Com Cristo na Escola de Oração
Cristo, o Intercessor

Capítulo 27 · 13 min de leitura

Cristo, o Intercessor

“Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça.”—Lucas 22:32.

“Não vos digo que rogarei ao Pai por vós.”—João 16:26.

“Ele vive sempre para interceder.”—Hebreus 7:25.

TODO crescimento na vida espiritual está ligado a uma percepção mais clara do que Jesus é para nós. Quanto mais compreendo que Cristo deve ser tudo para mim e em mim, que tudo o que há em Cristo é de fato para mim, tanto mais aprendo a viver a verdadeira vida de fé, a qual, morrendo para si mesma, vive inteiramente em Cristo. A vida cristã já não é a luta vã de viver corretamente, mas o repousar em Cristo e o encontrar força nele como a nossa vida, para combater o combate e alcançar a vitória da fé. Isso é especialmente verdadeiro quanto à vida de oração. Como também ela está sob a lei da fé somente, e é vista à luz da plenitude e da perfeição que há em Jesus, o crente entende que ela já não precisa ser motivo de esforço ou de ansioso cuidado, mas uma experiência do que Cristo fará por ele e nele—uma participação naquela vida de Cristo que, tanto na terra como no céu, sobe sempre ao Pai como oração. E ele começa a orar, não somente confiando nos méritos de Jesus, ou na intercessão pela qual as nossas indignas orações se tornam aceitáveis, mas naquela união íntima e estreita em virtude da qual Ele ora em nós e nós nele. Toda a salvação é o próprio Cristo: Ele deu-se a SI MESMO a nós; Ele mesmo vive em nós. Porque Ele ora, nós também oramos. Assim como os discípulos, ao verem Jesus orar, lhe pediram que os fizesse participantes daquilo que Ele sabia sobre a oração, assim também nós, agora que o vemos como intercessor no trono, sabemos que Ele nos faz participar com Ele mesmo na vida de oração.

Quão claramente isso se manifesta na última noite da sua vida. Na sua oração sacerdotal (João 17), Ele nos mostra como e o que tem a orar ao Pai, e orará uma vez ascendido ao céu. E, contudo, na sua despedida ligara tão repetidamente também a sua ida ao Pai com a sua nova vida de oração. Os dois estariam por fim ligados: a sua entrada na obra da sua intercessão eterna seria o princípio e o poder da sua nova vida de oração em seu Nome. É a visão de Jesus na sua intercessão que nos dá poder para orar em seu Nome: todo o direito e poder de oração são de Cristo; Ele nos faz partilhar da sua intercessão.

Para entender isso, pense primeiro na sua intercessão: Ele vive sempre para interceder. A obra de Cristo na terra como Sacerdote foi apenas um começo. Foi como Arão que Ele derramou o seu sangue; é como Melquisedeque que Ele agora vive dentro do véu para continuar a sua obra, segundo o poder da vida eterna. Assim como Melquisedeque é mais glorioso do que Arão, assim é na obra de intercessão que a expiação tem o seu verdadeiro poder e glória. “É Cristo que morreu: ou antes, que está mesmo à direita de Deus, e também intercede por nós.” Aquela intercessão é uma realidade intensa, uma obra absolutamente necessária, e sem a qual a contínua aplicação da redenção não pode acontecer. Na encarnação e na ressurreição de Jesus efetuou-se a maravilhosa reconciliação, pela qual o homem se tornou participante da vida e da bem-aventurança divinas. Mas a real apropriação pessoal desta reconciliação em cada um dos seus membros aqui embaixo não pode acontecer sem o incessante exercício do seu poder divino pela cabeça no céu. Em toda conversão e santificação, em toda vitória sobre o pecado e o mundo, há um verdadeiro exercício do poder daquele que é poderoso para salvar. E este exercício do seu poder só se dá por meio da sua oração: Ele pede ao Pai, e recebe do Pai. “Ele pode salvar totalmente, porque vive sempre para interceder.” Não há uma necessidade do seu povo sem que Ele receba na intercessão aquilo que a Divindade tem para dar: a sua mediação no trono é tão real e indispensável quanto na cruz. Nada acontece sem a sua intercessão: ela ocupa todo o seu tempo e todas as suas forças, é a sua incessante ocupação à direita do Pai.

E nós participamos não somente dos benefícios desta sua obra, mas da própria obra. Isso porque somos o seu corpo. O corpo e os membros são um: “A cabeça não pode dizer aos pés: Não tenho necessidade de vós.” Partilhamos com Jesus de tudo o que Ele é e tem: “A glória que me deste, eu lhes dei.” Somos participantes da sua vida, da sua justiça, da sua obra: partilhamos com Ele também da sua intercessão; não é uma obra que Ele faz sem nós.

Fazemos isso porque somos participantes da sua vida: “Cristo, que é a nossa vida;” “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.” A vida nele e em nós é idêntica, uma e a mesma. A sua vida em nós é uma vida sempre-orante. Quando ela desce e toma posse de nós, não perde o seu caráter; em nós também é a vida sempre-orante—uma vida que sem cessar pede e recebe de Deus. E isso não como se houvesse duas correntes separadas de oração subindo, uma dele e outra do seu povo. Não, mas a substancial união de vida é também união de oração: o que Ele ora passa por nós, o que nós oramos passa por Ele. Ele é o anjo com o incensário de ouro: “A ELE foi dado muito incenso,” o segredo da oração aceitável, “para que o ajuntasse às orações de todos os santos sobre o altar de ouro.” Nós vivemos, permanecemos nele, o que intercede.

O Unigênito é o único que tem o direito de orar: somente a Ele foi dito: “Pede, e te será dado.” Assim como em todas as outras coisas a plenitude habita nele, assim também a verdadeira plenitude de oração; somente Ele tem o poder da oração. E, assim como o crescimento da vida espiritual consiste na percepção mais clara de que todos os tesouros estão nele, e de que nós também estamos nele, para receber a cada momento o que possuímos nele, graça sobre graça, assim também na vida de oração. A nossa fé na intercessão de Jesus não deve ser somente que Ele ora em nosso lugar, quando não oramos ou não podemos orar, mas que, como o Autor da nossa vida e da nossa fé, Ele nos atrai a orar em uníssono com Ele mesmo. A nossa oração deve ser uma obra de fé também neste sentido: que, assim como sabemos que Jesus comunica toda a sua vida em nós, Ele também, daquela vida de oração que só a Ele pertence, sopra em nós o nosso orar.

Para muitos crentes foi uma nova época na vida espiritual quando lhes foi revelado quão verdadeira e inteiramente Cristo era a sua vida, sendo fiador do seu permanecer fiel e obediente. Foi então, pela primeira vez, que ele realmente começou a viver uma vida-de-fé. Não menos bendita será a descoberta de que Cristo é também o fiador da nossa vida de oração, o centro e a corporificação de toda oração, a ser comunicada por Ele por meio do Espírito Santo ao seu povo. “Ele vive sempre para interceder” como a Cabeça do corpo, como o Guia naquele caminho novo e vivo que Ele abriu, como o Autor e o Consumador da nossa fé. Ele provê em tudo para a vida dos seus remidos, dando a sua própria vida neles: Ele cuida da vida de oração deles, tomando-os para dentro da sua vida celestial de oração, dando e mantendo neles a sua vida de oração. “Eu roguei por ti,” não para tornar a tua fé desnecessária, mas “para que a tua fé não desfaleça:” a nossa fé e a nossa oração de fé estão enraizadas na dele. É: “se vós estiverdes em mim,” o Intercessor sempre vivo, e orardes comigo e em mim: “pedi tudo o que quiserdes, e vos será feito.”

O pensamento da nossa comunhão na intercessão de Jesus nos lembra do que Ele nos ensinou mais de uma vez antes: como todas estas maravilhosas promessas de oração têm por seu alvo e sua justificação a glória de Deus na manifestação do seu reino e na salvação dos pecadores. Enquanto orarmos somente ou principalmente por nós mesmos, as promessas da última noite hão de permanecer para nós um livro selado. É aos ramos frutíferos da Videira; é aos discípulos enviados ao mundo como o Pai o enviou, para viverem por homens que perecem; é aos seus servos fiéis e amigos íntimos que assumem a obra que Ele deixa para trás, que, como o seu Senhor, se tornaram como o grão de trigo, perdendo a sua vida para multiplicá-la muitas vezes;—é a tais que as promessas são dadas. Descubra cada um de nós qual é a obra, e quais são as almas confiadas às nossas orações especiais; façamos da nossa intercessão por elas a nossa vida de comunhão com Deus, e não só veremos cumpridas em nós as promessas de poder na oração, mas então, pela primeira vez, começaremos a compreender como o nosso permanecer em Cristo e o seu permanecer em nós nos faz partilhar da sua própria alegria de abençoar e salvar homens.

Oh, maravilhosíssima intercessão do nosso bendito Senhor Jesus, à qual não somente devemos tudo, mas na qual somos tomados como parceiros ativos e cooperadores! Agora entendemos o que é orar no Nome de Jesus, e por que tem tanto poder. Em seu Nome, em seu Espírito, nele mesmo, em perfeita união com Ele. Oh, admirável, sempre ativa e eficacíssima intercessão do homem Cristo Jesus! Quando seremos totalmente tomados para dentro dela e oraremos sempre nela?

“SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR.”

Bendito Senhor! Em humilde adoração, eu me prostraria de novo diante de ti. Toda a tua obra de redenção passou agora a ser oração; tudo o que agora te ocupa em manter e dispensar o que compraste com o teu sangue é somente oração. Tu vives sempre para orar. E porque somos e permanecemos em ti, o acesso direto ao Pai está sempre aberto, a nossa vida pode ser de oração incessante, e a resposta à nossa oração é certa.

Bendito Senhor! Tu convidaste o teu povo a ser teus cooperadores numa vida de oração. Uniste-te ao teu povo e o fazes, como teu corpo, partilhar contigo daquele ministério de intercessão pelo qual somente o mundo pode ser cheio do fruto da tua redenção e da glória do Pai. Com mais liberdade do que nunca venho a ti, meu Senhor, e te suplico: Ensina-me a orar. A tua vida é oração, a tua vida é a minha. Senhor! ensina-me a orar, em ti, como tu.

E, ó meu Senhor! Concede-me especialmente conhecer, como prometeste aos teus discípulos, que tu estás no Pai, e eu em ti, e tu em mim. Que o poder unificador do Espírito Santo faça de toda a minha vida um permanecer em ti e na tua intercessão, para que a minha oração seja o seu eco, e o Pai me ouça em ti e a ti em mim. Senhor Jesus! que a tua mente em tudo esteja em mim, e a minha vida em tudo esteja em ti. Assim estarei preparado para ser o canal pelo qual a tua intercessão derrama a sua bênção sobre o mundo. Amém.

NOTA.

“A nova época da oração no Nome de Jesus é apontada por Cristo como o tempo do derramamento do Espírito, no qual os discípulos entram numa compreensão mais esclarecida da economia da redenção, e se tornam tão claramente conscientes da sua unidade com Jesus quanto da unidade dele com o Pai. A oração deles no Nome de Jesus é agora diretamente ao próprio Pai. ‘Não vos digo que rogarei por vós, porque o próprio Pai vos ama,’ diz Jesus; ao passo que antes falara do tempo anterior à vinda do Espírito: ‘Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará o Consolador.’ Esta oração tem, pois, como seu pensamento central, a percepção de que estamos unidos a Deus em Cristo como, de ambos os lados, o vínculo vivo de união entre Deus e nós (João 17:23: ‘Eu neles, e tu em mim’), de modo que em Jesus contemplamos o Pai como unido a nós, e a nós mesmos como unidos ao Pai. Jesus Cristo há de ter-nos sido revelado, não somente pela verdade na mente, mas na nossa mais íntima consciência pessoal como a viva reconciliação pessoal, como aquele em quem a paternidade de Deus e o amor paternal foram perfeitamente unidos à natureza humana, e ela a Deus. Não que, com a oração imediata ao Pai, a mediação de Cristo seja posta de lado; mas ela já não é vista como algo externo, existente fora de nós, mas como uma real existência espiritual viva dentro de nós, de modo que o Cristo para nós, o Mediador, tornou-se realmente o Cristo em nós.

“Quando a consciência dessa unidade entre Deus em Cristo e nós em Cristo ainda falta, ou foi obscurecida pelo senso de culpa, então a oração de fé olha para o nosso Senhor como o Advogado, que paga ao Pai por nós. (Compare João 16:26 com João 14:16, 17; 9:20; Lucas 21:32; 1 João 2:1.) Tomar Cristo assim na oração como Advogado não é, segundo João 16:26, perfeitamente o mesmo que a oração em seu Nome. A advocacia de Cristo destina-se a conduzir-nos àquela íntima e independente união de vida com Ele, e com o Pai nele, em virtude da qual Cristo é aquele em quem Deus entra em relação imediata e se une a nós, e em quem nós, em todas as circunstâncias, entramos em relação imediata com Deus. Assim também a oração no Nome de Jesus não consiste em orarmos por ordem dele: os discípulos haviam orado assim desde que o Senhor lhes dera o seu ‘Pai Nosso’, e, contudo, Ele diz: ‘Até agora não orastes em meu Nome.’ Somente quando a mediação de Cristo se tornou, pela habitação do Espírito Santo, vida e poder dentro de nós, e assim a sua mente, tal como se expressou na sua palavra e na sua obra, tomou posse da nossa consciência e vontade pessoais e as encheu, de modo que, em fé e amor, temos Jesus em nós como o Reconciliador que realmente nos fez um com Deus: só então o seu Nome, que incluía a sua natureza e a sua obra, se torna verdade e poder em nós (não somente para nós), e temos, no Nome de Jesus, o livre e direto acesso ao Pai que tem a certeza de ser ouvido. A oração no Nome de Jesus é a liberdade de um filho para com o Pai, tal como Jesus a teve como o Primogênito. Oramos no lugar de Jesus, não como se pudéssemos pôr-nos no seu lugar, mas na medida em que estamos nele e Ele em nós. Vamos diretamente ao Pai, mas somente enquanto o Pai está em Cristo, não como se Ele estivesse separado de Cristo. Assim, onde quer que o homem interior não viva em Cristo e não o tenha presente como o Vivente, onde a sua palavra não governa o coração no seu poder do Espírito, onde a sua verdade e vida não se tornaram a vida da nossa alma, é vão pensar que uma fórmula como ‘por amor do teu amado Filho’ prevaleça.”—Christliche Ethik, von Dr. I. T. Beck, Tubingen, iii. 39.

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