Capítulo 14 · 12 min de leitura
O Meu Deus Me Ouvirá
“Por isso, o Senhor esperará para ter misericórdia de vós. Bem-aventurados todos os que nele esperam. Ele certamente se compadecerá de ti à voz do teu clamor; e, ouvindo-a, te responderá.”—Is. 30:18, 19.
“O Senhor ouvirá quando eu clamar a ele.”—Sl. 4:3.
“A ti clamei, porque tu me ouvirás, ó Deus!”—Sl. 17:6.
“Olharei para o Senhor; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá.”—Mq. 7:7.
O poder da oração repousa na fé de que Deus a ouve. Em mais de um sentido isso é verdade. É essa fé que dá ao homem coragem para orar. É essa fé que lhe dá poder para prevalecer com Deus. No momento em que tenho a certeza de que Deus ouve também a mim, sinto-me atraído a orar e a perseverar na oração. Sinto-me forte para reivindicar e receber pela fé a resposta que Deus dá. Uma das grandes razões da falta de oração é a ausência da viva e alegre certeza: “O meu Deus me ouvirá.” Se ao menos os servos de Deus tivessem uma visão do Deus vivo esperando para conceder o seu pedido e para outorgar todos os dons celestiais do Espírito de que necessitam, para si mesmos ou para aqueles a quem servem, como tudo seria posto de lado para dar tempo e lugar a este único poder que pode assegurar a bênção celestial—a oração da fé!
Quando um homem pode dizer, e diz, em fé viva: “O meu Deus me ouvirá!” certamente nada poderá afastá-lo da oração. Ele sabe que aquilo que não pode fazer nem realizar na terra pode ser, e será, feito por ele desde o céu. Que cada um de nós se incline em silêncio diante de Deus, e espere nele para que se revele como o Deus que ouve a oração. Na sua presença, os maravilhosos pensamentos que se reúnem em torno da verdade central se desdobrarão diante de nós.
1. “O meu Deus me ouvirá.”—Que bendita certeza!—Temos a palavra de Deus para isso em inúmeras promessas. Temos milhares de testemunhas do fato de que a acharam verdadeira. Temos tido experiência disso em nossas vidas. Tivemos o Filho de Deus vindo do céu com a mensagem de que, se pedirmos, o Pai dará. Tivemo-lo a ele mesmo orando na terra, e sendo ouvido. E o temos agora no céu, assentado à direita de Deus e intercedendo por nós. Deus ouve a oração—Deus se deleita em ouvir a oração. Ele permitiu que o seu povo fosse provado mil vezes, para que fosse constrangido a clamar a ele, e aprendesse a conhecê-lo como Aquele que Ouve a Oração.
Confessemos com vergonha quão pouco temos crido nesta maravilhosa verdade, no sentido de recebê-la em nosso coração, e permitir que ela possua e controle todo o nosso ser. Não basta aceitar uma verdade; o Deus vivo, de quem a verdade fala, deve à luz dela ser de tal modo revelado, que toda a nossa vida seja passada na sua presença, com uma consciência tão clara como a de uma criancinha para com o seu pai terreno—sei com certeza que o meu pai me ouve.
Amado filho de Deus! você sabe por experiência quão pouco lhe tem aproveitado uma apreensão intelectual da verdade. Suplique a Deus que se revele a você. Se você quer viver uma vida de oração diferente, incline-se cada vez, antes de orar, em silêncio, para adorar a este Deus; para esperar até que repouse sobre você algum reto senso da sua proximidade e prontidão em responder. Assim você começará a orar com as palavras: “O meu Deus me ouvirá!”
2. “O meu Deus me ouvirá.” Que graça admirável!—Pense em Deus na sua infinita majestade, na sua glória absolutamente incompreensível, na sua santidade inacessível, assentado num trono de graça, esperando para ser benigno, convidando-o, encorajando-o a orar com a sua promessa: “Clama a mim, e responder-te-ei.” Pense em você mesmo, no seu nada e desamparo como criatura; na sua miséria e transgressões como pecador; na sua fraqueza e indignidade como santo; e louve a glória daquela graça que lhe permite dizer com ousadia, acerca da sua oração por si mesmo e pelos outros: “O meu Deus me ouvirá.” Pense em como você não é deixado a si mesmo, e no que você pode realizar, neste maravilhoso intercâmbio com Deus. Deus uniu você a Cristo; nele e no seu Nome está a sua confiança; no trono ele ora com você e por você; no estrado do trono você ora com ele e nele. O seu valor, e o deleite do Pai em ouvi-lo, são a medida da sua confiança, a sua certeza de ser ouvido. Há mais. Pense no Espírito Santo, o Espírito do próprio Filho de Deus, enviado ao seu coração para clamar: Aba, Pai, e para ser em você um Espírito de Súplica, quando você não sabe o que orar como convém. Pense, em toda a sua insignificância e indignidade, em que você é tão aceito quanto o próprio Cristo. Pense, em toda a sua ignorância e fraqueza, no Espírito que intercede segundo Deus dentro de você, e clame: “Que graça admirável! Por meio de Cristo tenho acesso ao Pai, pelo Espírito. Eu posso, eu creio nisso: ‘O meu Deus me ouvirá.’”
3. “O meu Deus me ouvirá.”—Que mistério profundo!—Há dificuldades que por vezes não podem deixar de surgir e perturbar até mesmo o coração sincero. Há a questão da vontade soberana, sapientíssima e que tudo dispõe de Deus. Como podem os nossos desejos, tantas vezes tão tolos, e a nossa vontade, tantas vezes tão egoísta, sobrepujar ou mudar aquela vontade perfeita? Não seria melhor deixar tudo à sua disposição, ele que sabe o que é melhor, e ama dar-nos o melhor de tudo? Ou como pode a nossa oração mudar o que ele ordenou de antemão? Depois há a questão da necessidade da oração perseverante, e da longa espera pela resposta. Se Deus é Amor Infinito, e se deleita mais em dar do que nós em receber, onde está a necessidade da súplica e da luta, da insistência, e da longa demora de que falam a Escritura e a experiência? Decorrendo disso, há ainda outra questão—a da multidão de orações aparentemente vãs e sem resposta. Quantos têm suplicado por entes queridos, e eles morrem sem salvação. Quantos clamam durante anos por bênçãos espirituais, e nenhuma resposta vem. Pensar em tudo isso prova a nossa fé, e nos faz hesitar ao dizer: “O meu Deus me ouvirá.”
Amado! a oração, no seu poder com Deus, e a fidelidade dele à sua promessa de ouvi-la, é um profundo mistério espiritual. Às questões acima postas podem ser dadas respostas que removem parte da dificuldade. Mas, afinal, o primeiro e o último que se deve dizer é isto: tão pouco quanto podemos compreender a Deus, podemos compreender isto, um dos mais bem-aventurados dos seus atributos, que ele ouve a oração. É um mistério espiritual—nada menos que o mistério da Santíssima Trindade. Deus ouve porque oramos no seu Filho, porque o Espírito Santo ora em nós. Se cremos e reivindicamos a vida de Cristo como a nossa saúde, e a plenitude do Espírito como a nossa força, não hesitemos em crer também no poder da nossa oração. O Espírito Santo pode capacitar-nos a crer nisso e a nos alegrar nisso, mesmo onde nem toda questão ainda foi respondida. Ele fará isto, à medida que depositamos as nossas indagações no seio de Deus, confiamos na sua fidelidade, e nos entregamos humildemente a obedecer à sua ordem de orar sem cessar. Toda arte desvenda os seus segredos e a sua beleza somente ao homem que a pratica. À alma humilde que ora na obediência da fé, que pratica a oração e a intercessão com diligência, porque Deus o pede, o segredo do Senhor será revelado, e o pensamento do profundo mistério da oração, em vez de ser um problema cansativo, será uma fonte de alegria, de adoração e de fé, na qual o refrão incessante é sempre ouvido: “O meu Deus me ouvirá!”
4. “O meu Deus me ouvirá.” Que solene responsabilidade!—Quantas vezes nos queixamos de trevas, de fraqueza, de fracasso, como se não houvesse remédio para isso. E Deus prometeu, em resposta à nossa oração, suprir toda a nossa necessidade, e dar-nos a sua luz, a sua força e a sua paz. Quem dera compreendêssemos a responsabilidade de ter tal Deus, e tais promessas, com o pecado e a vergonha de não nos valermos delas ao máximo. Quão confiantes deveríamos estar de que a graça, que aceitamos e na qual confiamos para nos capacitar a orar como devemos, nos será dada.
Há mais. Este acesso a um Deus que ouve a oração destina-se especialmente a fazer de nós intercessores por nossos semelhantes. Assim como Cristo obteve o seu direito de intercessão prevalecente ao entregar-se a si mesmo em sacrifício a Deus pelos homens, e por meio dele recebe as bênçãos que dispensa, assim também, se verdadeiramente com Cristo nos entregamos a Deus pelos homens, partilhamos do seu direito de intercessão, e somos capazes de obter também para eles os poderes do mundo celestial. O poder da vida e da morte está em nossas mãos (1 João 5:16). Em resposta à oração o Espírito pode ser derramado, almas podem ser convertidas, crentes podem ser confirmados. Na oração o reino das trevas pode ser vencido, almas trazidas para fora da prisão à liberdade de Cristo, e a glória de Deus revelada. Por meio da oração, a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, pode ser manejada com poder, e, tanto na pregação pública como na conversa particular, os mais rebeldes levados a se prostrar aos pés de Jesus.
Que responsabilidade recai sobre a Igreja de entregar-se à obra da intercessão! Que responsabilidade recai sobre cada ministro, missionário, obreiro, separado para a salvação de almas, de entregar-se inteiramente a viver e provar a sua fé: “O meu Deus me ouvirá!” E que chamado recai sobre cada crente, em vez de enterrar e perder este talento, de procurar ao máximo usá-lo em oração e súplica por todos os santos e por todos os homens. O meu Deus me ouvirá: quanto mais profunda a nossa entrada na verdade deste maravilhoso poder que Deus deu aos homens, tanto mais de todo o coração será a nossa entrega à obra da intercessão.
5. “O meu Deus me ouvirá.” Que bendita perspectiva!—Eu a vejo—todos os fracassos da minha vida passada se deveram à falta desta fé. O meu fracasso, especialmente na obra da intercessão, teve a sua raiz mais profunda nisto—não vivi na plena fé da bendita certeza: “O meu Deus me ouvirá!” Louvado seja Deus! Começo a vê-lo—creio nisso. Tudo pode ser diferente. Ou, antes, eu o vejo, eu creio nele. “O meu Deus me ouvirá!” Sim, a mim, até a mim! Comum e insignificante como eu seja, ocupando apenas um lugar bem pequeno, de modo que dificilmente darão pela minha falta quando eu partir—até eu tenho acesso a este Deus Infinito, com a confiança de que ele me ouve. Unido a Cristo, guiado pelo Espírito Santo, ouso dizer: “Orarei pelos outros, pois tenho certeza de que o meu Deus me escutará: ‘O meu Deus me ouvirá.’” Que bendita perspectiva diante de mim—toda ansiedade terrena e espiritual trocada pela paz de Deus, que de tudo cuida e ouve a oração. Que bendita perspectiva na minha obra—saber que, mesmo quando a resposta muito se demora, e há um chamado a muita oração paciente e perseverante, a verdade permanece infalivelmente certa—“O meu Deus me ouvirá!”
E que bendita perspectiva para a Igreja de Cristo se todos nós pudéssemos ao menos dar à oração o seu lugar, dar à fé em Deus o seu lugar, ou, antes, dar ao Deus que ouve a oração o seu lugar! Não é esta a única grande coisa pela qual aqueles que, em alguma pequena medida, começam a ver a urgente necessidade da oração, deveriam em primeiro lugar orar. Quando Deus, no princípio, vez após vez, derramou o Espírito sobre o seu povo que orava, ele estabeleceu a lei para todos os tempos: tanto de oração, tanto do Espírito. Que cada um que pode dizer “O meu Deus me ouvirá” se una à fervorosa súplica de que, por toda a Igreja, essa verdade seja restaurada ao seu verdadeiro lugar, e a bendita perspectiva se realize: uma Igreja que ora, revestida do poder do Espírito Santo.
6. “O meu Deus me ouvirá.” Que necessidade de ensino Divino!—Necessitamos disto, tanto para nos capacitar a segurar esta palavra em fé viva, como para dela fazer pleno uso na intercessão. Já se disse, e não se pode dizer com demasiada frequência nem com demasiado fervor, que a única coisa necessária para a Igreja dos nossos dias é o poder do Espírito Santo. É justamente porque assim é, do lado Divino, que podemos igualmente dizer, com a mesma verdade, que, do lado humano, a única coisa necessária é mais oração, mais oração crente e perseverante. Ao falar da falta do poder do Espírito, e da condição para recebê-lo, alguém usou a expressão—o obstáculo não está na linha perpendicular, mas na horizontal. É de temer que esteja em ambas. Há muito a ser confessado e tirado de nós se o Espírito há de operar livremente. Mas é especialmente na linha perpendicular que está o obstáculo—o olhar para o alto, e a profunda dependência, e o forte clamor a Deus, e a eficaz oração da fé que prevalece—tudo isso lamentavelmente falta. E é justamente isto a única coisa necessária.
Não nos disporemos todos a aprender a lição que tornará possível a oração prevalecente—a lição de uma fé que sempre canta: “O meu Deus me ouvirá”? Por mais simples e elementar que seja, ela requer prática e paciência, requer tempo e ensino celestial, para ser aprendida corretamente. Sob a impressão de um pensamento luminoso, ou de uma experiência abençoada, pode parecer que conhecemos a lição perfeitamente. Mas sempre de novo tornará a surgir a necessidade de fazer desta a nossa primeira oração—que o Deus que ouve a oração nos ensine a crer nisso, e assim a orar corretamente. Se o desejamos, podemos contar com ele. Aquele que se deleita em ouvir a oração e em respondê-la, aquele que deu o seu Filho para que sempre orasse por nós e conosco, e o seu Espírito Santo para orar em nós, podemos ter a certeza de que não há oração que ele ouça mais seguramente do que esta: que ele de tal modo se revele como o Deus que ouve a oração, que todo o nosso ser responda: “O meu Deus me ouvirá.”