Capítulo 8 · 12 min de leitura
Restringir a Oração—Será Pecado?
“Tu restringes a oração diante de Deus.”—Jó 15:4.
“Que proveito teríamos, se orássemos a ele?”—Jó 21:15.
“Longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós.”—1 Samuel 12:23.
“Nem estarei mais convosco, se não destruirdes o anátema do meio de vós.”—Josué 7:12.
Todo profundo reavivamento da vida espiritual da Igreja será sempre acompanhado de uma consciência mais profunda do pecado. Isso não começará pela teologia; esta só pode dar expressão àquilo que Deus opera na vida do seu povo. Nem significa que essa consciência mais profunda do pecado se manifestará apenas em expressões mais fortes de autocensura ou penitência: às vezes se descobre que isso coexiste com o acolhimento do pecado e com a incredulidade quanto à libertação. Mas o verdadeiro senso do quanto o pecado é odioso, o ódio a ele, se provará pela intensidade do desejo de libertação e pela luta por conhecer até o extremo o que Deus pode fazer para salvar dele—um santo zelo de em nada pecar contra Deus.
Se quisermos lidar de modo eficaz com a falta de oração, precisamos encará-la deste ponto de vista e perguntar: restringir a oração, será pecado? E, se o for, como deve ela ser tratada, descoberta, confessada e lançada fora pelo homem, e purificada por Deus? Jesus é o Salvador que salva do pecado. Somente na medida em que conhecemos verdadeiramente o pecado é que podemos conhecer verdadeiramente o poder que salva do pecado. A vida que pode orar eficazmente é a vida do ramo purificado—a vida que conhece a libertação do poder do próprio eu. Ver que os nossos pecados de oração são de fato pecados é o primeiro passo para uma verdadeira e divina libertação deles.
Na história de Acã temos uma das mais fortes provas nas Escrituras de que é o pecado que rouba do povo de Deus a sua bênção, e de que Deus não o tolerará; e, ao mesmo tempo, a mais clara indicação dos princípios segundo os quais Deus lida com ele e o remove. Vejamos, à luz dessa história, se podemos aprender a olhar para o pecado da falta de oração e para a pecaminosidade que jaz na sua raiz. As palavras que citei acima, “Nem estarei mais convosco, se não tirardes o anátema do meio de vós”, levam-nos ao próprio coração da história e sugerem uma série de preciosíssimas lições em torno da verdade que exprimem: que a presença do pecado torna impossível a presença de Deus.
1. A presença de Deus é o grande privilégio do povo de Deus, e o seu único poder contra o inimigo.—Deus prometera a Moisés: Eu vos introduzirei na terra. Moisés mostrou que compreendia isso quando Deus, depois do pecado do bezerro de ouro, falou em retirar a sua presença e enviar um anjo. Ele se recusou a aceitar qualquer coisa menos do que a presença de Deus. “Pois em que se conhecerá que eu e o teu povo achamos graça aos teus olhos? Não é em andares tu conosco?” Foi isso que deu a Calebe e a Josué a sua confiança: o Senhor é conosco. Foi isso que deu a Israel a sua vitória sobre Jericó: a presença de Deus. Esta é, em toda a Escritura, a grande promessa central: Eu sou contigo. Isto distingue o crente de coração íntegro do mundano e dos cristãos mundanos ao seu redor: ele vive conscientemente escondido no segredo da presença de Deus.
2. A derrota e o fracasso sempre se devem à perda da presença de Deus.—Assim foi em Ai. Deus trouxera o seu povo a Canaã com a promessa de lhe dar a terra. Quando sobreveio a derrota em Ai, Josué sentiu de imediato que a causa devia estar na retirada do poder de Deus. Ele não havia lutado por eles. A sua presença fora retida.
Na vida cristã e na obra da Igreja, a derrota é sempre sinal da perda da presença de Deus. Se aplicarmos isso ao nosso fracasso na vida de oração e, em consequência disso, ao nosso fracasso na obra de Deus, somos levados a ver que tudo se deve simplesmente a não estarmos em clara e plena comunhão com Deus. A sua proximidade, a sua presença imediata, não tem sido a coisa principal buscada e em que confiamos. Ele não pôde operar em nós como desejaria. A perda de bênção e de poder é sempre causada pela perda da presença de Deus.
3. A perda da presença de Deus sempre se deve a algum pecado oculto.—Assim como a dor foi disposta na natureza para advertir de algum mal oculto no organismo, a derrota é a voz de Deus a dizer-nos que há algo errado. Ele se deu tão inteiramente ao seu povo, tanto se deleita em estar com ele e tão de bom grado revelaria nele o seu amor e o seu poder, que nunca se retira, a menos que o obriguem a isso pelo pecado.
Por toda a Igreja há uma queixa de derrota. A Igreja tem tão pouco poder sobre as massas, ou sobre as classes instruídas. Conversões poderosas são comparativamente raras. A escassez de cristãos santos, consagrados, espirituais, devotados ao serviço de Deus e do seu próximo, é sentida em toda parte. O poder da Igreja para a pregação do evangelho aos pagãos está paralisado pela falta de dinheiro e de homens; e tudo por causa da falta da oração eficaz que traz o Espírito Santo em poder, primeiro sobre ministros e crentes, depois sobre missionários e pagãos. Poderemos negar que a falta de oração é o pecado por causa do qual a presença e o poder de Deus não se veem mais manifestamente entre nós?
4. O próprio Deus há de descobrir o pecado oculto.—Podemos pensar que sabemos qual é o pecado: só Deus pode descobrir o seu verdadeiro e profundo significado. Quando falou a Josué, antes de nomear o pecado de Acã, Deus disse primeiro: “Transgrediram a minha aliança que lhes ordenei.” Deus ordenara (6:19) que todo o despojo de Jericó, o ouro e a prata e tudo o que nela havia, fosse coisa consagrada, dedicada ao Senhor, e entrasse no seu tesouro. E Israel quebrara esse voto de consagração: não dera a Deus o que lhe era devido; roubara a Deus.
É disto que precisamos: Deus precisa descobrir-nos como a falta de oração é a indicação de infidelidade ao nosso voto de consagração—o voto de que Deus deve ter todo o nosso coração e toda a nossa vida. Precisamos ver que este restringir a oração, com as desculpas que para isso apresentamos, é pecado maior do que temos pensado; pois o que significa? Que temos pouco gosto ou apreço pela comunhão com Deus; que a nossa fé se apoia mais na nossa própria obra e nos nossos esforços do que no poder de Deus; que temos pouca noção da bênção celestial que Deus espera derramar; que não estamos prontos a sacrificar a comodidade e a confiança da carne por uma perseverante espera em Deus; que a espiritualidade da nossa vida, e o nosso permanecer em Cristo, é fraca demais para nos fazer prevalecer na oração. Quando se permite que a pressão da obra por Cristo seja a desculpa para não encontrarmos tempo de buscar e assegurar a sua própria presença e o seu poder nela, como a nossa principal necessidade, isso certamente prova que não há reto senso da nossa absoluta dependência de Deus; nenhuma profunda apreensão da obra divina e sobrenatural de Deus, na qual somos apenas os seus instrumentos; nenhuma verdadeira entrada no caráter celestial, inteiramente de outro mundo, da nossa missão e dos nossos alvos; nenhuma plena entrega ao próprio Cristo Jesus e nenhum deleite nele.
Se cedêssemos ao Espírito de Deus para que nos mostrasse que tudo isto é, na mais pura verdade, o significado da negligência na oração e de deixarmos que outras coisas a expulsem, todas as nossas desculpas cairiam por terra, e nos prostraríamos e clamaríamos: “Pecamos! pecamos!” Samuel disse certa vez: “Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós.” Cessar de orar é pecado contra Deus. Que Deus nos descubra isto. (Nota A.)
5. Quando Deus descobre o pecado, este precisa ser confessado e lançado fora.—Quando sobreveio a derrota em Ai, Josué e Israel ignoravam a causa. Deus tratou com Israel como nação, como um só corpo, e o pecado de um membro foi visitado sobre todos. Israel como um todo ignorava o pecado e, contudo, sofria por ele. A Igreja pode ignorar a gravidade deste pecado de restringir a oração, ministros ou crentes individuais podem nunca o ter encarado como transgressão real, nem por isso deixa ele de trazer o seu castigo. Mas quando o pecado já não está oculto, quando o Espírito Santo começa a convencer dele, então vem o tempo do exame do coração. Na nossa história, a combinação de responsabilidade individual e coletiva é muito solene. A individual: como a encontramos na expressão “homem por homem”; cada homem se sentia sob o olhar de Deus, para ser tratado. E quando Acã foi tomado, teve de fazer confissão. A coletiva: como a vemos em todo o Israel primeiro sofrendo e sendo tratado por Deus, depois tomando Acã, e a sua família, e a coisa amaldiçoada, e destruindo-os do meio de si.
Se temos razão para pensar que este é o pecado que está no arraial, comecemos pela confissão pessoal e coletiva. E venhamos então diante de Deus para pôr de lado e destruir o pecado. Aqui se ergue, no próprio limiar da história de Israel em Canaã, o montão de pedras no vale de Acor, para nos dizer que Deus não pode suportar o pecado, que Deus não habitará com o pecado, e que, se realmente queremos a presença de Deus em poder, o pecado precisa ser posto de lado. Olhemos de frente para esse fato solene. Pode haver outros pecados, mas eis aqui certamente um que causa a perda da presença de Deus—não oramos como Cristo e a Escritura nos ensinam. Tragamo-lo diante de Deus e entreguemos este pecado à morte. Entreguemo-nos a Deus para obedecer à sua voz. Que nenhum temor de fracasso passado, que nenhuma ameaçadora hoste de tentações, deveres ou desculpas nos faça recuar. É uma simples questão de obediência. Vamos entregar-nos a Deus e ao seu Espírito para viver uma vida de oração que lhe seja agradável? Certamente, se é Deus quem tem retido a sua presença, quem tem descoberto o pecado, quem clama pela sua destruição e por um retorno à obediência, certamente podemos contar com a sua graça para nos aceitar e fortalecer para a vida que ele pede de nós. Não é uma questão do que você pode fazer; é a questão de se você agora, de todo o seu coração, se volta para dar a Deus o que lhe é devido, e se entrega para deixar que a sua vontade e a sua graça façam em você o seu caminho.
6. Lançado fora o pecado, a presença de Deus é restaurada.—Deste dia em diante não há em Josué uma só palavra de derrota em batalha. A história os mostra indo de vitória em vitória. Assegurada a presença de Deus, dá-se o poder de vencer todo inimigo.
Esta verdade é tão simples que a própria facilidade com que a admitimos rouba-lhe o poder. Detenhamo-nos e pensemos no que ela implica. A presença de Deus restaurada significa a vitória assegurada. Então, somos responsáveis pela derrota. Então, tem de haver, em algum lugar, um pecado a causá-la. Então, devemos de imediato descobrir e pôr de lado o pecado. Podemos confiadamente esperar a presença de Deus no momento em que o pecado for posto de lado. Certamente cada um está sob a solene obrigação de examinar a sua vida e ver que parte pode ter neste mal.
Deus nunca fala do pecado ao seu povo senão com vistas a salvá-lo dele. A mesma luz que mostra o pecado mostrará a saída dele. O mesmo poder que abate e condena, se humildemente lhe cedermos e nele esperarmos em confissão e fé, dará o poder de erguer-se e vencer. É Deus quem está falando à sua Igreja e a nós acerca deste pecado: “Maravilhou-se de que não houvesse intercessor.” “Maravilhei-me de que não houvesse quem me sustivesse.” “Busquei entre eles um homem que se pusesse na brecha perante mim, mas a nenhum achei.” O Deus que assim fala é aquele que operará a mudança para os seus filhos que buscam a sua face. Ele fará do vale de Acor, de aflição e vergonha, de pecado confessado e lançado fora, uma porta de esperança. Não temamos, não nos apeguemos às desculpas e explicações que as circunstâncias sugerem, mas simplesmente confessemos: “Pecamos; estamos pecando; não ousamos mais pecar.” Nesta questão da oração, estamos certos de que Deus não exige de nós impossibilidades. Ele não nos fatiga com um ideal impraticável. Ele não nos pede que oremos mais do que aquilo que a sua graça nos capacita a orar. Ele dará a graça para fazer o que pede, e para orar de tal modo que as nossas intercessões sejam, dia após dia, um prazer para ele e para nós, uma fonte de força para a nossa consciência e para a nossa obra, e um canal de bênção para aqueles por quem trabalhamos.
Deus tratou pessoalmente com Josué, com Israel, com Acã. Que cada um de nós lhe permita tratar pessoalmente conosco a respeito deste pecado, o de restringir a oração, e das suas consequências na nossa vida e na nossa obra; a respeito da libertação do pecado, da sua certeza e bem-aventurança. Apenas incline-se em quietude e espere diante de Deus, até que, como Deus, ele o cubra com a sua presença e o conduza para fora daquela região de argumentação sobre possibilidades humanas, onde a convicção do pecado nunca pode ser profunda e a plena libertação nunca pode vir. Tome tempo tranquilo e aquiete-se diante de Deus, para que ele tome este assunto em mãos. “Sossega, porque ele não descansará até que conclua hoje este negócio.” Deixe-se nas mãos de Deus.