Capítulo 7 · 12 min de leitura
Dons
Lembro-me bem de um tempo de frustração que vivi enquanto liderava o trabalho com os jovens no País de Gales.
Nosso número havia crescido, e estávamos considerando a compra de um pub (um bar) ao lado da igreja, para usá-lo como centro de jovens. Como o custeio financeiro disso teria de vir da igreja, foi realizada uma reunião da congregação. Foi animador ver o apoio de todos os setores da igreja. Um de nossos membros estava se formando em Direito, de modo que os aspectos jurídicos da compra foram postos em suas mãos. Outro membro era dono de uma pequena construtora, de modo que a responsabilidade de verificar a segurança do prédio e suas necessidades de reforma foi confiada a ele. Ninguém questionou essas ‘designações’ - foram consideradas óbvias.
Essa parte da reunião foi concluída de modo satisfatório, então o pastor aproveitou a ocasião para levantar outra preocupação. A escola dominical estava precisando de professores. Quando ficou evidente que não haveria voluntários suficientes para as vagas previstas, foi sugerido, e calorosamente aceito, que os adolescentes poderiam ouvir lições gravadas em áudio! Eu me opus firmemente a isso, sabendo, por minha experiência como professor, que apenas uma pequena porcentagem do que aprendemos entra em nossa compreensão e memória pela ‘porta do ouvido’.
Uma porção bem maior entra pela ‘porta dos olhos’, enquanto a maior parte vem por meio de uma experiência prática.
Não bastava que eu estivesse ‘no topo’ da minha profissão como docente, tendo sido eleito presidente do corpo docente pelos meus colegas, atuando no Conselho de Governadores, sendo professor responsável pela turma dos formandos da escola e integrando um seleto grupo de professores que desenvolvia o currículo nacional da minha disciplina, Física. Ninguém sabia muito sobre os aspectos jurídicos da compra de um pub, então ficaram contentes de repassar isso ao ‘especialista’.
Ninguém sabia muito sobre a estrutura e o reparo de prédios, então repassaram isso também. Contudo, parecia que todos naquela reunião da congregação achavam que sabiam ensinar, e a minha opinião era apenas isso - mais uma opinião, sem mais peso do que qualquer outra. Se todos sabem ensinar, por que há tantos professores ruins nas salas de aula das nossas escolas?
O mesmo princípio se aplica na igreja. Deus colocou diferentes dons, talentos e habilidades na igreja, e seríamos sábios em descobri-los em nossas pessoas. Por exemplo, a única distinção real entre um presbítero e um diácono é que o primeiro é “apto para ensinar”. Isso não é uma questão de ser ‘mais espiritual’ nem de estar num posto mais alto, mas de um dom diferente.
Isso não significa que o presbítero deva ser um professor de escola dominical, ensinando um currículo definido, mas que, sempre que ele se depara com uma situação na igreja ou na vida de uma pessoa, é algo natural para ele recorrer à Bíblia para ensinar um princípio bíblico.
Se alguns membros da igreja tiverem dificuldades financeiras, o presbítero provavelmente os encaminharia às Escrituras para mostrar como estorvamos a obra de Deus em nossa vida sempre que nos permitimos ficar endividados. Ele então poderia indicar uma atitude bíblica em relação às finanças, antes de encaminhá-los a alguém mais entendido em aconselhamento financeiro. Essa segunda pessoa poderia muito bem ser um diácono, servindo nas finanças da igreja.
Que triste é ver ‘presbíteros’ atuando numa estrutura eclesiástica hierárquica, dirigindo a igreja, mas com pouca aptidão para apresentar padrões e doutrina bíblicos. Muitos foram eleitos para essa posição como uma promoção por um fiel serviço no diaconato, ou por causa de perspicácia nos negócios, habilidade política ou carisma pessoal, com pouco reconhecimento das exigências bíblicas.
Recentemente estive envolvido num grande ministério num país da América do Sul, onde todos os funcionários tinham de usar crachás para serem facilmente reconhecidos pelos visitantes do escritório onde trabalhávamos. O meu dizia Pastor Gareth Evans . Coloquei-o na lapela e o usei por um tempo, até notar que muitos outros também eram chamados de ‘pastor’, embora quase nenhum deles jamais tivesse atuado nesse papel. Explicaram-me que, como todos estavam em algum tipo de ministério, todos eram pastores. Assim como todos na minha igreja no País de Gales achavam que sabiam ensinar, agora parecia que todos naquele escritório achavam que sabiam pastorear! Discretamente tirei o meu crachá e o substituí por um que dizia simplesmente Gareth Evans.
Quando chamamos pessoas de pastores ou presbíteros, ainda que o Senhor não as tenha designado para tal, enfraquecemos a autoridade dessa posição e corremos o risco de perder a sua unção. Não é de admirar que as pessoas que elas lideram fiquem muitas vezes privadas da carne da Palavra de Deus e cresçam apenas com o seu leite.
O Senhor “deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo; até que todos cheguemos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, a um varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo.” (Efésios 4:11-13) Esses cinco dons ministeriais são apenas uma pequena parte dos variados dons e talentos que o Senhor colocou na igreja, o seu corpo. O apóstolo Paulo usa a analogia de um corpo para descrever o relacionamento que deve existir na unidade de todos os crentes. Somos um só corpo, do qual Cristo é a cabeça.
(À parte: muitas vezes me perguntam que parte do corpo eu sou. Com um sorriso respondo: “Sou o ‘dedão do pé’!” Quando me pedem para explicar, lembro aos meus ouvintes que, como o dedão do pé, um pastor muitas vezes trabalha nos ‘lugares escuros e malcheirosos’ da vida das pessoas. Ele também está constantemente ‘sob pressão’, mas a razão nº 1 pela qual me considero um ‘dedão do pé’ é que quero trazer equilíbrio ao Corpo de Cristo.)
É digno de nota que os três contextos em que Paulo escreve sobre o corpo de Cristo são também os mesmos três lugares em que ele enfatiza os dons do Espírito Santo. Ao estudarmos esses trechos, torna-se evidente que os dons do Espírito são para o benefício da igreja, o seu corpo, e não do indivíduo.
Efésios 4, citado acima.
vv. 4-7 Um só corpo… versículo de ligação, v. 7 “Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo.” vv. 11-13 Cinco dons para o aperfeiçoamento. Romanos 12 vv. 4-5 muitos membros num só corpo e nem todos têm a mesma função.
Versículo de ligação, v. 6 “E, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos foi dada, usemo-los assim:” vv. 6-8 Profecia, serviço, ensino, exortação, contribuição, liderança, misericórdia. 1 Coríntios 12 vv. 12-27 por um só Espírito fomos todos batizados num só corpo ... o corpo não é um só membro, mas muitos..... O ouvido não pode dizer ao olho: ‘Não preciso de ti’.... Mas agora Deus colocou os membros no corpo, como lhe aprouve. Versículos de ligação, vv. 4-7 “Há diversidade de dons.... diversidade de ministérios.... diversidade de operações.... a cada um é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum.”
vv. 8-11 palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, (dom da) fé, dons de curar, operação de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas, interpretação de línguas.
vv. 28-30 apóstolos, profetas, mestres (também em Efésios 4), milagres, curas, línguas (também antes, neste capítulo), socorros, administrações, (também em Romanos 12 - serviço, liderança). Não importa quantos dons existem, nem ser capaz de definir com clareza exatamente o que cada dom envolve. O que importa é perceber que foi a Santíssima Trindade que designou esses dons, e não o homem. (1 Coríntios 12:28 - “ Deus estabeleceu .” 1 Coríntios 12:11 - “ O Espírito distribui .. ” Efésios 4:11 - “ Aquele que subiu .. deu .”)
O Senhor dá dons, talentos e habilidades ao seu povo para capacitá-lo a carregar o fardo que Ele lhe impôs. Eles tornam o jugo ‘suave’ e o fardo ‘leve’.
Ele também quer usar as nossas habilidades e talentos ‘naturais’ e pode pôr a sua unção sobre eles quando usados em conjunto com os dons espirituais.
Quando Deus chamou Moisés para conduzir o seu povo para fora da escravidão no Egito, o seu servo manifestou receio. “Eles não vão acreditar em mim”, disse ele. “Não vão reconhecer que foste tu quem me enviou.” Em outras palavras, duvidariam da sua autoridade.
O Senhor disse: “Que é isso na tua mão?”
“Apenas o meu cajado de pastor.” “É tudo o que tenho, pois passei os últimos quarenta anos apascentando ovelhas.”
“Exatamente”, o Senhor poderia ter respondido. “Isso é um sinal da tua autoridade como pastor. Um pastor que venho treinando e moldando durante os últimos quarenta anos, para que tu sejas o instrumento ungido por meio de quem conduzirei um milhão de ovelhas de duas pernas, e balindo, pelos próximos quarenta anos!”
“Davi, o que tens no teu bolso?”
“Apenas uma funda para espantar ursos e leões”, respondeu o jovem pastor.
“Ótimo! Isso será suficiente para derrotar este gigante, Golias, pois venho te preparando para este dia!”
“Mulher viúva, o que tens em tua casa?”
“Apenas uma pequena vasilha de azeite.”
“Ajunta todas as vasilhas e panelas que puderes. Vamos abençoar todos os teus vizinhos!”
“Pedro, o que tens no teu barco?”
“Apenas a minha rede de pescador.”
“Lança-a do outro lado do barco, e recolherás uma grande pesca.”
“Paulo, que documento é esse que guardas tão bem?”
“É o meu certificado de cidadania romana.”
“Precisas dele, pois vou te levar a Roma para seres minha testemunha na cidade capital deste mundo.”
Eu estava apresentando este material a cerca de cinquenta homens num retiro de fim de semana. Neste ponto do ensino, um dos presentes levantou-se e perguntou se poderia contar uma história. “Eu nunca pensei que tivesse algum dom para oferecer ao Senhor”, começou ele. “Até que, um dia na igreja, notei que uma jovem que costumava sentar-se à minha frente estava ausente do culto. Na semana seguinte tive oportunidade de falar com ela, então lhe disse que sentíramos a sua falta. Ela me informou que não havia podido vir ao culto porque o seu carro estava precisando de novas lonas de freio e ela não tinha condições de pagar o conserto.
Naquele dia uma amiga a havia trazido, e o carro continuava inutilizável. Naquela semana levei o carro dela a um amigo que era dono de uma oficina e lhe pedi que trocasse as lonas como um favor a mim, e eu o pagaria. Ele concordou, mas insistiu em também participar da bênção àquela jovem, cobrando-me apenas o custo das peças. Quando vimos o sorriso no rosto dela ao lhe devolverem o carro, nós dois recebemos uma grande bênção. Mal sabíamos o que o Senhor estava planejando.
Comecei a olhar ao redor da igreja para outros a quem eu pudesse ajudar dessa forma, especialmente os jovens que tinham pouca experiência em manter os carros em bom estado de funcionamento, algo que eu sabia fazer muito bem. Todo fim de semana, meu amigo e eu trabalhávamos juntos no calhambeque velho de alguém, até que um dia fui chamado à presença do pastor principal.
‘Não estou satisfeito que vocês dois estejam abençoando tanto os nossos jovens!’ disse ele. Fiquei surpreso, até que acrescentou: ‘Todos estão falando de você, e muitas pessoas novas estão vindo à igreja porque ouviram desses jovens o quanto esta igreja se importa com eles. Mas você não está nos deixando compartilhar dessa bênção com você! Quero que você continue buscando necessidades, recrute outros para ajudá-lo e lance os custos à conta da igreja!’ Temos sido tão abençoados ao ver muitos dos nossos homens liberados para um ministério de ajuda!”
Que pastor sábio! Não é de admirar que aquela igreja esteja crescendo em número e em impacto naquela comunidade!
Aquele irmão ofereceu a sua habilidade e as suas finanças (dons seculares), mas o Senhor lhe havia dado um dom espiritual de ‘ajuda’ para complementá-los. Quando ele ministrava em seu fardo, a unção vinha sobre ele e sobre a igreja.
“Paulo, por que viajas e escreves tanto?”
“Porque o Senhor me deu o dom do apostolado aos gentios.”
“Filipe, por que foste ao deserto falar com aquele eunuco etíope?”
“Porque o Espírito do Senhor me conduziu e me disse o que dizer.”
“De agora em diante serás conhecido como Filipe, o Evangelista.”
“Timóteo, qual é o segredo do teu ministério?”
“É o dom da fé que recebi pela imposição das mãos (de Paulo).”
“Reaviva-o, pois, porque não recebeste um espírito de timidez, mas de poder, de amor e de disciplina.” (2 Timóteo 1:6-7) “Meu filho, o que tens em tua alma?”
“Tenho a minha ‘vasilha de azeite’ - a presença do teu Espírito Santo” (Ao longo de toda a Escritura, o azeite sempre fala do Espírito Santo).
“Ele veio para te dar os dons que quero que tenhas, a fim de que carregues o meu fardo, libertes os cativos, derrotes os gigantes, abençoes os teus vizinhos, sejas um pescador de homens e sejas a minha testemunha na tua Jerusalém, Samaria e Judeia, e até os confins da terra.”
O seu dom
Então, que dons o Senhor deu a você que Ele pode usar no seu Reino?
Pergunte a outros crentes maduros se eles veem em você evidência de algum dom espiritual. Você deve definir o seu fardo, mas são os outros que precisam definir o seu dom. Há dons, talentos ou habilidades naturais que o Senhor pode usar à medida que você os oferece a Ele. Ele pode muito bem pôr uma unção especial sobre eles, mas não está obrigado a fazê-lo. Contudo, Ele sempre porá a sua unção sobre o homem ou a mulher humilde que ministra em seu fardo, exercendo os dons espirituais que Ele deu para esse propósito.
Aqui está uma lista de alguns outros dons: Espirituais (a minha vasilha de azeite): diaconato; gentileza; bondade; governo; ajuda; esperança; alegria; amor; mansidão ou disposição para aprender; misericórdia; paz; domínio próprio ou temperança; ....
Seculares (a vara na minha mão): aviador ou marinheiro; habilidade ou posição nos negócios; alimentação e eventos; computação e mídia; direção e pilotagem; educação; experiência; finanças; hospitalidade; idiomas; um bom casamento; enfermagem; trabalho de escritório; ciência; algum outro conhecimento especializado; esporte; ensino; viagens e literatura; ....
.... Escreva os seus.