Capítulo 7 · 20 min de leitura
A Sexta Etapa
Ora, quando já estavam quase de todo fora deste deserto, Fiel houve por acaso de lançar o olhar para trás e avistou alguém que vinha após eles, e o reconheceu. Oh! disse Fiel a seu irmão, quem vem ali? Então Cristão olhou e disse: É o meu bom amigo Evangelista. Sim, e meu bom amigo também, disse Fiel, pois foi ele que me pôs no caminho da porta. Ora, Evangelista chegou até eles e assim os saudou.
Evangelista: Paz seja convosco, amados, e paz aos que vos ajudam.
Cristão: Bem-vindo, bem-vindo, meu bom Evangelista: a vista do teu semblante traz à minha lembrança a tua antiga bondade e os teus incansáveis labores em prol do meu bem eterno.
Fiel: E mil vezes bem-vinda, disse o bom Fiel, a tua companhia, ó doce Evangelista; quão desejável ela é para nós, pobres peregrinos!
Evangelista: Então disse Evangelista: Como vos tem ido, meus amigos, desde o tempo da nossa última despedida? Com que vos deparastes, e como vos houvestes?
Então Cristão e Fiel lhe contaram todas as coisas que lhes haviam sucedido no caminho, e como, e com quanta dificuldade, haviam chegado àquele lugar.
Muito me alegro, disse Evangelista, não de que vos tenhais deparado com provações, mas de que tenhais sido vencedores, e de que, apesar de muitas fraquezas, tenhais permanecido no caminho até este mesmo dia.
Digo, muito me alegro desta coisa, e isso pela minha própria causa e pela vossa: eu semeei, e vós ceifastes; e vem chegando o dia em que “tanto o que semeia como os que ceifam se alegrarão juntamente”, João 4:36; isto é, se perseverardes: “porque a seu tempo ceifareis, se não desfalecerdes.” Gálatas 6:9. A coroa está diante de vós, e é incorruptível; “correi de tal maneira que a alcanceis.” 1 Coríntios 9:24-27. Há alguns que partem em busca desta coroa e, depois de muito terem avançado por ela, chega outro e lha toma: “conserva, portanto, o que tens; que ninguém tome a tua coroa.” Apocalipse 3:11. Ainda não estais fora do alcance do tiro do diabo; “ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado.” Tende sempre o reino diante de vós, e crede firmemente nas coisas que são invisíveis. Não deixeis que nada que esteja aquém do outro mundo se aposse de vós. E, acima de tudo, atentai bem para os vossos próprios corações e para as concupiscências deles; pois são “enganosos acima de todas as coisas, e desesperadamente corruptos.” Ponde os vossos rostos como pederneira; tendes de vosso lado todo o poder no céu e na terra.
Cristão: Então Cristão lhe agradeceu as suas exortações; mas disse-lhe também que desejavam que ele lhes falasse mais, para o seu socorro no restante do caminho; e tanto mais quanto bem sabiam que ele era um profeta e podia dizer-lhes das coisas que lhes poderiam suceder, e também como as poderiam resistir e vencer. A este pedido consentiu também Fiel. Assim Evangelista começou como se segue.
Evangelista: Meus filhos, ouvistes na palavra da verdade do Evangelho que vos importa “por muitas tribulações entrar no reino dos céus”; e ainda, que “em cada cidade vos esperam prisões e tribulações”; e, portanto, não podeis esperar que caminheis longamente na vossa peregrinação sem elas, de uma forma ou de outra. Já experimentastes algo da verdade destes testemunhos sobre vós, e mais se seguirá de imediato: pois agora, como vedes, estais quase fora deste deserto, e por isso em breve chegareis a uma cidade que dentro em pouco vereis diante de vós; e naquela cidade sereis duramente cercados por inimigos, que se esforçarão ao máximo para vos matar; e tende por certo que um de vós, ou ambos, haveis de selar com sangue o testemunho que sustentais; mas “sede fiéis até à morte, e o Rei vos dará a coroa da vida.” Aquele que ali morrer, ainda que a sua morte seja violenta, e a sua dor, talvez, grande, levará contudo vantagem sobre o seu companheiro; não só porque chegará mais cedo à Cidade Celestial, mas porque escapará de muitas misérias com que o outro se deparará no restante da sua jornada. Mas quando chegardes à cidade, e virdes cumprir-se o que aqui vos relatei, então lembrai-vos do vosso amigo, e portai-vos como homens, e “entregai a guarda de vossas almas a Deus, fazendo o bem, como ao fiel Criador.”
Então vi em meu sonho que, quando saíram do deserto, logo viram uma cidade diante deles, e o nome dessa cidade é Vaidade; e naquela cidade realiza-se uma feira, chamada a Feira da Vaidade. Ela se realiza durante todo o ano. Traz o nome de Feira da Vaidade porque a cidade onde se realiza é mais leve que a vaidade, Salmos 62:9; e também porque tudo o que ali se vende, ou que ali vem, é vaidade; como diz o sábio: “Tudo o que vem é vaidade.” Eclesiastes 11:8; veja também 1:2-14; 2:11-17; Isaías 40:17.
Esta feira não é um negócio recém-erguido, mas coisa de antiga data. Eu vos mostrarei a sua origem.
Há quase cinco mil anos havia peregrinos que caminhavam para a Cidade Celestial, como estas duas honestas pessoas: e Belzebu, Apoliom e Legião, com os seus companheiros, percebendo pela vereda que os peregrinos abriam que o seu caminho para a cidade passava por esta cidade de Vaidade, planejaram erguer aqui uma feira; uma feira em que se vendesse toda sorte de vaidade, e que durasse o ano inteiro. Portanto, nesta feira vendem-se todas essas mercadorias como casas, terras, ofícios, cargos, honras, promoções, títulos, países, reinos, concupiscências, prazeres; e deleites de toda espécie, como meretrizes, esposas, maridos, filhos, senhores, servos, vidas, sangue, corpos, almas, prata, ouro, pérolas, pedras preciosas, e o que mais houver.
E, além disso, nesta feira veem-se a toda hora prestidigitações, trapaças, jogos, espetáculos, tolos, macacos, velhacos e patifes, e isso de toda casta.
Aqui também se veem, e isso de graça, furtos, assassinatos, adultérios, perjuros, e isso de uma cor vermelho-sangue.
E, assim como noutras feiras de menor monta há as várias fileiras e ruas com os seus próprios nomes, onde se vendem tais e tais mercadorias; assim também aqui tendes os lugares próprios, fileiras, ruas (a saber, países e reinos), onde as mercadorias desta feira mais depressa se encontram. Eis a Fileira da Bretanha, a Fileira Francesa, a Fileira Italiana, a Fileira Espanhola, a Fileira Alemã, onde se vendem diversas espécies de vaidades. Mas, como noutras feiras, alguma mercadoria é como a principal de toda a feira; assim a mercadoria de Roma e o seu comércio são grandemente promovidos nesta feira; somente a nossa nação inglesa, com algumas outras, tomou-lhe aversão.
Ora, como eu disse, o caminho para a Cidade Celestial passa justamente por esta cidade, onde se realiza esta pujante feira; e aquele que quiser ir à cidade, e contudo não passar por esta cidade, “necessário lhe seria sair do mundo.” 1 Coríntios 4:10. O próprio Príncipe dos príncipes, quando aqui esteve, passou por esta cidade rumo à sua própria pátria, e isso também num dia de feira; sim, e, ao que penso, foi Belzebu, o principal senhor desta feira, que o convidou a comprar das suas vaidades, sim, tê-lo-ia feito senhor da feira, contanto que lhe prestasse reverência ao passar pela cidade. Sim, porque ele era pessoa de tão grande honra, Belzebu o levou de rua em rua e mostrou-lhe todos os reinos do mundo em pouco tempo, para que, se possível, atraísse aquele Bendito a regatear e comprar algumas das suas vaidades; mas ele não tinha desejo da mercadoria, e por isso deixou a cidade, sem gastar sequer um ceitil com estas vaidades. Mateus 4:8,9; Lucas 4:5-7. Esta feira, portanto, é coisa antiga, de longa data, e uma feira mui grande.
Ora, estes peregrinos, como eu disse, tinham forçosamente de passar por esta feira. Pois bem, assim fizeram; mas eis que, logo ao entrarem na feira, todo o povo da feira se comoveu; e a própria cidade, por assim dizer, ficou em alvoroço por causa deles, e isso por várias razões: pois,
Primeiro, os Peregrinos estavam vestidos de tal sorte de traje que diferia do traje de qualquer um que negociasse naquela feira. O povo da feira, portanto, muito os fitava: alguns diziam que eram tolos; 1 Coríntios 4:9,10; outros, que eram loucos; e alguns, que eram homens forasteiros.
Segundo, e assim como se admiravam do seu traje, assim também se admiravam da sua fala; pois poucos podiam entender o que diziam. Eles falavam naturalmente a língua de Canaã; mas os que mantinham a feira eram os homens deste mundo: de sorte que, de uma ponta à outra da feira, pareciam bárbaros uns aos outros. 1 Coríntios 2:7,8.
Terceiro, mas o que não pouco espantava os mercadores era que estes peregrinos faziam muito pouco caso de todas as suas mercadorias. Nem sequer se davam ao trabalho de olhá-las; e, se os chamavam para comprar, eles punham os dedos nos ouvidos e clamavam: “Desvia os meus olhos de contemplar a vaidade”, Salmos 119:37, e olhavam para o alto, dando a entender que o seu negócio e o seu comércio estavam no céu. Filipenses 3:20,21.
Um deles, por acaso, zombando, ao observar o porte dos homens, disse-lhes: “Que quereis comprar?” Mas eles, olhando gravemente para ele, disseram: “Compramos a verdade.” Provérbios 23:23. Nisto se tomou ocasião para desprezar ainda mais os homens; uns zombando, outros escarnecendo, outros falando com injúrias, e alguns incitando outros a espancá-los. Por fim, as coisas chegaram a um alvoroço e grande tumulto na feira, de tal modo que toda a ordem se confundiu. Ora, logo se levou a notícia ao grande senhor da feira, o qual desceu prontamente e deputou alguns dos seus mais fiéis amigos para tomarem aqueles homens em exame, por causa dos quais a feira estivera quase transtornada. Assim os homens foram levados a exame; e os que sobre eles se assentavam perguntaram-lhes de onde vinham, para onde iam, e que faziam ali em traje tão insólito. Os homens lhes disseram que eram peregrinos e estrangeiros no mundo, e que iam para a sua própria pátria, que era a Jerusalém celestial, Hebreus 11:13-16; e que não haviam dado ocasião alguma aos homens da cidade, nem tampouco aos mercadores, para assim os maltratarem e os deterem em sua jornada, exceto que, quando alguém lhes perguntou o que comprariam, disseram que comprariam a verdade. Mas os que foram designados para os examinar não os julgaram senão lunáticos e doidos, ou então gente que viera para lançar tudo em confusão na feira. Portanto os tomaram e os espancaram, e os cobriram de lama, e depois os meteram na jaula, para que fossem feitos um espetáculo a todos os homens da feira. Ali, pois, jazeram por algum tempo, e foram feitos objeto do divertimento, ou da malícia, ou da vingança de qualquer homem; rindo-se ainda o grande senhor da feira de tudo o que lhes sucedia. Mas, sendo os homens pacientes, e “não tornando injúria por injúria, mas, pelo contrário, bendizendo”, e dando boas palavras por más, e bondade por injúrias feitas, alguns homens na feira, que eram mais atentos e menos preconceituosos que os demais, começaram a repreender e a censurar a gente mais vil pelos seus contínuos maus-tratos feitos aos homens. Estes, portanto, de maneira irada, arremeteram de novo contra aqueles, tendo-os por tão maus quanto os homens na jaula, e dizendo-lhes que pareciam confederados e deviam ser feitos participantes das suas desgraças. Os outros replicaram que, pelo que podiam ver, os homens eram quietos e sóbrios, e não pretendiam mal a ninguém; e que havia muitos que negociavam na sua feira mais dignos de serem metidos na jaula, sim, e também no pelourinho, do que os homens que haviam maltratado. Assim, depois de trocadas diversas palavras de ambos os lados (comportando-se os homens todo o tempo muito sábia e sobriamente diante deles), chegaram a algumas pancadas entre si, e fizeram mal uns aos outros. Então estes dois pobres homens foram trazidos de novo perante os seus examinadores, e foram acusados de serem culpados do recente alvoroço que houvera na feira. Assim os espancaram lastimosamente, e lhes penduraram ferros, e os conduziram em cadeias para cima e para baixo pela feira, para exemplo e terror de outros, para que ninguém falasse em seu favor, ou a eles se ajuntasse. Mas Cristão e Fiel se comportaram ainda mais sabiamente, e receberam a ignóminia e a vergonha que sobre eles se lançava com tanta mansidão e paciência, que ganharam para o seu lado (ainda que poucos em comparação com os demais) vários dos homens da feira. Isto lançou o outro partido em fúria ainda maior, de tal modo que resolveram a morte destes dois homens. Pelo que ameaçaram que nem jaula nem ferros bastariam para o seu caso, mas que eles haviam de morrer pelos maus-tratos que tinham feito e por iludir os homens da feira.
Então foram recolhidos de novo à jaula, até que outra ordem se tomasse a seu respeito. Assim os meteram dentro, e lhes prenderam os pés no tronco.
Aqui também tornaram a lembrar-se do que haviam ouvido do seu fiel amigo Evangelista, e foram mais confirmados no seu caminho e nos seus sofrimentos por aquilo que ele lhes dissera que lhes sucederia. Também agora se consolavam um ao outro, dizendo que aquele a quem coubesse sofrer, esse mesmo levaria a melhor parte: por isso cada um secretamente desejava ter para si essa preferência. Mas, entregando-se à sapientíssima disposição Daquele que tudo governa, com muito contentamento permaneceram na condição em que estavam, até que de outro modo se dispusesse deles.
Então, marcado um tempo conveniente, trouxeram-nos para o julgamento, a fim de os condenar. Chegado o tempo, foram trazidos perante os seus inimigos e postos em acusação. O nome do juiz era Lorde Odeia-o-Bem; a sua acusação era uma e a mesma em substância, ainda que um tanto variando na forma; cujo teor era este: “Que eles eram inimigos e perturbadores do comércio; que tinham feito comoções e divisões na cidade, e ganhado um partido para as suas próprias e perigosíssimas opiniões, em desprezo da lei do seu príncipe.”
Então Fiel começou a responder que somente se havia posto contra aquilo que se pusera contra Aquele que é mais alto do que o mais alto. E, disse ele, quanto a perturbação, nenhuma faço, sendo eu mesmo homem de paz: os que foram ganhos para o nosso lado, foram ganhos por contemplarem a nossa verdade e inocência, e apenas se voltaram do pior para o melhor. E, quanto ao rei de que falais, visto que é Belzebu, o inimigo do nosso Senhor, eu o desafio a ele e a todos os seus anjos.
Então se fez proclamação de que os que tivessem algo a dizer em favor do seu senhor o rei contra o prisioneiro na barra deviam comparecer imediatamente e dar o seu testemunho. Vieram, pois, três testemunhas, a saber, Inveja, Superstição e Bajulador. Perguntaram-lhes então se conheciam o prisioneiro na barra, e que tinham a dizer em favor do seu senhor o rei contra ele.
Então adiantou-se Inveja e disse deste teor: Meu senhor, conheço este homem há muito tempo, e atestarei sob meu juramento perante este honrado tribunal, que ele é—
Juiz: Alto; deem-lhe o seu juramento.
Assim o ajuramentaram. Então ele disse: Meu senhor, este homem, apesar do seu nome plausível, é um dos mais vis da nossa terra; não respeita príncipe nem povo, lei nem costume, mas faz tudo o que pode para incutir em todos os homens certas das suas noções desleais, às quais em geral chama princípios de fé e santidade. E, em particular, eu mesmo o ouvi uma vez afirmar que o cristianismo e os costumes da nossa cidade de Vaidade eram diametralmente opostos, e não podiam conciliar-se. Com cuja afirmação, meu senhor, ele de um só golpe não somente condena todos os nossos louáveis feitos, mas a nós na prática deles.
Então lhe disse o juiz: Tens mais alguma coisa a dizer?
Inveja: Meu senhor, eu poderia dizer muito mais, só que não quereria ser enfadonho ao tribunal. Contudo, se for preciso, quando os outros cavalheiros tiverem dado o seu testemunho, antes que falte qualquer coisa que sirva para o despachar, alargarei o meu testemunho contra ele. Assim lhe foi mandado que se pusesse de lado.
Então chamaram Superstição, e mandaram-lhe olhar para o prisioneiro. Perguntaram-lhe também que podia dizer em favor do seu senhor o rei contra ele. Então o ajuramentaram; e assim ele começou.
Superstição: Meu senhor, não tenho grande convivência com este homem, nem desejo ter dele maior conhecimento. Contudo, isto sei, que ele é um sujeito mui pestilento, por certa conversa que com ele tive há dias, nesta cidade; pois então, falando com ele, ouvi-o dizer que a nossa religião nada valia, e tal que por ela nenhum homem poderia de modo algum agradar a Deus. Com cuja afirmação, meu senhor, vossa senhoria bem sabe o que daí necessariamente se segue, a saber, que ainda adoramos em vão, ainda estamos nos nossos pecados, e finalmente seremos condenados: e isto é o que tenho a dizer.
Então foi Bajulador ajuramentado, e mandado dizer o que sabia em favor do seu senhor o rei contra o prisioneiro na barra.
Bajulador: Meu senhor, e vós, todos os cavalheiros, a este sujeito conheço há muito tempo, e ouvi-o dizer coisas que não deviam ser ditas; pois ele injuriou o nosso nobre príncipe Belzebu, e falou desprezivelmente dos seus honrados amigos, cujos nomes são: o Lorde Homem Velho, o Lorde Deleite Carnal, o Lorde Luxurioso, o Lorde Desejo de Vanglória, o meu velho Lorde Lascívia, Sir Cobiçoso de Ter, com todo o resto da nossa nobreza: e disse, além disso, que, se todos os homens fossem do seu parecer, se possível, nem um só destes nobres teria mais existência nesta cidade. Ademais, não teve receio de injuriar a vós, meu senhor, que agora estais designado para ser o seu juiz, chamando-vos vilão ímpio, com muitos outros semelhantes termos aviltantes, com que enxovalhou a maior parte da fidalguia da nossa cidade.
Quando este Bajulador contou a sua história, o juiz dirigiu a palavra ao prisioneiro na barra, dizendo: Tu, renegado, herege e traidor, ouviste o que estes honestos cavalheiros testemunharam contra ti?
Fiel: Posso dizer umas poucas palavras em minha própria defesa?
Juiz: Velhaco, velhaco, não mereces viver mais, mas ser morto imediatamente no lugar; contudo, para que todos os homens vejam a nossa brandura para contigo, ouçamos o que tu, vil renegado, tens a dizer.
Fiel: 1. Digo, então, em resposta ao que o Sr. Inveja falou, que nunca disse senão isto: que toda regra, ou leis, ou costume, ou povo, que estivessem abertamente contra a palavra de Deus, são diametralmente opostos ao cristianismo. Se nisto falei mal, convencei-me do meu erro, e estou pronto aqui diante de vós a fazer a minha retratação.
2. Quanto ao segundo, a saber, o Sr. Superstição e a sua acusação contra mim, disse somente isto: que na adoração de Deus se requer uma fé divina; mas não pode haver fé divina sem uma revelação divina da vontade de Deus. Portanto, tudo o que se introduz na adoração de Deus que não seja conforme à revelação divina, não pode fazer-se senão por uma fé humana; a qual fé não aproveitará para a vida eterna.
3. Quanto ao que o Sr. Bajulador disse, digo (evitando termos, como o de que se diz que injurio, e semelhantes) que o príncipe desta cidade, com toda a turba dos seus sequazes, nomeados por este cavalheiro, são mais próprios para uma existência no inferno do que nesta cidade e país. E assim o Senhor tenha misericórdia de mim.
Então o juiz chamou o júri (que todo este tempo estivera ao lado para ouvir e observar): Cavalheiros do júri, vedes este homem, acerca de quem tão grande alvoroço se fez nesta cidade; ouvistes também o que estes dignos cavalheiros testemunharam contra ele; ouvistes igualmente a sua resposta e confissão: está agora em vossos peitos enforcá-lo, ou salvar-lhe a vida; mas ainda assim julgo conveniente instruir-vos na nossa lei.
Houve uma lei feita nos dias de Faraó, o Grande, servo do nosso príncipe, que, para que os de uma religião contrária não se multiplicassem e se tornassem fortes demais para ele, os seus varões fossem lançados ao rio. Êxodo 1:22. Houve também uma lei feita nos dias de Nabucodonosor, o Grande, outro dos seus servos, que todo aquele que não se prostrasse e adorasse a sua imagem de ouro fosse lançado numa fornalha ardente. Daniel 3:6. Houve ainda uma lei feita nos dias de Dario, que todo aquele que por algum tempo invocasse qualquer deus, senão a ele, fosse lançado na cova dos leões. Daniel 6:7. Ora, a substância destas leis este rebelde quebrou, não só em pensamento (o que não se há de tolerar), mas também em palavra e ação; o que, portanto, forçosamente há de ser intolerável.
Quanto à de Faraó, a sua lei foi feita sobre uma suposição, para prevenir o mal, não sendo ainda manifesto crime algum; mas aqui há crime manifesto. Quanto à segunda e à terceira, vedes que ele disputa contra a nossa religião; e pela traição que já confessou, merece morrer de morte.
Então saiu o júri, cujos nomes eram: Sr. Cego, Sr. Imprestável, Sr. Malícia, Sr. Ama-Luxúria, Sr. Vive-Solto, Sr. Impetuoso, Sr. Altivo, Sr. Inimizade, Sr. Mentiroso, Sr. Crueldade, Sr. Odeia-a-Luz e Sr. Implacável; os quais, cada um, deram entre si o seu veredito particular contra ele, e depois unanimemente concluíram declará-lo culpado perante o juiz. E primeiro entre si, o Sr. Cego, o presidente, disse: Vejo claramente que este homem é um herege. Então disse o Sr. Imprestável: Fora da terra com tal sujeito. Sim, disse o Sr. Malícia, pois odeio até a sua aparência. Então disse o Sr. Ama-Luxúria: Nunca o pude suportar. Nem eu, disse o Sr. Vive-Solto, pois ele sempre andava a condenar o meu modo de vida. Enforcai-o, enforcai-o, disse o Sr. Impetuoso. Um miserável reles, disse o Sr. Altivo. O meu coração se levanta contra ele, disse o Sr. Inimizade. É um patife, disse o Sr. Mentiroso. Enforcá-lo é bom demais para ele, disse o Sr. Crueldade. Despachemo-lo do caminho, disse o Sr. Odeia-a-Luz. Então disse o Sr. Implacável: Ainda que me dessem o mundo inteiro, não me poderia reconciliar com ele; portanto, declaremo-lo já culpado de morte.
E assim fizeram; portanto foi logo condenado a ser levado do lugar onde estava para o lugar de onde viera, e ali submetido à mais cruel morte que se pudesse inventar.
Levaram-no, pois, para fora, para fazer com ele segundo a sua lei; e primeiro o açoitaram, depois o esbofetearam, depois lhe retalharam a carne com facas; após isso, o apedrejaram com pedras, depois o traspassaram com as suas espadas; e, por último de tudo, o queimaram até reduzi-lo a cinzas na fogueira. Assim chegou Fiel ao seu fim.
Ora, vi que atrás da multidão estava um carro e uma parelha de cavalos à espera de Fiel, o qual (logo que os seus adversários o despacharam) foi nele recolhido, e imediatamente levado para o alto através das nuvens, ao som de trombeta, pelo caminho mais direto para a porta celestial. Mas, quanto a Cristão, teve algum respiro, e foi recolhido de novo à prisão: assim ali permaneceu por algum tempo. Mas Aquele que a tudo governa, tendo na sua própria mão o poder da fúria deles, de tal modo o dispôs que Cristão, por aquela vez, lhes escapou, e seguiu o seu caminho.
E, ao ir andando, cantava, dizendo:
“Bem, Fiel, tu fielmente professaste
Ao teu Senhor, com quem serás bendito,
Quando os infiéis, com seus vãos deleites,
Clamarem sob os seus tormentos infernais:
Canta, Fiel, canta, e faze o teu nome perdurar;
Pois, ainda que te mataram, tu ainda vives.”
Capítulo 7 concluído
A Sexta Etapa