe dele respostas de paz. É um negócio espiritual do princípio ao fim; e o seu fim e objeto não terminam no homem, mas alcançam o próprio Deus.

Para tal oração, é necessária a obra do próprio Espírito Santo. Se a oração fosse apenas dos lábios, bastaria termos fôlego nas narinas para orar; se a oração fosse apenas dos desejos, muitos desejos excelentes são facilmente sentidos até pelos homens naturais; mas quando se trata do desejo espiritual, e da comunhão espiritual do espírito humano com o Grande Espírito, então o próprio Espírito Santo há de estar presente por toda ela, para socorrer a nossa fraqueza e dar vida e poder; do contrário a verdadeira oração jamais será apresentada, mas aquilo que se oferece a Deus terá o nome e terá a forma, enquanto a vida interior da oração estará bem longe dela.

Além disso, fica claro pela conexão do nosso texto que a intervenção do Senhor Jesus Cristo é essencial à oração aceitável. Assim como a oração não será verdadeiramente oração sem o Espírito de Deus, também não será oração prevalecente sem o Filho de Deus. ele, o Grande Sumo Sacerdote, deve entrar por nós para dentro do véu; ou antes, por meio da sua pessoa crucificada o véu deve ser inteiramente removido; pois, até então, estamos excluídos do Deus vivo. O homem que, a despeito do ensino da Escritura, tenta orar sem um Salvador insulta a Divindade; e aquele que imagina que os seus próprios desejos naturais, subindo diante de Deus, não aspergidos com o precioso sangue, serão um sacrifício aceitável diante de Deus, engana-se; não trouxe uma oferta que Deus possa aceitar, tanto quanto se tivesse cortado o pescoço de um cão ou oferecido um sacrifício imundo. Operada em nós pelo Espírito, apresentada por nós pelo Cristo de Deus, a oração se torna poder diante do Altíssimo, mas não de outra forma.

A fim de, caros amigos, despertar vocês para a oração nesta manhã, e para que as suas almas sejam levadas a se aproximar do Trono da Graça, proponho-me a tomar estas poucas palavras e a tratá-las conforme Deus me der capacidade. Vocês começaram a orar; Deus começou a responder. Esta semana foi das mais memoráveis na história desta igreja. Números maiores do que jamais antes, de uma só vez, vieram à frente confessar a Cristo—resposta tão evidente às súplicas do povo de Deus como se a mão do Altíssimo se tivesse estendido desde o céu, entregando-nos as bênçãos que pedimos. Agora, continuemos em oração; sim, ganhemos forças na intercessão, e quanto mais bem-sucedidos formos, tanto mais fervorosos sejamos para alcançar cada vez mais. Não nos estreitemos nas nossas próprias entranhas, visto que não somos estreitados no nosso Deus. Este é um bom dia, e um tempo de boas novas, e, tendo nós o ouvido do Rei, anseio muito que falemos a ele por milhares de outros; para que também eles, em resposta às nossas súplicas, sejam trazidos para perto de Cristo.

Ao tentar falar do texto nesta manhã, tomá-lo-ei assim: Primeiro, eis aqui um trono; depois, em segundo lugar, eis aqui a graça; em seguida uniremos os dois, e veremos a graça sobre um trono; e, unindo-os em outra ordem, veremos a soberania manifestando-se, e resplandecente em graça.

II. O nosso texto fala de UM TRONO:—“O Trono da Graça.” Deus deve ser visto, na oração, como nosso Pai; esse é o aspecto que nos é mais querido; mas ainda assim não devemos considerá-lo como se fosse tal como nós; pois o nosso Salvador qualificou a expressão “Pai nosso” com as palavras “que estás nos céus”; e logo em seguida a esse nome condescendente, para nos lembrar de que o nosso Pai é ainda infinitamente maior do que nós, mandou-nos dizer: “Santificado seja o teu nome; venha o teu reino”; de modo que o nosso Pai ainda deve ser considerado como um Rei, e, na oração, viemos não somente aos pés do nosso Pai, mas viemos também ao trono do Grande Monarca do universo. O propiciatório é um trono, e não devemos esquecer disto.

Se a oração sempre fosse por nós considerada como uma entrada nos átrios da realeza do céu; se nos comportássemos como devem os cortesãos na presença de uma majestade ilustre, então não ficaríamos sem saber qual o espírito correto com que orar. Se, na oração, chegamos a um trono, é claro que o nosso espírito deve, em primeiro lugar, ser de humilde reverência. Espera-se que o súdito, ao aproximar-se do rei, lhe preste homenagem e honra. O orgulho que não reconhece o rei, a traição que se rebela contra a vontade soberana deveriam, se fossem sábios, evitar qualquer aproximação ao trono. Que o orgulho morda o freio à distância, que a traição se esconda pelos cantos, pois só a humilde reverência pode vir diante do próprio rei quando ele se assenta revestido dos seus mantos de majestade. No nosso caso, o rei diante de quem viemos é o mais alto de todos os monarcas, o Rei dos reis, o Senhor dos senhores. Os imperadores são apenas as sombras do seu poder imperial. Chamam-se reis por direito divino, mas que direito divino têm eles? O bom senso zomba das suas pretensões. Só o Senhor tem direito divino, e somente a ele pertence o reino. Ele é o bendito e único Soberano. Eles são apenas reis nominais, para serem levantados e depostos ao arbítrio dos homens, ou pelo decreto da providência, mas ele é o único Senhor, o Príncipe dos reis da terra.

“Ele não se assenta em trono inseguro,

Nem toma de empréstimo licença para ser.”

Ó meu coração, certifica-te de que te prostras em tal presença. Se ele é tão grande, põe a tua boca no pó diante dele, pois ele é o mais poderoso de todos os reis; o seu trono impera em todos os mundos; o céu lhe obedece de bom grado, o inferno treme ao seu franzir de sobrolho, e a terra é constrangida a render-lhe homenagem, de boa ou má vontade. O seu poder pode criar ou destruir. Criar ou esmagar, tanto uma como outra coisa lhe é bastante fácil. Ó minha alma, certifica-te de que, ao te achegares ao Onipotente, que é como um fogo consumidor, tiras os sapatos dos teus pés e o adoras com a mais humilde humildade.

Além disso, ele é o mais Santo de todos os reis. O seu trono é um grande trono branco, sem mácula, e límpido como o cristal. “Os céus não são puros aos seus olhos, e aos seus anjos atribuiu loucura.” E você, criatura pecadora, com que humildade deveria achegar-se a ele. Pode haver familiaridade, mas que ela não seja profana. Deve haver ousadia, mas que ela não seja impertinente. Ainda assim você está na terra e ele no céu; ainda assim você é um verme do pó, uma criatura esmagada diante da traça, e ele é o Eterno: antes que os montes fossem formados, ele era Deus, e, ainda que todas as coisas criadas viessem de novo a passar, ele continuaria a ser o mesmo. Meus irmãos, receio que não nos curvamos como deveríamos diante da Majestade Eterna; mas, de agora em diante, peçamos ao Espírito de Deus que nos ponha na disposição correta, para que cada uma das nossas orações seja uma aproximação reverente à Infinita Majestade lá do alto.

Um trono, e portanto, em segundo lugar, a ser abordado com alegria devota. Se me acho favorecido pela graça divina a estar entre aqueles privilegiados que frequentam os seus átrios, não me hei de sentir contente? Eu poderia estar na sua prisão, mas estou diante do seu trono; eu poderia ter sido banido da sua presença para sempre, mas me é permitido achegar-me a ele, até mesmo ao seu palácio real, à sua câmara secreta de graciosa audiência—não hei de então ser grato? Não subirá a minha gratidão em alegria, e não hei de sentir que sou honrado, que sou feito destinatário de grandes favores quando me é permitido orar? Por que está triste o seu semblante, ó suplicante, quando você se posta diante do trono da graça? Se você estivesse diante do trono da justiça para ser condenado pelas suas iniquidades, bem poderiam as suas mãos estar sobre os seus lombos; mas agora você é favorecido a vir diante do Rei nas suas vestes sedosas de amor—deixe o seu rosto brilhar de sagrado deleite. Se as suas tristezas são pesadas, conte-as a ele, pois ele pode abrandá-las; se os seus pecados se multiplicam, confesse-os, pois ele pode perdoá-los. Ó vocês, cortesãos nos salões de tal monarca, alegrem-se sobremaneira, e misturem louvores com as suas orações.

É um trono, e portanto, em terceiro lugar, sempre que dele nos aproximamos, deve ser com completa submissão. Não oramos a Deus para instruí-lo quanto ao que ele deve fazer, nem por um momento devemos presumir ditar o curso do proceder divino. É-nos permitido dizer a Deus: “Assim e assim o quiséramos”, mas devemos sempre acrescentar: “Porém, visto que somos ignorantes e podemos estar enganados—visto que ainda estamos na carne e, portanto, podemos ser movidos por motivos carnais—não como nós queremos, mas como tu queres.” Quem ditará ao trono? Nenhum filho leal de Deus imaginará por um momento que lhe cabe ocupar o lugar do Rei, mas ele se curva diante daquele que tem o direito de ser Senhor de tudo; e, ainda que exprima o seu desejo com fervor, com veemência, com importunação, e rogue e torne a rogar, é sempre com esta necessária ressalva: “Seja feita a tua vontade, meu Senhor; e, se eu pedir algo que não esteja de acordo com ela, a minha vontade mais íntima é que tenhas a bondade de negá-lo ao teu servo; tomarei como verdadeira resposta se me recusares, caso eu peça aquilo que não parece bom aos teus olhos.” Se nos lembrássemos disto constantemente, penso que estaríamos menos inclinados a insistir em certas causas diante do trono, pois sentiríamos: “Estou aqui buscando o meu próprio sossego, o meu próprio conforto, a minha própria vantagem, e, quem sabe, posso estar pedindo aquilo que desonraria a Deus; portanto falarei com a mais profunda submissão aos decretos divinos.”

Mas, irmãos, em quarto lugar, se é um trono, deve ser abordado com expectativas ampliadas. Bem o diz o nosso hino:

“A um Rei tu vens chegando;

Grandes petições contigo traz.”

Não viemos, por assim dizer, na oração, apenas à esmolaria de Deus, onde ele dispensa os seus favores aos pobres, nem viemos à porta dos fundos da casa da misericórdia para receber as sobras despedaçadas, ainda que isso já fosse mais do que merecemos; comer as migalhas que caem da mesa do Senhor já é mais do que poderíamos reivindicar; mas, quando oramos, estamos de pé no palácio, sobre o piso reluzente da própria sala de audiências do grande Rei, e assim somos postos num terreno privilegiado. Na oração, estamos de pé onde os anjos se curvam com o rosto velado; ali, ali mesmo, os querubins e os serafins adoram, diante desse mesmíssimo trono ao qual sobem as nossas orações. E haveremos de vir ali com pedidos atrofiados, e com uma fé estreita e encolhida? Não; não convém a um Rei ficar distribuindo tostões e vinténs—ele reparte peças de ouro maciço; não espalha, como fazem os pobres por necessidade, restos de pão e carne em pedaços, mas prepara um banquete de coisas gordurosas, de coisas gordurosas cheias de tutano, de vinhos sobre as fezes, bem refinados. Quando se disse ao soldado de Alexandre que pedisse o que quisesse, ele não pediu mesquinhamente conforme a natureza dos seus próprios méritos, mas fez uma exigência tão pesada que o tesoureiro real se recusou a pagá-la, e levou o caso a Alexandre, e Alexandre, ao modo verdadeiramente régio, respondeu: “Ele sabe quão grande é Alexandre, e pediu como quem pede a um rei; dê-se-lhe o que ele solicita.” Guarde-se de imaginar que os pensamentos de Deus são como os seus pensamentos, e os caminhos dele como os seus caminhos. Não traga diante de Deus petições mesquinhas e desejos estreitos, dizendo: “Senhor, faze conforme estes”, mas lembre-se de que, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim os caminhos dele são mais altos do que os seus caminhos, e os pensamentos dele mais altos do que os seus pensamentos; e peça, portanto, ao modo divino, peça grandes coisas, pois você está diante do trono da graça—porque então ele faria por nós muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos.

E, amados, posso acrescentar, em quinto lugar, que o espírito correto com que nos aproximar do trono da graça é o de confiança inabalável. Quem duvidará do Rei? Quem ousa contestar a palavra Imperial? Bem se disse que, se a integridade fosse banida do coração de todo o resto da humanidade, ainda assim deveria habitar no coração dos reis. Vergonha a um rei, se ele é capaz de mentir. O mais reles mendigo das ruas é desonrado por uma promessa quebrada—que diremos, então, de um rei, se não se pode confiar na sua palavra? Oh, vergonha sobre nós, se somos incrédulos diante do trono do Rei do céu e da terra. Com o nosso Deus à nossa frente em toda a sua glória, assentado no trono da graça, ousará o nosso coração dizer que desconfiamos dele? Havemos de imaginar que ele não pode, ou não quer, cumprir a sua promessa? Banidos sejam tais pensamentos blasfemos; e, se hão de vir, que venham sobre nós quando estivermos em algum lugar nos confins dos seus domínios, se é que tal lugar existe, mas não na oração, quando estamos na sua presença imediata e o contemplamos em toda a glória do seu trono da graça. Ali, por certo, é o lugar para o filho confiar no seu Pai, para o súdito leal confiar no seu monarca; e, portanto, longe estejam toda vacilação ou suspeita. A fé inabalável deve predominar diante do propiciatório.

Apenas mais uma observação sobre este ponto, a saber: se a oração é um vir diante do trono de Deus, ela deve sempre ser conduzida com a mais profunda sinceridade, e no espírito que torna tudo real. Se você é desleal o bastante para desprezar o Rei, ao menos, para o seu próprio bem, não zombe dele na sua cara, e quando ele está sobre o seu trono. Se em algum lugar você ousa repetir palavras santas sem o coração, que não seja no palácio de Jeová. Se alguém pedisse audiência com a realeza, e então dissesse: “Mal sei por que vim; não sei se tenho algo muito particular a pedir; não tenho nenhuma causa muito urgente a apresentar”—não seria culpado tanto de tolice como de baixeza? Quanto ao nosso grande Rei, quando nos aventuramos à sua presença, tenhamos ali um recado. Como eu disse no outro sábado, guardemo-nos de brincar de orar. É insolência para com Deus. Se sou chamado a orar em público, não devo ousar usar palavras destinadas a agradar aos ouvidos dos meus companheiros de adoração, mas devo perceber que estou falando ao próprio Deus, e que tenho negócios a tratar com o grande Senhor. E, na minha oração particular, se, ao levantar-me da cama pela manhã, dobro o joelho e repito certas palavras, ou, ao recolher-me para descansar à noite, cumpro a mesma forma regular, antes peco do que faço qualquer coisa boa, a menos que a minha própria alma fale ao Altíssimo. Você pensa que o Rei do céu se deleita em ouvi-lo pronunciar palavras com língua frívola e mente desatenta? Você não o conhece. Ele é Espírito, e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade. Se você tem alguma fórmula vazia para tagarelar, vá derramá-la nos ouvidos de tolos como você, mas não diante do Senhor dos Exércitos. Se você tem certas palavras a proferir, às quais atribui uma reverência supersticiosa, vá dizê-las nos átrios ataviados da meretriz Roma, mas não diante do glorioso Senhor de Sião. O Deus espiritual busca adoradores espirituais, e a tais ele aceitará, e somente a tais; mas o sacrifício do ímpio é abominação ao Senhor, e somente uma oração sincera é o seu deleite.

Amados, o resumo de todas as nossas observações é justamente este:—a oração não é ninharia. É um ato eminente e elevado. É um alto e admirável privilégio. Sob o antigo Império Persa, alguns poucos da nobreza tinham licença de entrar a qualquer hora à presença do rei, e isso era tido como o mais alto privilégio que os mortais possuíam. Você e eu, o povo de Deus, temos uma permissão, um salvo-conduto para vir diante do trono do céu a qualquer hora que quisermos, e somos encorajados a vir ali com grande ousadia; mas ainda assim não nos esqueçamos de que não é coisa pequena ser cortesão nos átrios do céu e da terra, adorar aquele que nos fez e nos sustenta em existência. Verdadeiramente, quando tentamos orar, podemos ouvir a voz que diz, saída da glória excelsa: “Dobra o joelho.” De todos os espíritos que contemplam a face do nosso Pai que está nos céus, ainda agora ouço uma voz que diz: “Oh, vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor que nos fez; porque ele é o nosso Deus, e nós somos o povo do seu pasto e as ovelhas da sua mão. Adorai ao Senhor na beleza da santidade; tremei diante dele, toda a terra.”

II. Para que o fulgor e o brilho da palavra “trono” não sejam demasiado para a visão mortal, o nosso texto agora nos apresenta o resplendor suave e brando daquela deliciosa palavra—“GRAÇA.” Somos chamados ao trono da graça, não ao trono da lei. O rochoso Sinai foi outrora o trono da lei, quando Deus veio de Parã com dez mil dos seus santos. Quem desejava chegar perto daquele trono? Nem mesmo Israel o podia. Puseram-se limites ao redor do monte, e, se apenas um animal tocasse o monte, era apedrejado ou traspassado com um dardo. Ó vocês, justos aos próprios olhos, que esperam poder obedecer à lei, e pensam poder ser salvos por ela, olhem para as chamas que Moisés viu, e encolham-se, e tremam, e desesperem-se. A esse trono não viemos agora, pois, por meio de Jesus, o caso está mudado. Para uma consciência purificada pelo precioso sangue não há ira sobre o trono divino, embora, para as nossas mentes perturbadas—

“Outrora foi trono de ira ardente,

E lançava chama devoradora;

Nosso Deus surgia como fogo consumidor,

E zeloso era o seu nome.”

E, bendito seja Deus, não é do trono da justiça final que havemos de falar nesta manhã. Diante dele todos compareceremos, e quantos de nós tivermos crido o acharemos ser tanto um trono de graça como de justiça; pois aquele que se assenta sobre aquele trono não pronunciará sentença de condenação contra o homem que é justificado pela fé. Mas não é para chamá-los nesta manhã ao lugar de onde a trombeta da ressurreição soará tão aguda e clara. Tampouco vemos ainda os anjos, com as suas espadas vingadoras, saírem a ferir os inimigos de Deus; ainda não se abriram as grandes portas do abismo para tragar os inimigos que não quiseram que o Filho de Deus reinasse sobre eles. Ainda estamos em terreno de oração e em termos de súplica com Deus, e o trono ao qual somos convidados a vir, e de que falamos neste momento, é o trono da graça. É um trono erguido de propósito para a dispensação da graça; um trono do qual toda expressão é expressão de graça; o cetro que dele se estende é o cetro de prata da graça; os decretos dele proclamados são propósitos de graça; os dons espalhados pelos seus degraus dourados são dons de graça; e aquele que se assenta sobre o trono é a própria graça. É ao trono da graça que nos aproximamos quando oramos; e ponderemos isto por um momento ou dois, a título de consolador encorajamento aos que estão começando a orar; sim, a todos nós que somos homens e mulheres de oração.

Se, na oração, venho diante de um trono de graça, então as faltas da minha oração serão relevadas. Ao começarem a orar, caros amigos, vocês sentem como se não orassem. Os gemidos do seu espírito, quando se levantam dos joelhos, são tais que vocês julgam não haver neles coisa alguma. Que oração borrada, embaçada, esborratada! Não importa; vocês não vieram ao trono da justiça—caso contrário, ao perceber a falta na oração, Deus a desprezaria—as suas palavras entrecortadas, os seus arquejos e gaguejos estão diante de um trono de graça. Quando qualquer um de nós apresenta a Deus a sua melhor oração, se a visse como Deus a vê, sem dúvida faria grande lamentação sobre ela; pois há pecado suficiente na melhor oração que já se orou para garantir que fosse lançada para longe de Deus. Mas não é um trono de justiça, torno a dizer, e aqui está a esperança para as nossas súplicas mancas e coxeantes. O nosso condescendente Rei não mantém em sua corte uma etiqueta cerimoniosa como a que se observa entre os príncipes dos homens, onde um pequeno erro ou uma falha bastaria para que o suplicante fosse despedido com vergonha. Oh, não; os clamores defeituosos dos seus filhos não são por ele severamente criticados. O Alto Camareiro do palácio lá do alto, o nosso Senhor Jesus Cristo, encarrega-se de alterar e emendar cada oração antes de apresentá-la, e torna a oração perfeita com a sua perfeição, e prevalecente com os seus próprios méritos. Deus olha para a oração, tal como apresentada por meio de Cristo, e perdoa toda a sua falta inerente. Como isto deveria encorajar qualquer um de nós que se sinta débil, vacilante e inábil na oração. Se você não consegue rogar a Deus como às vezes rogava em anos passados, se sente como se de algum modo tivesse enferrujado na obra da súplica, nunca desista, mas venha ainda assim; sim, e venha mais amiúde, pois não é um trono de severa crítica, é um trono de graça aquele ao qual você vem.

Depois, ainda, visto que é um trono de graça, as faltas do próprio suplicante não impedirão o êxito da sua oração. Oh, quantas faltas há em nós! Para vir diante de um trono, quão indignos somos—nós, que estamos todos manchados de pecado por dentro e por fora! Ousaria algum de vocês pensar em orar, não fosse o trono de Deus um trono de graça? Se vocês pudessem, confesso que eu não poderia. Um Deus absoluto, infinitamente santo e justo, não poderia, em coerência com a sua natureza divina, responder a qualquer oração de um pecador como eu sou, não fosse ter ele disposto um plano pelo qual a minha oração já não sobe a um trono de justiça absoluta, mas a um trono que é também o propiciatório, a propiciação, o lugar onde Deus se encontra com os pecadores, por meio de Jesus Cristo. Ah, eu não poderia dizer a vocês “Orem”, nem mesmo a vocês, santos, se não fosse um trono de graça, muito menos poderia falar de oração a vocês, pecadores; mas agora direi isto a todo pecador aqui presente, ainda que se julgue o pior pecador que jamais viveu: clame ao Senhor e busque-o enquanto se pode achá-lo. Um trono de graça é um lugar próprio para você: vá de joelhos; por simples fé vá ao seu Salvador, pois ele, ele é que é o trono da graça. É nele que Deus pode dispensar graça ao mais culpado dos homens. Bendito seja Deus, nem as faltas da oração nem as do suplicante hão de excluir as nossas petições diante do Deus que se deleita em corações quebrantados e contritos.

Se é um trono de graça, então os desejos do que roga serão interpretados. Se eu não consigo achar palavras com que exprimir os meus desejos, Deus, na sua graça, lerá os meus desejos sem as palavras. Ele apreende o sentido dos seus santos, o sentido dos seus gemidos. Um trono que não fosse gracioso não se daria ao trabalho de decifrar as nossas petições; mas Deus, o infinitamente gracioso, mergulhará na alma dos nossos desejos, e lerá ali o que não podemos falar com a língua. Nunca você viu o pai, quando o seu filho tenta lhe dizer algo, e ele sabe muito bem o que a criancinha tem a dizer, ajudá-lo com as palavras e pronunciar as sílabas por ele, e, se a criancinha meio esqueceu o que queria dizer, você já viu o pai sugerir a palavra? Assim também o sempre bendito Espírito, do trono da graça, nos ajudará e nos ensinará palavras; sim, escreverá nos nossos corações os próprios desejos. Temos na Escritura casos em que Deus põe palavras na boca dos pecadores. “Tomai convosco palavras”, diz ele, “e dizei-lhe: Recebe-nos benignamente, e ama-nos livremente.” Ele porá os desejos, e porá a expressão desses desejos no seu espírito pela sua graça; dirigirá os seus desejos para as coisas que você deve buscar; ensinará a você as suas necessidades, ainda que por ora você não as conheça; sugerirá a você as suas promessas para que você possa alegá-las; será, de fato, o Alfa e o Ômega da sua oração, assim como o é da sua salvação; pois, assim como a salvação é do princípio ao fim de graça, também a aproximação do pecador ao trono da graça é de graça do princípio ao fim. Que consolo é este! Não haveremos, meus caros amigos, de com maior ousadia chegar a este trono, ao sugarmos o doce sentido desta preciosa palavra: “o trono da graça”?

Se é um trono de graça, então todas as necessidades dos que a ele vêm serão supridas. O Rei, de tal trono, não dirá: “Deves trazer-me dádivas, deves oferecer-me sacrifícios.” Não é um trono para receber tributo; é um trono para dispensar dádivas. Venham, pois, vocês que são pobres como a própria pobreza; venham vocês que não têm méritos e estão destituídos de virtudes; venham vocês que foram reduzidos a uma falência de mendigos pela queda de Adão e pelas suas próprias transgressões; este não é o trono de majestade que se sustenta pela tributação dos seus súditos, mas um trono que se glorifica jorrando como uma fonte torrentes de boas coisas. Venham, pois, agora, e recebam o vinho e o leite que são dados de graça; sim, venham comprar vinho e leite sem dinheiro e sem preço. Todas as necessidades do suplicante serão supridas, porque é um trono de graça.

E assim, todas as misérias do suplicante serão compadecidas. Suponha que eu venha ao trono da graça com o fardo dos meus pecados; há um sobre o trono que sentiu o fardo do pecado em eras há muito passadas, e não esqueceu o seu peso. Suponha que eu venha carregado de tristeza; há Um ali que conhece todas as tristezas a que a humanidade pode ser sujeita. Estou eu abatido e angustiado? Temo que o próprio Deus me tenha abandonado? Há Um sobre o trono que disse: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” É um trono de onde a graça se deleita em olhar as misérias dos homens com olhar terno, em considerá-las e em aliviá-las. Venham, pois; venham, pois; venham, pois, vocês que não são apenas pobres, mas miseráveis, cujas misérias fazem vocês ansiar pela morte, e contudo temê-la. Vocês, cativos, venham nas suas correntes; vocês, escravos, venham com os ferros sobre as suas almas; vocês, que estão assentados nas trevas, saiam mesmo vendados como estão. O trono da graça olhará para você, ainda que você não possa olhar para ele, e dará a você, ainda que você nada tenha a dar em troca, e libertará você, ainda que você não possa erguer um dedo para libertar-se.

“O trono da graça.” A palavra cresce à medida que a revolvo na mente, e para mim é uma reflexão deliciosíssima que, se eu venho ao trono de Deus em oração, posso sentir mil defeitos, e ainda assim há esperança. Costumo sentir-me mais insatisfeito com as minhas orações do que com qualquer outra coisa que faço. Não creio que seja coisa fácil orar em público de modo a conduzir acertadamente a devoção de uma grande congregação. Às vezes ouvimos elogiar pessoas por pregarem bem, mas, se alguém for capacitado a orar bem, haverá nisso um dom igual e uma graça mais alta. Mas, irmãos, suponham que nas nossas orações haja defeitos de conhecimento: é um trono de graça, e o nosso Pai sabe que temos necessidade destas coisas. Suponham que haja defeitos de fé: ele vê a nossa pouca fé e ainda assim não a rejeita, por menor que seja. Ele não mede em todos os casos os seus dons pelo grau da nossa fé, mas pela sinceridade e veracidade da fé. E, ainda que haja graves defeitos até no nosso espírito, e falhas no fervor ou na humildade da oração, ainda assim—embora tais coisas não devessem existir e sejam muito de lamentar—a graça releva tudo isto, perdoa tudo isto, e ainda assim a sua mão misericordiosa se estende para nos enriquecer conforme as nossas necessidades. Certamente isto deveria induzir a orar muitos que não têm orado, e deveria fazer-nos, a nós que há muito estamos acostumados a usar a consagrada arte da oração, chegar com maior ousadia do que nunca ao trono da graça.

III. Mas, agora, considerando o nosso texto como um todo, ele nos transmite a ideia da GRAÇA ENTRONIZADA. É um trono, e quem se assenta sobre ele? É a graça personificada que aqui está instalada em dignidade. E, verdadeiramente, hoje a graça está sobre um trono. No evangelho de Jesus Cristo, a graça é o atributo mais predominante de Deus. Como veio ela a ser tão exaltada? Respondemos: pois bem, a graça tem um trono por conquista. A graça desceu à terra na forma do Bem-amado, e deparou com o pecado. Longa e acirrada foi a luta, e a graça parecia ser pisada sob os pés do pecado; mas a graça por fim agarrou o pecado, lançou-o sobre os próprios ombros, e, embora quase esmagada sob o fardo, a graça carregou o pecado até a cruz e ali o pregou, ali o matou, deu-lhe morte para sempre, e triunfou gloriosamente. Por esta causa, nesta hora, a graça se assenta sobre um trono, porque venceu o pecado humano, levou a pena da culpa humana, e derrubou todos os seus inimigos.

A graça, além disso, assenta-se sobre o trono porque ali se estabeleceu por direito. Não há injustiça na graça de Deus. Deus é tão justo quando perdoa um crente como quando lança um pecador no inferno. Creio na minha própria alma que há tanta justiça, e tão pura, na aceitação de uma alma que crê em Cristo, quanto haverá na rejeição daquelas almas que morrem impenitentes, e são banidas da presença de Jeová. O sacrifício de Cristo habilitou Deus a ser justo, e contudo o justificador daquele que crê. Quem conhece a palavra “substituição”, e sabe soletrar o seu sentido corretamente, verá que nada é devido à justiça punitiva por qualquer crente, visto que Jesus Cristo pagou todas as dívidas do crente, e agora Deus seria injusto se não salvasse aqueles por quem Cristo vicariamente sofreu, para quem a sua justiça foi provida, e a quem ela é imputada. A graça está sobre o trono por conquista, e nele se assenta por direito.

A graça está entronizada neste dia, irmãos, porque Cristo terminou a sua obra e entrou nos céus. Está entronizada em poder. Quando falamos do seu trono, queremos dizer que ela tem poder ilimitado. A graça não se assenta no estrado dos pés de Deus; a graça não fica de pé nos átrios de Deus, mas assenta-se sobre o trono; é o atributo reinante; é o rei de hoje. Esta é a dispensação da graça, o ano da graça: a graça reina pela justiça para a vida eterna. Vivemos na era da graça reinante, pois, visto que ele vive sempre para interceder pelos filhos dos homens, Jesus pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus. Pecador, se você fosse encontrar a graça no atalho, como um viajante em sua jornada, eu o exortaria a travar conhecimento com ela e pedir a sua influência; se você encontrasse a graça como um mercador na bolsa, com tesouro na mão, eu o exortaria a cortejar a sua amizade—ela o enriquecerá na hora da pobreza; se você visse a graça como um dos nobres do céu, altamente exaltado, eu o exortaria a procurar obter os seus ouvidos; mas, oh, quando a graça se assenta sobre o trono, suplico-lhe que se una a ela imediatamente. Não pode ela estar mais alta, não pode ser maior, pois está escrito: “Deus é amor”, o que é um outro nome para graça. Oh, venha e curve-se diante dela; venha e adore a infinita misericórdia e graça de Deus. Não duvide, não hesite, não vacile. A graça reina; a graça é Deus; Deus é amor. Oh, quem dera você, vendo que a graça está assim entronizada, viesse e a recebesse. Digo, pois, que a graça está entronizada por conquista, por direito e por poder; e acrescentarei que está entronizada em glória, pois Deus glorifica a sua graça. É um dos seus intentos agora tornar ilustre a sua graça. Ele se deleita em perdoar os penitentes, e assim mostrar a sua graça que perdoa; deleita-se em olhar os desviados e restaurá-los, para mostrar a sua graça que recupera; deleita-se em olhar os quebrantados de coração e consolá-los, para mostrar a sua graça que consola. Há graça a receber de vários tipos, ou antes, a mesma graça agindo de modos diferentes, e Deus se deleita em tornar gloriosa a sua graça. Há um arco-íris ao redor do trono, semelhante a uma esmeralda, a esmeralda da sua compaixão e do seu amor. Ó almas felizes que podem crer nisto, e, crendo-o, podem vir imediatamente e glorificar a graça, tornando-se exemplos do seu poder.

IV. Por fim, o nosso texto, se corretamente lido, encerra em si a SOBERANIA RESPLANDECENTE EM GLÓRIA,—A GLÓRIA DA GRAÇA. O propiciatório é um trono; ainda que a graça ali esteja, continua a ser um trono. A graça não desloca a soberania. Ora, o atributo da soberania é altíssimo e terrível; a sua luz é semelhante a uma pedra de jaspe, preciosíssima, e semelhante a uma pedra de safira, ou, como Ezequiel a chama, “o cristal terrível.” Assim diz o Rei, o Senhor dos exércitos: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer.” “Quem és tu, ó homem, que replicas contra Deus? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?” “Não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” Estas são palavras grandes e terríveis, e não hão de ser respondidas. Ele é Rei, e fará como lhe aprouver. Ninguém deterá a sua mão, ou lhe dirá: Que fazes? Mas, ah! para que nenhum de vocês fique abatido ao pensar na sua soberania, convido vocês ao texto. É um trono—há soberania; mas, para toda alma que sabe orar, para toda alma que pela fé vem a Jesus, o verdadeiro propiciatório, a soberania divina não veste aspecto algum escuro e terrível, mas está cheia de amor. É um trono de graça; do que depreendo que a soberania de Deus para com um crente, para com um que roga, para com aquele que vem a Deus em Cristo, é sempre exercida em pura graça. Para você, para você que vem a Deus em oração, a soberania sempre decorre assim: “Terei misericórdia daquele pecador; embora não o mereça, embora nele não haja mérito, contudo, porque posso fazer o que quero com o que é meu, eu o abençoarei, fá-lo-ei meu filho, aceitá-lo-ei; ele será meu no dia em que eu recolher as minhas joias.” No propiciatório, Deus nunca executou a soberania de outra maneira senão por via de graça. Ele reina, mas, neste caso, a graça reina pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor.

Há estas duas ou três coisas a considerar, e terei terminado. No trono da graça, a soberania colocou-se sob vínculos de amor. Preciso falar aqui com palavras escolhidas e criteriosas, e preciso hesitar e fazer pausa para achar as frases certas, para não errar ao esforçar-me por dizer a verdade com clareza. Deus fará como lhe aprouver; mas, no propiciatório, ele está sob vínculos—vínculos por ele mesmo firmados, pois entrou em aliança com Cristo, e assim em aliança com os seus escolhidos. Ainda que Deus seja e sempre deva ser soberano, jamais quebrará a sua aliança, nem alterará a palavra que saiu da sua boca. Ele não pode ser infiel a uma aliança por ele mesmo firmada. Quando venho a Deus em Cristo, a Deus no propiciatório, não preciso imaginar que, por algum ato de soberania, Deus porá de lado a sua aliança. Isso não pode ser: é impossível.

Além disso, no trono da graça, Deus está de novo ligado a nós pelas suas promessas. A aliança contém em si muitas graciosas promessas, sobremaneira grandes e preciosas. “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á.” Até que Deus tivesse dito essa palavra, ou palavra de igual teor, era da sua própria escolha ouvir a oração ou não; mas já não é assim; pois agora, se for verdadeira oração oferecida por meio de Jesus Cristo, a sua veracidade o obriga a ouvi-la. Um homem pode ser perfeitamente livre, mas, no momento em que faz uma promessa, já não é livre para quebrá-la; e o Deus eterno não quer quebrar a sua promessa. Ele se deleita em cumpri-la. Declarou que todas as suas promessas são sim e amém em Cristo Jesus; mas, para o nosso consolo, quando contemplamos Deus sob o alto e terrível aspecto de um soberano, temos isto em que refletir: que ele está sob vínculos de aliança, de promessa, para ser fiel às almas que o buscam. O seu trono há de ser um trono de graça para o seu povo.

E, mais uma vez, e o mais doce pensamento de todos: toda promessa da aliança foi endossada e selada com sangue, e longe esteja do Deus eterno lançar desprezo sobre o sangue do seu amado Filho. Quando um rei concedeu uma carta de foral a uma cidade, pode antes ter sido absoluto, e pode não ter havido nada que refreasse as suas prerrogativas; mas, quando a cidade tem a sua carta, então ela alega os seus direitos diante do rei. Assim mesmo Deus deu ao seu povo uma carta de bênçãos incalculáveis, concedendo-lhes as fiéis misericórdias de Davi. Muito da validade de uma carta depende da assinatura e do selo; e, meus irmãos, quão segura é a carta da graça da aliança! A assinatura é a própria caligrafia de Deus, e o selo é o sangue do Unigênito. A aliança é ratificada com sangue, o sangue do seu próprio amado Filho. Não é possível que roguemos em vão a Deus quando alegamos a aliança selada com sangue, bem ordenada em todas as coisas e segura. O céu e a terra passarão, mas o poder do sangue de Jesus junto a Deus nunca pode falhar. Ele fala quando estamos calados, e prevalece quando estamos derrotados. Coisas melhores do que a de Abel é o que ele pede, e o seu clamor é ouvido. Cheguemos com confiança, pois ouvimos a promessa nos nossos corações. Quando nos sentimos alarmados por causa da soberania de Deus, cantemos alegremente—

“O evangelho sustém o meu espírito;

Um Deus fiel e imutável

Lança o fundamento da minha esperança

Em juramentos, e promessas, e sangue.”

Que Deus, o Espírito Santo, nos ajude a usar corretamente, deste tempo em diante, “o trono da graça.” Amém.

Roma, 7 de dezembro de 1871.

À MINHA AMADA IGREJA E AOS AMIGOS EM GERAL,

Amados no Senhor, tendo sentido ser meu dever deixar a Inglaterra por um breve tempo para prevenir o retorno da minha antiga enfermidade, sou obrigado a reconhecer com gratidão a boa mão do Senhor sobre mim durante a minha estada no estrangeiro. Espero voltar dentro em pouco, tão fortalecido que possa continuar a trabalhar por um período considerável sem outra pausa. Aproveito esta oportunidade para agradecer à minha afetuosa igreja e aos meus amáveis amigos os seus inumeráveis atos de generosa solidariedade, ao auxiliarem o nosso Colégio e o nosso Orfanato, e especialmente aquelas muitas orações que se voltaram para o meu conforto e cura na minha recente doença, e que são o meio do meu sustento no meu serviço cada vez maior ao Senhor. Retribua o Senhor no seio deles, mil vezes, o bem que fiéis amigos imploraram por mim, e faça-me mais do que nunca instrumento de bênção para eles pelo ministério.

Neste momento, imploro uma renovação daquelas orações com fervor acrescentado, pois é grandemente necessário um reavivamento da religião; e seria evidência segura da sua chegada breve se os crentes se unissem em oração por ele. Já a chama está acesa no Tabernáculo, mas precisa ser atiçada até tornar-se um grande incêndio. O nosso país requer uma visitação divina, e a promessa dela só precisa ser alegada para se cumprir. Irmãos, como um só homem, clamem poderosamente ao Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, rogando-lhe que ponha a sua mão à obra, e engrandeça o seu Filho aos olhos de todo o povo. Estando eu onde está o trono de Satanás, no meio de dez mil ídolos, suplico àqueles que adoram a Deus em espírito que lutem em oração por tempos de refrigério, para que todas as terras saibam que Jesus Cristo é Senhor. Até quando será o nome de Jesus blasfemado pelas idolatrias do Anticristo? Pode ser que os tempos de trevas durem até que os filhos da luz clamem amargamente, dia e noite, por causa da angústia da alma. Então Deus vingará os seus próprios eleitos, e isso depressa.

Enquanto tenho percorrido a Via Ápia, tenho me alegrado de que Jesus, a quem Paulo pregou, ainda vive, e certamente, a seu tempo, abaterá os seus inimigos. Já assolou o Coliseu onde os seus fiéis mártires derramaram o seu sangue; o poder pagão caiu, e assim também cairá o papal, e todo outro que se opõe ao seu reino. Proclamemos uma cruzada espiritual, e ergamos os nossos estandartes por meio de oração redobrada. É certo que a súplica produz resultados maravilhosos no céu e na terra; o seu poder é comprovado na nossa própria experiência pessoal, e ao longo de toda a história da igreja. Irmãos, OREMOS.

De vocês, por amor de Jesus,

C.H. SPURGEON.

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Grande Poder na Oração Charles H. Spurgeon

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