Capítulo 12 · 37 min de leitura
A Oração, o Remédio para o Cuidado
“Não estejais solícitos por coisa alguma; mas em tudo, pela oração e súplica, com ação de graças, sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.” Filipenses 4:6, 7.
Nós temos a faculdade da previsão, mas, como todas as nossas faculdades, ela foi pervertida e é muitas vezes mal usada. É bom que o homem tenha um cuidado santo e dê a devida atenção a cada detalhe da sua vida; mas, ai de nós, é muito fácil transformar isso num cuidado profano e tentar arrancar da mão de Deus aquele ofício da Providência que pertence a Ele, e não a nós mesmos. Quantas vezes Lutero gostava de falar dos pássaros e do modo como Deus cuida deles! Quando estava cheio das suas ansiedades, ele costumava invejar constantemente os pássaros, porque levavam uma vida tão livre e feliz. Ele fala do Dr. Pardal, do Dr. Tordo e de outros que costumavam vir conversar com o Dr. Lutero e lhe dizer muita coisa boa! Vocês sabem, irmãos e irmãs, que os pássaros lá fora, ao ar livre, cuidados por Deus, se saem muito melhor do que aqueles que são cuidados pelo homem. Uma garotinha de Londres, que tinha ido para o campo, disse certa vez: “Olhe, mamãe, para aquele pobre passarinho. Ele não tem gaiola nenhuma!” Isso não me pareceria perda alguma para o pássaro — e, se você e eu ficássemos sem a nossa gaiola, sem a caixinha de sementes e o copo de água, não seria grande perda se fôssemos lançados à gloriosa liberdade de uma vida de humilde dependência de Deus!
É aquela gaiola de confiança carnal e aquela caixinha de sementes, que estamos sempre nos esforçando por encher, que produzem a preocupação desta vida mortal. Mas aquele que tem Graça para abrir as asas e alçar voo — e chegar ao campo aberto da confiança Divina — pode cantar o dia inteiro e ter sempre esta por sua melodia —
“Mortal, cessa da lida e da tristeza; Deus provê para o amanhã.”
Aqui, então, está o ensino do texto — “Não estejais solícitos por coisa alguma.” A palavra “solícito” já não significa hoje exatamente o que significava quando a Bíblia foi traduzida. Ao menos, para mim ela transmite um sentido diferente do que transmitia aos tradutores. Eu diria que devemos, sim, ser solícitos. “Sede solícitos” é uma boa lição para os meninos e para os jovens quando começam a vida; mas, no sentido em que a palavra “solícito” — cheio de cuidados — era entendida no tempo dos tradutores, não devemos ser solícitos, isto é, cheios de cuidado. O texto quer dizer: não andeis ansiosos — não estejais constantemente pensando nas necessidades desta vida mortal. Vou lê-lo de novo, alongando um pouco a palavra, e então vocês captarão o seu sentido — “Não estejais cheios-de-cuidado por coisa alguma.” Oh, que Deus nos ensine a evitar o mal aqui proibido, e a viver com aquele santo descuido que é a própria beleza da vida cristã — quando todo o nosso cuidado é lançado sobre Deus, e podemos alegrar-nos e regozijar-nos no seu cuidado Providencial por nós!
“Ah”, diz alguém, “não consigo deixar de me preocupar.” Pois bem, o assunto, esta noite, é ajudar você a deixar de se preocupar ou de se afligir; e, primeiro, considere aqui o substituto para o cuidado. Não esteja solícito por coisa alguma, mas seja dado à oração em tudo — esse é o substituto para o cuidado: “oração e súplica.” Em segundo lugar, observe o caráter especial desta oração que há de tornar-se o substituto da ansiedade — “Em tudo, pela oração e súplica, com ação de graças, sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.” E então espero que nos sobrem alguns minutos para considerar o doce efeito desta oração — “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.”
I. Para começar, então, aqui está, primeiro, O SUBSTITUTO PARA O CUIDADO OU A ANSIEDADE.
Suponho que seja verdade a respeito de muitos de nós que os nossos cuidados são numerosos. Se você uma vez se tornar cheio de cuidado, ansioso, inquieto, jamais conseguirá contar os seus cuidados, ainda que pudesse contar os cabelos da sua cabeça. E os cuidados tendem a multiplicar-se para
aqueles que são cheios de cuidado; e, quando você estiver tão cheio de cuidado quanto pensa poder estar, com certeza terá outra safra de cuidados brotando ao seu redor. Ceder a esse mau hábito da ansiedade leva-a a assenhorear-se da vida, até que a vida não valha a pena ser vivida por causa do cuidado que temos com ela. Os cuidados são numerosos e, portanto, que as suas orações sejam igualmente numerosas. Transforme em oração tudo o que for motivo de cuidado. Que os seus cuidados sejam a matéria-prima das suas orações e, assim como os alquimistas esperavam transformar escória em ouro, também você, por uma santa alquimia, de fato transforma aquilo que naturalmente teria sido um cuidado em tesouro espiritual na forma de oração! Batize cada ansiedade no nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo — e assim faça dela uma bênção!
Você tem algum cuidado a conquistar? Tome cuidado para que ele não conquiste você! Você deseja obter ganho? Cuide para não perder mais do que ganha com os seus ganhos. Eu lhe suplico: não tenha nenhum cuidado por ganhar que você não ouse transformar em oração! Não deseje ter aquilo que não ousa pedir que Deus lhe dê. Meça os seus desejos por uma medida espiritual, e assim será guardado de qualquer coisa parecida com a cobiça. Os cuidados vêm a muitos das suas perdas — perdem o que haviam ganhado. Pois bem, este é um mundo em que há a tendência de perder. As vazantes seguem-se às cheias, e os invernos esmagam as flores do verão. Não se admire se você perde como as outras pessoas perdem, mas ore a respeito das suas perdas. Vá a Deus com elas — e, em vez de se afligir, faça delas uma ocasião para esperar no Senhor e dizer: “O Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor. Mostra-me por que contendes comigo, e livra o teu servo, eu te peço, de alguma vez se queixar de ti, seja o que for que permitas que eu perca!”
Talvez você diga que o seu cuidado não é nem com o seu ganho nem com a sua perda, mas com o seu pão de cada dia. Ah, pois bem, você tem promessas para isso, sabia? O Senhor disse: “Assim habitarás na terra, e verdadeiramente serás alimentado.” Ele lhe dá um doce ânimo quando diz que veste a erva do campo — e não vestirá muito mais a você, ó homem de pouca fé? E o Senhor Jesus manda que você considere as aves do céu, como não semeiam, nem ajuntam em celeiros, e contudo o seu Pai celestial as alimenta. Vá, então, ao seu Deus com todos os seus cuidados! Se você tem uma família grande, uma renda escassa e muito trabalho para fazer o dinheiro chegar ao fim do mês, e para prover coisas honestas à vista de todos os homens, você tem tantas desculpas para bater à porta de Deus — tantas razões a mais para ser encontrado com frequência junto ao Trono da Graça! Eu lhe suplico: aproveite-as bem. Eu me sinto à vontade para procurar um amigo quando de fato tenho algum assunto a tratar com ele — e você pode ter a ousadia de procurar Deus quando as necessidades o apertam. Em vez de se preocupar com qualquer coisa com cuidado ansioso, transforme-a de imediato num motivo para renovada dedicação à oração.
“Ah”, diz alguém, “mas estou perplexo. Não sei o que fazer.” Pois então, caro amigo, você certamente deveria orar quando não consegue dizer se o caminho é para a direita, ou para a esquerda, ou em frente, ou se deveria voltar atrás! De fato, quando você está numa névoa tão densa que não enxerga o próximo poste de luz, então é hora de orar. O caminho se abrirá diante de você de repente. Eu mesmo muitas vezes tive de experimentar esse método — e dou testemunho de que, quando confiei em mim mesmo, fui um tolo colossal! Mas, quando confiei em Deus, então Ele me conduziu diretamente pelo caminho certo, e não houve engano algum nisso! Creio que os filhos de Deus muitas vezes cometem enganos maiores nas coisas simples do que nas mais difíceis. Você sabe como foi com Israel, quando aqueles gibeonitas vieram com os seus sapatos e roupas velhas, e mostraram o pão que estava mofado, dizendo que o haviam tirado fresco dos seus fornos. Os filhos de Israel pensaram: “Este é um caso claro. Estes homens são estrangeiros, vieram de uma terra distante, de modo que podemos fazer aliança com eles.” Estavam certos de que o testemunho dos seus olhos provava que aqueles não eram cananeus, e por isso não consultaram a Deus! Toda a questão parecia tão evidente que fizeram aliança com os gibeonitas, o que foi um transtorno para eles dali em diante! Se em tudo fôssemos a Deus em oração, as nossas perplexidades não nos levariam a mais enganos do que as nossas simplicidades — e, nas coisas simples e nas difíceis, seríamos guiados pelo Altíssimo.
Talvez outro amigo diga: “Mas estou pensando no futuro.” Está mesmo? Pois bem, primeiro peço licença para lhe perguntar: o que você tem a ver com o futuro? Você sabe o que um dia trará? Você vem pensando no que será de você quando estiver velho, mas tem certeza de que algum dia chegará a ser velho? Conheci uma mulher cristã que costumava se atormentar com o modo como seria sepultada. Essa questão nunca me perturbou, e há muitos outros assuntos com os quais não precisamos nos preocupar. Você sempre encontra um pau com que bater num cão e, se você precisar de um cuidado, geralmente encontra um cuidado com que espancar a sua própria alma! Mas essa é uma pobre ocupação para qualquer um de vocês. Em vez de fazer isso, transforme em objeto de oração tudo o que poderia ser objeto de cuidado. Não vai demorar muito para você ter um motivo de cuidado, de modo que não ficará muito tempo sem um motivo de oração. Risque aquela palavra “cuidado” e escreva em seu lugar esta palavra: “oração” — e então, ainda que os seus cuidados sejam numerosos, as suas orações também serão numerosas.
Note, em seguida, caros amigos, que o cuidado indevido é uma intromissão na esfera de Deus. É fazer-se a si mesmo o pai da casa, em vez de ser um filho — é fazer-se a si mesmo o senhor, em vez de ser um servo a quem o senhor provê o seu sustento. Ora, se, em vez de fazer isso, você transformar o cuidado em oração, não haverá intromissão alguma, pois você pode vir a Deus em oração sem ser acusado de presunção. Ele o convida a orar. Mais que isso: aqui, por meio do seu servo, Ele lhe ordena: “Em tudo, pela oração e súplica, com ação de graças, sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.” Mais uma vez: os cuidados não nos servem para nada, e nos causam grande dano. Ainda que você se afligisse o quanto quisesse, não conseguiria acrescentar um só palmo à sua altura, nem fazer nascer mais um cabelo na sua cabeça, nem tornar branco ou preto um só fio de cabelo! É o que o Salvador nos diz, e Ele pergunta: se o cuidado falha em coisas tão pequenas, o que pode o cuidado fazer nas questões mais altas da Providência? Não pode fazer coisa alguma! Um fazendeiro estava em seus campos e disse: “Não sei o que será de todos nós. O trigo será destruído se esta chuva continuar. Não teremos colheita nenhuma, a menos que tenhamos algum tempo bom.” Ele andava de um lado para o outro, torcendo as mãos, aflito e deixando toda a sua casa incomodada. E não produziu um só raio de sol com toda a sua inquietação — não conseguiu afastar nenhuma das nuvens com todo o seu falatório petulante, nem conseguiu deter uma só gota de chuva com todas as suas murmurações.
Que proveito há, então, em ficar roendo o próprio coração, quando nada se consegue com isso? Além disso, isso enfraquece a nossa capacidade de nos ajudarmos e, especialmente, a nossa capacidade de glorificar a Deus. Um coração cheio de cuidado nos impede de julgar retamente em muitas coisas. Muitas vezes usei a ilustração (não conheço melhor) de tomar um telescópio, embaçá-lo com o bafo quente da nossa ansiedade, levá-lo ao olho e então dizer que não conseguimos ver nada além de nuvens! É claro que não conseguimos, e nunca conseguiremos enquanto o embaçarmos com o nosso bafo. Se ao menos estivéssemos calmos, quietos, senhores de nós mesmos e possuídos por Deus, faríamos a coisa certa. Estaríamos, como se costuma dizer, “inteiramente presentes” na hora da dificuldade. Pode esperar ter presença de espírito aquele que tem a Presença de Deus. Se nos esquecemos de orar, você se admira de que fiquemos todos agitados e ansiosos, e façamos a primeira coisa que nos ocorre — que geralmente é a pior — em vez de esperar até ver o que se deveria fazer e então fazê-lo com confiança e fé, como à vista de Deus? O cuidado, ou a aflição, é prejudicial; mas, se você tão somente transformar esse cuidado em oração, então toda aflição se tornará um benefício para você.
A oração é material maravilhoso para edificar a estrutura espiritual. Nós mesmos somos edificados pela oração. Crescemos na Graça pela oração e, se tão somente viermos a Deus a cada instante com pedidos, seremos cristãos que crescem depressa! Disse a uma pessoa esta manhã: “Ore por mim, é um tempo de necessidade”, e ela respondeu: “Não tenho feito outra coisa desde que acordei.” Fiz o mesmo pedido a várias outras pessoas, e elas disseram que têm orado por mim. Fiquei tão contente, não só por mim mesmo, que recebi proveito das suas orações, mas por causa delas, porque com certeza hão de crescer por meio disso! Quando os passarinhos ficam batendo as asas, estão aprendendo a voar. Os tendões vão ficando mais fortes, e os passarinhos deixarão o ninho dentro em pouco. Esse mesmo bater de asas é uma educação — e o esforço de orar — o gemer, o suspirar, o clamar de um espírito dado à oração é, em si mesmo, uma bênção! Deixe, então, esse hábito prejudicial da aflição e adote este hábito enriquecedor da oração! Veja como assim você fará um ganho duplo — primeiro, evitando uma perda e, em segundo lugar, obtendo aquilo que de fato beneficiará você e também os outros!
Depois, ainda, os cuidados são o efeito do esquecimento de quão perto Cristo está de nós. Você notou como corre o contexto? “O Senhor está perto. Não estejais solícitos por coisa alguma.” O Senhor Jesus Cristo prometeu vir outra vez, e pode vir esta noite. A qualquer momento Ele pode aparecer! Por isso Paulo escreve: “O Senhor está perto. Não estejais solícitos por coisa alguma; mas em tudo, pela oração e súplica, com ação de graças, sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.” Oh, se ao menos pudéssemos pisar esta terra como sobre uma mera sombra! Se ao menos pudéssemos viver como aqueles que em breve terão terminado com esta pobre vida passageira! Se segurássemos toda coisa terrena com mão muito frouxa, então não estaríamos cuidando, nem nos afligindo, nem nos inquietando — mas nos daríamos à oração, pois assim nos apossaríamos do que é real e substancial, e firmaríamos os pés sobre o invisível, que é, afinal, o eterno! Oh, caros amigos, deixem que o texto, que li para vocês repetidas vezes, agora caia nos seus corações como uma pedrinha cai num lago da montanha e, ao entrar, faça anéis de consolo sobre a própria superfície da sua alma!
II. Agora precisamos examinar o texto um pouco mais de perto para ver, em segundo lugar, O CARÁTER ESPECIAL DESTA ORAÇÃO. Que espécie de oração é essa que nos alivia do cuidado?
Pois bem, primeiro, é uma oração que trata de tudo. “Em tudo” “sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.” Você pode orar a respeito da menor coisa e da maior coisa — não só pode orar pelo Espírito Santo, como pode orar por um par de botas novo. Você pode ir a Deus a respeito do pão que come, da água que bebe, da roupa que veste, e orar a Ele a respeito de tudo. Não trace linha alguma dizendo: “Até aqui há de estar sob o cuidado de Deus.” Ora essa, então, o que você fará com o resto da vida? Há de ser vivido sob a praga mirradora de uma espécie de ateísmo? Deus nos livre! Oh, que possamos viver em Deus quanto à totalidade do nosso ser, pois o nosso ser é tal que não podemos dividi-lo! O nosso corpo, alma e espírito são um só, e, enquanto Deus nos deixa neste mundo e temos necessidades que surgem da condição dos nossos corpos,
devemos trazer as nossas necessidades corporais diante de Deus em oração. E você descobrirá que o grande Deus o ouvirá nesses assuntos. Não diga que são pequenos demais para que Ele os note — tudo é pequeno em comparação com Ele! Quando penso em quão grande Deus Ele é, parece-me que este nosso pobre mundinho não passa de um insignificante grão de areia na praia do universo — e não digno de nota alguma. A terra inteira é um mero pontinho no grande mundo da Natureza e, se Deus se digna a considerá-la, bem pode abaixar-se um pouco mais e considerar a nós! E é o que Ele faz, pois diz: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.” Portanto, em tudo sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.
A espécie de oração que nos salva do cuidado é a oração que se repete — “Em tudo, pela oração e súplica.” Ore a Deus e depois ore de novo — “pela oração e súplica.” Se o Senhor não o atende da primeira vez, seja muito grato por ter um bom motivo para orar de novo! Se Ele não concede o seu pedido na segunda vez, creia que Ele o ama tanto que quer ouvir a sua voz mais uma vez! E, se Ele o faz esperar até que você tenha ido a Ele sete vezes, diga a si mesmo: “Agora sei que adoro o Deus de Elias, pois o Deus de Elias o deixou ir, outra vez, sete vezes, antes que a bênção fosse dada.” Considere uma honra ser-lhe permitido lutar com o Anjo de Deus! É assim que Deus faz os seus príncipes! Jacó jamais teria sido Israel se tivesse obtido a bênção do Anjo ao primeiro pedido — mas, quando teve de continuar lutando até prevalecer, então se tornou um príncipe com Deus! A oração que mata o cuidado é a oração contínua e importuna.
Em seguida, é uma oração inteligente — “Sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.” Ouvi falar de um muçulmano que passava, creio eu, seis horas em oração por dia e, para não adormecer quando estava a bordo de um navio, ficava de pé e só tinha uma corda esticada de um lado a outro, para poder se apoiar nela. E, se dormisse, cairia. O seu objetivo era continuar por seis horas com aquilo que chamava de oração. “Bem”, disse eu a alguém que o conhecia e que o tinha visto a bordo do seu barco no Nilo, “que espécie de oração era essa?” “Ora”, respondeu o meu amigo, “ele ficava repetindo: ‘Não há Deus senão Deus, e Maomé é o profeta de Deus’, a mesma coisa, uma e outra e outra vez.” Eu disse: “Ele pedia alguma coisa?” “Oh, não!” “Ele suplicava a Deus que lhe desse alguma coisa?” “Não, ele simplesmente continuava com aquela perpétua repetição de certas palavras, como uma feiticeira poderia repetir um encantamento.”
Você acha que há algo nesse estilo de orar? Se você se ajoelha e simplesmente repete certa fórmula, isso não passará de um punhado de palavras. Que se importa Deus com esse tipo de oração? “Sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.” Isso é oração verdadeira! Deus sabe quais são os seus pedidos, mas você deve orar a Ele como se Ele não soubesse. Você deve dar a conhecer os seus pedidos, não porque o Senhor não saiba, mas talvez porque você mesmo não saiba. E, quando você tiver dado a conhecer os seus pedidos a Ele, como o texto lhe diz, mais claramente os terá dado a conhecer a si mesmo. Quando você tiver pedido de modo inteligente, sabendo o que pediu e sabendo por que o pediu, talvez você pare e diga a si mesmo: “Não, afinal não devo fazer esse pedido.” Às vezes, quando você tem persistido em orar por aquilo que Deus não lhe dá, pode ser que se insinue na sua mente a convicção de que você não está no caminho certo, e esse resultado da sua oração há de, em si mesmo, fazer-lhe bem e ser uma bênção para você.
Mas você deve orar dando a conhecer os seus pedidos diante de Deus. Isto é, em bom português, diga do que você precisa, pois isso é oração verdadeira. Fique a sós e diga ao Senhor do que você precisa — derrame o seu coração diante dele. Não imagine que Deus precise de linguagem rebuscada! Não, você não precisa correr lá para cima buscar o seu livro de orações e procurar uma coleta — você vai levar muito tempo até encontrar alguma coleta que sirva para você, se estiver realmente orando! Ore por aquilo de que você precisa, tal como se estivesse contando à sua mãe ou ao seu amigo mais querido qual é a sua necessidade. Vá a Deus dessa maneira, pois isso é oração de verdade, e essa é a espécie de oração que afugentará os seus cuidados.
Assim, caros amigos, mais uma vez: a espécie de oração que traz liberdade do cuidado é a comunhão com Deus. Se você não falou com Deus, você não orou de verdade. Sabe-se de uma criancinha (ouso dizer que os filhos de vocês já fizeram isso) que foi e enfiou uma carta pela grade de um bueiro e, é claro, nunca houve resposta alguma a uma carta postada dessa maneira. Se a carta não é colocada na caixa do correio, de modo que chegue à pessoa a quem se destina, de que serve? Assim também, a oração é comunicação real com Deus. Você precisa perceber que Ele existe e que é o galardoador dos que diligentemente o buscam, do contrário não conseguirá orar. Ele precisa ser uma realidade para você, uma realidade viva, e você precisa crer que Ele ouve a oração; e então precisa falar com Ele e crer que você tem o pedido que lhe faz — e assim o terá. Ele nunca deixou até hoje de honrar a oração feita com fé. Ele pode fazer você esperar por algum tempo, mas as demoras não são recusas, e muitas vezes Ele respondeu a uma oração que pedia prata dando ouro! Pode ter negado tesouro terreno, mas deu riquezas celestiais dez mil vezes mais valiosas — e o suplicante ficou mais que satisfeito com a troca! “Sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.”
Eu sei o que você faz quando está em apuros — você vai ao seu vizinho, mas o seu vizinho não quer vê-lo com tanta frequência por causa desse tipo de assunto. Talvez você vá ao seu irmão, mas há um texto que o adverte a não entrar na casa do seu irmão no dia da sua calamidade. Você pode procurar um amigo com frequência demais quando está sem dinheiro — ele pode ficar muito contente em vê-lo, até ouvir o que você quer! Mas, se você for ao seu Deus, Ele nunca lhe dará as costas. Ele nunca dirá que você vem com frequência demais. Pelo contrário, Ele até o repreenderá porque você não vem a Ele com frequência suficiente!
Há uma palavra que deixei de lado, ainda agora, porque queria guardá-la para a minha última observação sobre este ponto — “Pela oração e súplica, com ação de graças, sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus.” Ora, o que isso significa? Significa que a espécie de oração que mata o cuidado é uma oração que pede com alegria, com júbilo, com gratidão. “Senhor, sou pobre. Deixa-me bendizer-te pela minha pobreza e, então, ó Senhor, não suprirás todas as minhas necessidades?” É assim que se deve orar. “Senhor, estou doente. Bendigo-te por esta aflição, pois tenho certeza de que ela significa algum bem para mim. Agora digna-te curar-me, eu te suplico!” “Senhor, estou em grande tribulação, mas te louvo pela tribulação, pois sei que ela encerra uma bênção, ainda que o envelope tenha a borda preta! Senhor, ajuda-me a atravessar a minha tribulação!” Essa é a espécie de oração que mata o cuidado — “súplica, com ação de graças.” Misture bem estas duas coisas! Uma dracma — não, duas dracmas de oração — oração e súplica, e então uma dracma de ação de graças! Esfregue-as juntas, e elas farão um bendito remédio para o cuidado. Que o Senhor nos ensine a praticar esta santa arte do boticário!
III. Termino com este terceiro ponto: O DOCE EFEITO DESTA ORAÇÃO — “E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.”
Se você conseguir orar dessa maneira, em vez de ceder à ansiedade maligna, o resultado será que uma paz incomum se insinuará no seu coração e na sua mente. Incomum, pois será “a paz de Deus.” O que é a paz de Deus? A serenidade imperturbável do Deus infinitamente feliz, a eterna compostura do Deus absolutamente contente! Isto há de possuir o seu coração e a sua mente. Note como Paulo a descreve — “A paz de Deus, que excede todo o entendimento.” As outras pessoas não a compreenderão. Não conseguirão entender como você pode estar tão tranquilo. E mais: você não conseguirá explicar-lhes, pois, se ela excede todo o entendimento, certamente excede toda a expressão! E o que é ainda mais assombroso — você mesmo não a compreenderá!
Será uma paz tal que será para você insondável e incomensurável. Quando um dos mártires estava prestes a arder por Cristo, disse ao juiz que dava ordens para acender a fogueira: “Você viria pôr a mão sobre o meu coração?” O juiz assim fez. “Ele bate depressa?”, perguntou o mártir. “Dou algum sinal de medo?” “Não”, disse o juiz. “Agora ponha a mão sobre o seu próprio coração e veja se você não está mais agitado do que eu.” Pense naquele homem de Deus que, na manhã em que seria queimado, estava tão profundamente adormecido que tiveram de sacudi-lo para acordá-lo — ele teve de se levantar para ser queimado! E, contudo, sabendo que assim seria, tinha tamanha confiança em Deus que dormia docemente. Isto é “a paz de Deus, que excede todo o entendimento.” Naquelas antigas perseguições de Diocleciano, quando os mártires entravam no anfiteatro para serem despedaçados por feras — quando um era posto numa cadeira de ferro em brasa, outro era untado com mel para ser picado até a morte por vespas e abelhas — eles nunca vacilavam!
Pense naquele homem valente que foi posto sobre uma grelha para ser assado até a morte, e que disse aos seus perseguidores: “Já me assaram de um lado. Agora virem-me para o outro.” Por que essa paz em tais circunstâncias? Era “a paz de Deus, que excede todo o entendimento.” Não temos de sofrer assim hoje em dia, mas, se algum dia chegar a algo parecido, é maravilhosa a paz de que um cristão desfruta! Depois de ter havido uma grande tempestade, o Mestre pôs-se de pé na proa da embarcação e disse aos ventos: “Aquietai-vos.” E lemos: “houve grande bonança.” Você já sentiu isto? Você o sente esta noite, se aprendeu esta sagrada arte de dar a conhecer os seus pedidos a Deus em tudo, e a paz de Deus que excede todo o entendimento guarda os seus corações e as suas mentes por meio de Cristo Jesus.
Esta bendita paz guarda os nossos corações e as nossas mentes — é uma paz que faz a guarda. A palavra grega dá a ideia de uma guarnição. Não é curioso que se use aqui um termo militar, e que seja a paz que age como sentinela do coração e da mente? É a paz de Deus que há de proteger o filho de Deus — figura estranha, mas bela! Ouvi dizer que o medo é a governanta do cristão. Pois bem, o medo pode ser um bom guarda para manter os cães do lado de fora, mas não tem a despensa cheia! Já a paz, embora pareça fraqueza, é a essência da força e, enquanto faz a guarda, também nos alimenta e supre todas as nossas necessidades.
É também uma paz que nos une a Jesus — “A paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos.” Isto é, os seus afetos e os seus pensamentos, os seus desejos e o seu intelecto — o seu coração — para que não tema.
A sua mente, para que não conheça nenhuma espécie de perplexidade — “a paz de Deus guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.” Tudo é “em Cristo Jesus” e, portanto, é duplamente doce e precioso para nós!
Ó meus caros ouvintes, alguns de vocês entram aqui nas noites de quinta-feira e não sabem nada a respeito desta paz de Deus e, talvez, se admirem de que nós, cristãos, façamos tanto alarde da nossa religião! Ah, se vocês soubessem, talvez fizessem mais alarde dela do que nós, pois, ainda que não houvesse vida futura — e sabemos que há —, o bendito hábito de ir a Deus em oração e lançar sobre Ele todo o nosso cuidado nos ajuda a viver com a maior alegria, mesmo nesta vida! Não cremos no secularismo, mas, se crêssemos, não haveria preparo para a vida terrena como este viver para Deus e viver em Deus! Se vocês têm um deus falso e apenas vão à Igreja ou à Capela e levam consigo o seu livro de orações ou o seu hinário e, por isso, pensam que são cristãos, vocês estão enganando a si mesmos! Mas, se vocês têm um Deus vivo e têm verdadeira comunhão com Ele e constantemente, por hábito, vivem à sombra das asas do Todo-Poderoso, então desfrutarão de uma paz que fará os outros se admirarem e fará você mesmo maravilhar-se também, sim, “a paz de Deus, que excede todo o entendimento.” Que Deus a conceda a vocês, meus amados ouvintes, por amor de Cristo! Amém.
EXPOSIÇÃO POR C. H. SPURGEON: Filipenses 4
Verso 1. Portanto, meus irmãos, amados e mui queridos, minha alegria e coroa, estai assim firmes no Senhor, meus amados. Vocês sabem que a Igreja em Filipos era muito querida ao coração do Apóstolo. Ele nunca conseguia esquecer o tempo em que ele e Silas oraram com as mulheres à beira do rio e depois oraram e cantaram louvores a Deus na prisão, quando os presos os ouviam. Lídia e a sua casa e o carcereiro de Filipos estavam entre as primícias da obra de Paulo em Filipos, e sempre houve um amor muito íntimo entre ele e os membros da Igreja naquele lugar. Eles cuidavam dele, e ele cuidava deles. Duas vezes neste único versículo ele os chama de seus “amados e mui queridos.” Ele diz que “tinha saudade deles, que ansiava por vir vê-los face a face, que ansiava que eles fossem felizes no Senhor no mais alto grau. Assim, ele diz: “meus irmãos, amados e mui queridos, minha alegria.” Era-lhe tamanha alegria, mesmo, pensar neles como seus filhos espirituais, e especialmente ver de que modo piedoso e generoso se comportavam. Sim, e ele os chama de sua “coroa” — uma guirlanda que havia ganhado em luta espiritual! Os convertidos do cristão são a sua alegria aqui, e serão a sua coroa para sempre no Céu. Paulo ordenou a estes filipenses: “estai firmes no Senhor.” Parece coisa muito simples estar firme, mas os que tentam fazê-lo sabem quão difícil é a tarefa.
2. Rogo a Evódia, e rogo a Síntique, que sejam do mesmo parecer no Senhor. Apenas duas mulheres que se haviam desentendido uma com a outra, mas o Apóstolo tem tanto zelo pela perfeita unidade que insere um “rogo” para cada uma delas. Ele não diz qual estava certa e qual estava errada, mas quer que elas sejam “do mesmo parecer no Senhor.” Pequenas diferenças, mesmo entre membros obscuros da Igreja, podem estorvar a obra do Espírito de Deus. O Espírito Santo é como uma pomba — e as pombas amam os lugares tranquilos — não vêm aonde há barulho e contenda. Oh, cultivemos o amor uns para com os outros! E, se em algo discordamos alguma vez, pensemos que ouvimos Paulo dizer, esta noite: “Rogo a Evódia, e rogo a Síntique, que sejam do mesmo parecer no Senhor.” Reconciliem-se, minhas irmãs! Reconciliem-se, meus irmãos! Seja qual for a contenda, ponham-lhe fim e “sejam do mesmo parecer no Senhor.” Comprados pelo mesmo precioso sangue, revestidos da mesma perfeita justiça, a caminho do mesmo Céu, “sejam do mesmo parecer no Senhor.”
3. E peço-te também a ti, verdadeiro companheiro de jugo, que ajudes essas mulheres que trabalharam comigo no Evangelho, e também com Clemente e com os outros meus cooperadores, cujos nomes estão no Livro da Vida. Não sabemos quem era este “verdadeiro companheiro de jugo.” Muito provavelmente era Epafrodito, que levou esta Epístola a Filipos. Quem quer que fosse, era alguém que havia trabalhado com Paulo ombro a ombro. Se dois bois levam o mesmo jugo e, no entanto, não se entendem, tornam a situação muito incômoda um para o outro. Se um tenta deitar-se e o outro quer ficar de pé, ou se um vai mais depressa do que o outro, o jugo torna-se duplamente penoso. Paulo fala aqui de alguém que havia sido seu “verdadeiro companheiro de jugo” — e diz-lhe: “Ajuda essas mulheres que trabalharam comigo no Evangelho.”
Que lugar eminente as mulheres sempre ocuparam no serviço do Senhor Jesus Cristo, e aqui Paulo fala delas como tendo trabalhado com ele no Evangelho! Sem dúvida Lídia deve ter sido uma delas. “E também com Clemente e com os outros meus cooperadores, cujos nomes estão no Livro da Vida.” Segundo alguns doutos comentaristas, o nome de um homem pode estar no Livro da Vida por um tempo, mas pode vir a ser removido. Se o ensino deles for verdadeiro, esse livro há de estar muito riscado e borrado. Dou graças a Deus por não crer em livro algum desse tipo! Se o Senhor Jesus Cristo escreveu o meu nome no Livro da Vida, no grande registro familiar dos remidos, desafio todos os demônios do Inferno a alguma vez conseguirem apagá-lo!
4. Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: regozijai-vos. Se você alguma vez se regozija no Senhor, pode sempre regozijar-se no Senhor, pois Ele é sempre o mesmo e sempre cheio de graça! Há tanto motivo para se regozijar em Deus num momento como em outro, visto que Ele nunca muda.
5. Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. A palavra “moderação”, no grego, é uma palavra muito difícil de traduzir. Não significa moderação no sentido em que algumas pessoas usam o termo, pois fazem dela, a meu ver, quase uma palavra maldita. “Seja a vossa moderação” — a vossa brandura, a vossa boa disposição, a vossa tolerância — “conhecida de todos os homens.” É isso o que significa. Não force os seus próprios direitos longe demais — pare aquém do que poderia com justiça exigir e, quando você sentir, em algum momento, um pouco de veemência no ânimo, refreie-se — contenha-se, suporte e tolere. Não vá tão longe quanto poderia, nem mesmo tão longe quanto alguns pensam que você deveria, na defesa dos seus próprios direitos. Seja a vossa brandura, a vossa disposição de ceder, conhecida de todos os homens.
5. O Senhor está perto. Cristo está vindo — por que você se aflige? O Senhor está perto de você para o ajudar — por que você está tão excessivamente ansioso? Por que você se deixa levar de tal modo pela presente prova passageira? “O Senhor está perto.”
6. Não estejais solícitos por coisa alguma. Não estejais ansiosamente solícitos por coisa alguma! Cante, com Faber —
“Não tenho cuidados, ó bendito Senhor, pois todos os meus cuidados são teus.”
6-8. Mas em tudo, pela oração e súplica, com ação de graças, sejam conhecidos os vossos pedidos diante de Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus. Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama; se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. Tudo o que é dessa espécie diz respeito a você, portanto favoreça-o quanto puder. Ponha-se ao lado de toda causa que se possa descrever assim. Se ela defende a verdade, a retidão, a reverência, a religião, a castidade, a santidade — fique desse lado. Se houver alguma coisa contrária a isto, não tenha nada com ela; mas, se houver no mundo algum movimento que faça avançar as coisas que são verdadeiras, honestas, justas, puras, amáveis e de boa fama, “nisso pensai”, e pense nelas de modo a aumentar a sua influência entre os filhos e filhas dos homens!
9. O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei. É bom quando um pregador pode falar assim — quando não tem de dizer: “Fazei o que digo, e não o que faço”, mas quando, como o Apóstolo, pode dizer: “o que também aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim, isso fazei.”
9. E o Deus de paz será convosco. O Deus de paz está sempre com aqueles que recebem o seu amado Filho e que ajudam o seu Evangelho. É um dos privilégios dos verdadeiros crentes que o Deus de paz esteja constantemente com eles.
10. Ora, muito me regozijei no Senhor por, finalmente, reviver a vossa solicitude para comigo; no que também estáveis solícitos, mas vos faltava oportunidade. Paulo estava preso em Roma, e estes filipenses tinham feito uma contribuição. E tinham enviado Epafrodito com ela para socorrer o Apóstolo na sua pobreza; por isso ele lhes disse: “Vós cuidáveis de mim antes; mas, por um tempo, não tínheis oportunidade de me ajudar, e agora vos lembrastes de mim outra vez, portanto muito me regozijo no Senhor.”
11. Não digo isto por causa de necessidade, pois aprendi a contentar-me com o que tenho, seja qual for o estado em que me encontre. Não é essa uma esplêndida ciência? Paulo era um homem instruído, e você também é, se aprendeu esta lição! Talvez você não possa pôr títulos de doutor depois do seu nome, mas você é um homem instruído se pode dizer: “Aprendi a contentar-me com o que tenho, seja qual for o estado em que me encontre.”
12. Sei estar abatido e sei também ter abundância. Estas são duas grandes coisas a aprender. Há alguns que conhecem a primeira, mas não conhecem a segunda. Conheci vários filhos de Deus que pareciam bem eminentes em piedade quando estavam abatidos, mas que nunca valeram nada depois que ficaram ricos. Não sabiam ter abundância — ficavam com a cabeça inchada e grandes demais para o seu tamanho! Não foi assim com o Apóstolo, pois podia dizer com verdade: “Sei estar abatido e sei também ter abundância.”
12. Em toda a maneira e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade. Não era ele um verdadeiro Mestre em Artes? Ele havia dominado a arte de ter fome sem murmurar, a arte de estar farto sem se gloriar, a arte de padecer necessidade sem impaciência, a arte de ter abundância sem pôr o seu afeto nas coisas do mundo. Ele era, de fato, um Mestre em Artes da mais alta ordem!
13. Tudo posso — Isso parece gabolice, não parece? Complete a frase.
14. Por meio de Cristo que me fortalece. Não há aqui jactância imprópria, pois Paulo podia todas as coisas por meio do poderoso poder de Cristo! Bem se disse que os anjos se sobressaem na força, mas os santos se sobressaem na sua fraqueza. Quando estamos mais fracos, e Cristo nos fortalece, então é que se produzem as mais excelentes virtudes.
14-17. Todavia, fizestes bem em tomar parte na minha aflição. E bem sabeis também vós, ó filipenses, que, no princípio do Evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se comunicou comigo em matéria de dar e receber, senão vós somente. Pois também uma e outra vez me mandastes o necessário a Tessalônica. Não que eu procure dádivas, mas busco o fruto que aumente a vossa conta. A liberalidade deles foi lançada em conta a seu favor no livro de Deus.
18, 19. Mas tenho tudo, e abundo; estou farto, tendo recebido de Epafrodito o que da vossa parte me foi enviado, como cheiro de suavidade e sacrifício aceitável e agradável a Deus. Mas o meu Deus suprirá todas as vossas necessidades segundo as suas riquezas na glória, em Cristo Jesus. É o Deus de Paulo que cuidou dos filipenses, e é o Deus de Paulo que cuidará de você e de mim! “O meu Deus”, diz Paulo, “suprirá todas as vossas necessidades — não como vós supristes as minhas, da vossa pobreza, mas segundo as suas riquezas na glória, em Cristo Jesus”! Não imagine que você jamais esgotará as riquezas de Deus na glória, ou drenará o tesouro nacional da toda-suficiência — isso não pode ser.
20. Ora, a nosso Deus e Pai seja glória para todo o sempre. Amém. Ele nos abençoa; bendigamo-lo nós! Ele supre todas as nossas necessidades segundo as suas riquezas na glória — exaltemos a sua glória para todo o sempre.
21. Saudai a todos os santos em Cristo Jesus. Dê-lhe um aperto de mão. Diga: “Como vai, meu irmão? Desejo-lhe todo o bem.” Estas saudações cordiais deveriam ser comuns em toda assembleia cristã. Sempre desaprovo aquela impressionante respeitabilidade que existe em alguns lugares de culto, onde ninguém conhece ninguém. São respeitáveis demais para travar conhecimento com os seus irmãos. Se você está em Cristo Jesus, conheçam uns aos outros! “Saudai a todos os santos em Cristo Jesus.”
21, 22. Os irmãos que estão comigo vos saúdam. Todos os santos vos saúdam, mas principalmente os que são da casa de César. Suponho que a maioria destes fosse apenas de escravos da casa imperial. Talvez houvesse um ou dois, quem sabe, de classe mais alta; mas, com toda a probabilidade, o Evangelho chegou primeiro aos escravos no palácio romano, aquele pandemônio de vício, onde abundavam a luxúria e a crueldade. Havia santos até ali — e Deus ainda tem algumas das suas joias jazendo em monturos!
23. A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém.