Capítulo 4 · 11 min de leitura
O Ministério do Espírito e a Oração
“Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o vosso Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?”—Lucas 11:13.
Cristo acabara de dizer (v. 9): “Pedi, e dar-se-vos-á”: o dar de Deus está inseparavelmente ligado ao nosso pedir. Ele aplica isto especialmente ao Espírito Santo. Tão certamente como um pai na terra dá pão ao seu filho, assim Deus dá o Espírito Santo àqueles que lho pedem. Todo o ministério do Espírito é regido por uma só grande lei: Deus há de dar, nós havemos de pedir. Quando o Espírito Santo foi derramado no Pentecostes, com um fluxo que jamais cessa, foi em resposta à oração. A entrada dele no coração do crente, e a sua saída nos rios de água viva, sempre dependem da lei: “Pedi, e dar-se-vos-á.” Em conexão com a nossa confissão da falta de oração, dissemos que o que precisamos é de alguma justa compreensão do lugar que ela ocupa no plano de redenção de Deus; e talvez em parte alguma o veremos mais claramente do que na primeira metade dos Atos dos Apóstolos. A história do nascimento da Igreja no derramamento do Espírito Santo, e do primeiro frescor da sua vida celestial no poder daquele Espírito, nos ensinará como a oração na terra, seja como causa, seja como efeito, é a verdadeira medida da presença do Espírito do céu.
Começamos com as bem conhecidas palavras (i. 13): “Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplica.” E logo se segue: “E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos unânimes no mesmo lugar. E todos foram cheios do Espírito Santo. E, naquele mesmo dia, agregaram-se quase três mil almas.” A grande obra da redenção fora consumada. O Espírito Santo fora prometido por Cristo “não muitos dias depois”. Ele se assentara no seu trono e recebera o Espírito do Pai. Mas tudo isto não bastava. Uma coisa mais era necessária: a súplica unânime e contínua dos discípulos, por dez dias. Foi a oração intensa e perseverante que preparou o coração dos discípulos, que abriu as janelas do céu, que fez descer o dom prometido. Assim como o poder do Espírito não podia ser dado sem que Cristo se assentasse no trono, tampouco poderia ele descer sem os discípulos ao estrado do trono. Para todas as eras a lei está aqui estabelecida, no nascimento da Igreja: que, seja o que for que mais se ache na terra, o poder do Espírito há de ser trazido do céu pela oração. A medida da oração crente e perseverante será a medida da obra do Espírito na Igreja. Oração direta, definida, resoluta — eis do que precisamos.
Veja como isto se confirma no capítulo iv. Pedro e João haviam sido levados perante o Conselho e ameaçados de castigo. Quando voltaram para os seus irmãos e relataram o que lhes fora dito, “unânimes levantaram a voz a Deus”, e oraram por ousadia para anunciar a palavra. “E, havendo eles orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo e anunciavam com ousadia a palavra de Deus. E era um só o coração e uma só a alma da multidão dos que criam. E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça.” É como se a história do Pentecostes se repetisse uma segunda vez, com a oração, o tremor da casa, o enchimento do Espírito, o anúncio da palavra de Deus com ousadia e poder, a abundante graça sobre todos, a manifestação de unidade e amor — para gravá-la indelevelmente no coração da Igreja: é a oração que está na raiz da vida espiritual e do poder da Igreja. A medida com que Deus dá o Espírito é o nosso pedir. Ele dá como um pai a quem pede como filho.
Passe ao sexto capítulo. Ali achamos que, quando surgiram murmurações acerca do descuido para com as viúvas dos judeus gregos na distribuição das esmolas, os apóstolos propuseram a designação de diáconos para servir às mesas. “Nós”, disseram eles, “perseveraremos na oração e no ministério da palavra.” Muitas vezes se diz, e com razão, que não há nada nos negócios honestos — quando mantidos em seu lugar, inteiramente subordinados ao reino, que sempre deve vir em primeiro lugar — que precise impedir a comunhão com Deus. Menos ainda deveria uma obra como o servir aos pobres estorvar a vida espiritual. E, contudo, os apóstolos sentiram que ela os estorvaria em darem-se ao ministério da oração e da palavra. Que nos ensina isto? Que a manutenção do espírito de oração, tal como é compatível com as exigências de muito trabalho, não basta para os que são os guias da Igreja. Manter clara e viva a comunicação com o Rei no trono e com o mundo celestial; fazer descer o poder e a bênção daquele mundo, não só para a manutenção da nossa própria vida espiritual, mas para os que nos rodeiam; receber continuamente instrução e capacitação para a grande obra a ser feita — os apóstolos, como ministros da palavra, sentiram a necessidade de estarem livres de outros deveres, para se darem a muita oração. Tiago escreve: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações.” Se alguma vez alguma obra foi sagrada, foi a de cuidar dessas viúvas gregas. E, contudo, até tais deveres poderiam interferir na vocação especial de darem-se à oração e ao ministério da palavra. Como na terra, assim no reino dos céus, há poder na divisão do trabalho; e, enquanto alguns, como os diáconos, haviam de cuidar especialmente de servir às mesas e administrar as esmolas da Igreja aqui na terra, outros deviam ser postos em liberdade para aquela perseverança firme na oração que sem interrupção asseguraria o descer dos poderes do mundo celestial. O ministro de Cristo é separado para dar-se tanto à oração quanto ao ministério da palavra. Na fiel obediência a esta lei está o segredo do poder e do êxito da Igreja. Como antes, assim depois do Pentecostes, os apóstolos foram homens entregues à oração.
No capítulo viii temos a íntima conexão entre o dom pentecostal e a oração, de outro ponto de vista. Em Samaria, Filipe havia pregado com grande bênção, e muitos haviam crido. Mas o Espírito Santo ainda não descera sobre nenhum deles. Os apóstolos enviaram para lá Pedro e João, a fim de orarem por eles, para que recebessem o Espírito Santo. O poder para tal oração era um dom mais elevado do que o pregar — a obra dos homens que haviam estado no mais estreito contato com o Senhor na glória, a obra que era essencial à perfeição da vida que o pregar e o batismo, a fé e a conversão apenas haviam começado. Certamente, de todos os dons da Igreja primitiva pelos quais deveríamos ansiar, não há nenhum mais necessário do que o dom da oração — oração que faz descer o Espírito Santo sobre os crentes. Este poder é dado aos homens que dizem: “Nós perseveraremos na oração.”
No derramamento do Espírito Santo, na casa de Cornélio, em Cesareia, temos outro testemunho da maravilhosa interdependência entre a ação da oração e a do Espírito, e outra prova do que sobrevirá a um homem que se entregou à oração. Pedro subiu ao meio-dia para orar no eirado. E o que aconteceu? Ele viu o céu aberto, e veio-lhe a visão que lhe revelou a purificação dos gentios; com isso chegou a mensagem dos três homens da parte de Cornélio, um homem que “orava continuamente” e ouvira de um anjo: “As tuas orações subiram diante de Deus”; e então se ouviu a voz do Espírito, dizendo: “Vai com eles.” É Pedro orando a quem a vontade de Deus é revelada, a quem é dada direção quanto a ir a Cesareia, e que é posto em contato com um grupo de ouvintes que oravam e estavam preparados. Não admira que, em resposta a toda esta oração, venha uma bênção acima de toda expectativa, e o Espírito Santo seja derramado sobre os gentios. Um ministro que muito ora receberá uma entrada na vontade de Deus de que, de outro modo, nada saberia; será levado a pessoas que oram onde não as espera; receberá bênção acima de tudo o que pede ou pensa. O ensino e o poder do Espírito Santo estão, ambos, imutavelmente ligados à oração.
A nossa próxima referência nos mostrará a fé no poder que a oração da Igreja tem junto ao seu Rei glorificado, tal como se acha, não só nos apóstolos, mas na comunidade cristã. No capítulo xii temos a história de Pedro na prisão, na véspera da execução. A morte de Tiago havia despertado a Igreja para o sentimento de um perigo real, e o pensamento de perder também Pedro despertou todas as suas energias. Ela se entregou à oração. “A igreja fazia incessante oração a Deus por ele.” Aquela oração muito pôde; Pedro foi libertado. Quando ele chegou à casa de Maria, achou “muitos reunidos e orando”. Muros de pedra e cadeias duplas, soldados e guardas, e a porta de ferro, tudo cedeu diante do poder do céu que a oração fez descer para o seu resgate. Todo o poder do Império Romano, representado por Herodes, foi impotente na presença do poder que a Igreja do Espírito Santo manejava na oração. Eles estavam em comunicação tão estreita e viva com o seu Senhor no céu; sabiam tão bem que as palavras “todo o poder me é dado” e “eis que eu estou convosco todos os dias” eram absolutamente verdadeiras; tinham tamanha fé na sua promessa de os ouvir em tudo quanto pedissem — que oravam na certeza de que os poderes do céu podiam operar na terra, e operariam a seu pedido e em seu favor. A Igreja pentecostal cria na oração, e a praticava.
Apenas mais uma ilustração do lugar e da bênção da oração entre homens cheios do Espírito Santo. No capítulo xiii temos os nomes de cinco homens em Antioquia que se haviam entregue especialmente a servir ao Senhor com oração e jejum. O seu darem-se à oração não foi em vão: enquanto serviam ao Senhor, o Espírito Santo os encontrou e lhes deu novo discernimento dos planos de Deus. Ele os chamou a serem cooperadores consigo mesmo; havia uma obra para a qual chamara Barnabé e Saulo; a parte e o privilégio deles seria separar estes homens com renovados jejum e oração, e deixá-los ir, “enviados pelo Espírito Santo”. Deus, no céu, não enviaria os seus servos escolhidos sem a cooperação da sua Igreja; os homens na terra haviam de ter uma real participação na obra de Deus. Foi a oração que os habilitou e preparou para isto; foi a homens que oravam que o Espírito Santo deu autoridade para fazer a sua obra e usar o seu nome. Foi à oração que o Espírito Santo foi dado. Ainda é a oração o único segredo da verdadeira expansão da Igreja, que é guiada do céu para achar e enviar homens chamados e capacitados por Deus. À oração o Espírito Santo mostrará os homens que escolheu; à oração que os separa sob a sua direção ele dará a honra de saber que são homens “enviados pelo Espírito Santo”. É a oração o elo entre o Rei no trono e a Igreja ao seu estrado — o elo humano que tem a sua força divina no poder do Espírito Santo, que vem em resposta a ela.
Ao olhar-se para trás, para estes capítulos da história da Igreja pentecostal, quão claras se destacam as duas grandes verdades: onde há muita oração haverá muito do Espírito; onde há muito do Espírito haverá oração sempre crescente. Tão clara é a conexão viva entre ambas, que, quando o Espírito é dado em resposta à oração, ele sempre desperta mais oração, para preparar a mais plena revelação e comunicação do seu poder e graça divinos. Se a oração foi assim o poder pelo qual a Igreja primitiva floresceu e triunfou, não é ela a única necessidade da Igreja dos nossos dias? Aprendamos o que se deveria ter por axiomas na nossa obra eclesiástica:—
O céu ainda está tão cheio de reservas de bênção espiritual como estava então. Deus ainda se compraz em dar o Espírito Santo àqueles que lho pedem. A nossa vida e a nossa obra ainda dependem tanto da comunicação direta do poder divino como dependiam nos tempos pentecostais. A oração ainda é o meio designado para fazer descer com poder estas bênçãos celestiais sobre nós mesmos e sobre os que nos rodeiam. Deus ainda busca homens e mulheres que, a par de toda a sua outra obra de ministração, especialmente se entreguem à oração perseverante.
E nós — você, meu leitor, e eu — podemos ter o privilégio de oferecer-nos a Deus para labutar em oração e fazer descer estas bênçãos sobre esta terra. Não haveremos de suplicar a Deus que torne toda esta verdade tão viva em nós que não descansemos até que ela se assenhoreie de nós, e o nosso coração inteiro esteja tão cheio dela que a prática da intercessão seja tida por nós como o nosso mais alto privilégio, e nela encontremos a segura e única medida de bênção sobre nós mesmos, sobre a Igreja e sobre o mundo?