Capítulo 11 · 12 min de leitura
O Segredo da Oração Eficaz
“Tudo o que desejardes, quando orardes, crede que já o recebestes, e o tereis.”—Marcos 11:24.
Aqui temos um resumo do ensino de nosso Senhor Jesus sobre a oração. Nada nos ajudará tanto a convencer-nos do pecado da nossa negligência na oração, a descobrir as suas causas e a dar-nos ânimo para esperar plena libertação, como o estudo cuidadoso e, depois, a aceitação crente desse ensino. Quanto mais de coração entrarmos na mente do nosso bendito Senhor, e nos dispusermos simplesmente a pensar sobre a oração como Ele pensou, tanto mais certamente serão as suas palavras como sementes vivas. Elas crescerão e produzirão em nós o seu fruto — uma vida e uma prática que correspondem exatamente à verdade divina que contêm. Creiamos nisto: Cristo, a Palavra viva de Deus, dá nas suas palavras um poder divino e vivificante que traz o que elas dizem, que opera em nós o que Ele pede, que de fato nos capacita e habilita para tudo o que Ele exige. Aprenda a olhar para o seu ensino sobre a oração como uma promessa definida daquilo que Ele, pelo seu Espírito Santo que habita em você, vai operar no seu próprio ser e caráter.
Nosso Senhor nos dá as cinco marcas, ou elementos essenciais, da verdadeira oração. Deve haver, primeiro, o desejo do coração; depois, a expressão desse desejo na oração; com isso, a fé que leva a oração a Deus; nessa fé, a aceitação da resposta de Deus; então vem a experiência da bênção desejada. Talvez ajude a dar precisão ao nosso pensamento se cada um de nós tomar um pedido definido a respeito do qual desejaríamos aprender a orar com fé. Ou, talvez melhor ainda, poderíamos todos unir-nos e tomar a única coisa que tem ocupado a nossa atenção. Temos falado da falha na oração; por que não haveríamos de tomar como objeto de desejo e de súplica a “graça da súplica”, e dizer: quero pedir e receber pela fé o poder de orar exatamente como, e tanto quanto, o meu Deus espera de mim? Meditemos nas palavras de nosso Senhor, na confiança de que Ele nos ensinará a orar por esta bênção.
1. “Tudo o que desejardes.”—O desejo é o poder secreto que move todo o mundo dos homens vivos, e dirige o curso de cada um. E assim o desejo é a alma da oração, e a causa da oração insuficiente ou malsucedida encontra-se, em grande parte, na falta ou na fraqueza do desejo. Alguns podem duvidar disto: estão certos de que desejaram muito ardentemente o que pedem. Mas, se considerarem se o seu desejo foi de fato tão inteiro quanto Deus o quereria, quanto o valor celestial destas bênçãos exige, poderão chegar a ver que foi realmente a falta de desejo a causa do fracasso. O que é verdade acerca de Deus é verdade acerca de cada uma das suas bênçãos, e é tanto mais verdade quanto mais espiritual for a bênção: “Buscar-me-eis e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração” (Jeremias 29:13). De Judá, nos dias de Asa, está escrito: “Buscaram-no com todo o seu desejo” (2 Crônicas 15:15). Um cristão pode muitas vezes ter desejos muito ardentes de bênçãos espirituais. Mas, ao lado destes, há outros desejos na sua vida diária que ocupam grande lugar nos seus interesses e afeições. Os desejos espirituais não o absorvem por completo. Ele se admira de que a sua oração não seja ouvida. É simplesmente que Deus quer o coração inteiro. “O Senhor teu Deus é um só Senhor; amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração.” A lei é imutável: Deus se oferece, se entrega, aos que são de coração inteiro e que inteiramente se entregam a Ele. Ele sempre nos dá segundo o desejo do nosso coração. Mas não como nós o pensamos, e sim como Ele o vê. Se houver outros desejos que estejam mais à vontade em nós, que tenham o nosso coração mais do que Ele mesmo e a sua presença, Ele permite que estes se cumpram, e os desejos que nos ocupam na hora da oração não podem ser concedidos.
Desejamos o dom da intercessão, graça e poder para orar corretamente. Os nossos corações precisam ser afastados de outros desejos: devemos entregar-nos inteiramente a este. Devemos estar dispostos a viver inteiramente na intercessão pelo reino. Fixando os olhos na bem-aventurança e na necessidade desta graça, pensando na certeza de que Deus no-la dará, entregando-nos a ela pelo bem do mundo que perece, o desejo pode ser fortalecido, e o primeiro passo dado rumo à posse da bênção cobiçada. Busquemos a graça da oração, assim como buscamos o Deus a quem ela nos ligará, “de todo o nosso desejo”; podemos confiar na promessa: “Ele cumprirá o desejo dos que o temem.” Não temamos dizer-lhe: “Desejo-o de todo o meu coração.”
2. “Tudo o que desejardes quando orardes.”—O desejo do coração precisa tornar-se a expressão dos lábios. Nosso Senhor Jesus, mais de uma vez, perguntou aos que a Ele clamavam por misericórdia: “Que queres?” Ele queria que dissessem o que desejavam. Expressá-lo despertava todo o seu ser à ação, punha-os em contato com Ele e avivava a sua expectativa. Orar é entrar na presença de Deus, reclamar e assegurar a sua atenção, tratar distintamente com Ele acerca de algum pedido, confiar a nossa necessidade à sua fidelidade e ali deixá-la: é fazendo assim que nos tornamos plenamente conscientes do que estamos buscando.
Há alguns que muitas vezes trazem fortes desejos no coração, sem os apresentar a Deus na expressão clara de uma oração definida e repetida. Há outros que recorrem à Palavra e às suas promessas para fortalecer a fé, mas não dão lugar suficiente àquele pedir direto a Deus que ajuda a alma a ter a certeza de que o assunto foi posto nas mãos de Deus. Há ainda outros que vêm em oração com tantos pedidos e desejos, que lhes é difícil dizer o que realmente esperam que Deus faça. Se você quiser obter de Deus este grande dom da fidelidade na oração e do poder de orar corretamente, comece por exercitar-se em oração a respeito disso. Diga a si mesmo e a Deus: “Eis aqui algo que pedi, e continuo a pedir até receber. Tão clara e diretamente quanto as palavras o possam exprimir, estou dizendo: ‘Meu Pai! Eu desejo, eu te peço e espero de ti a graça da oração e da intercessão.’”
3. “Tudo o que desejardes, quando orardes, crede.”—Assim como é somente pela fé que podemos conhecer a Deus, ou receber a Jesus Cristo, ou viver a vida cristã, também a fé é a vida e o poder da oração. Se havemos de entrar numa vida de intercessão, na qual haja alegria, poder e bênção, se havemos de ter respondida a nossa oração pela graça da oração, precisamos aprender de novo o que é a fé, e começar a viver e a orar em fé como nunca antes.
A fé é o oposto da vista, e as duas são contrárias uma à outra. “Andamos por fé, e não por vista.” Se o invisível há de tomar plena posse de nós, e o coração, a vida e a oração hão de estar cheios de fé, é preciso haver um afastamento do visível, uma renúncia a ele. O espírito que procura desfrutar o mais possível daquilo que é inocente ou lícito, que dá o primeiro lugar aos apelos e deveres da vida diária, é incompatível com uma fé forte e com um trato íntimo com o mundo espiritual. “Não atentamos nas coisas que se veem”—o lado negativo precisa ser enfatizado, para que o positivo, “mas nas que se não veem”, se torne natural para nós. Ao orar, a fé depende de vivermos no mundo invisível.
Esta fé tem que ver, de modo especial, com Deus. A grande razão da nossa falta de fé é a nossa falta de conhecimento de Deus e de trato com Ele. “Tende fé em Deus”, disse Jesus quando falou de remover montes. É à medida que a alma conhece a Deus, se ocupa do seu poder, do seu amor e da sua fidelidade, sai de si mesma e do mundo, e deixa a luz de Deus resplandecer sobre si, que a incredulidade se tornará impossível. Todos os mistérios e dificuldades ligados às respostas à oração, por pouco que os possamos resolver intelectualmente, serão absorvidos na adorante certeza: “Este Deus é o nosso Deus. Ele nos abençoará. Ele de fato responde à oração. E a graça de orar que estou pedindo Ele terá prazer em conceder.” (Nota C.)
4. “Tudo o que desejardes, quando orardes, crede que já o recebestes,” agora, enquanto você ora.—A fé tem de aceitar a resposta, como dada por Deus no céu, antes de a encontrar ou sentir na terra. Este ponto causa dificuldade e, contudo, é da própria essência da oração crente, o seu verdadeiro segredo. Procure compreendê-lo. As coisas espirituais só podem ser espiritualmente entendidas ou apropriadas. A bênção espiritual e celestial da resposta de Deus à sua oração precisa ser espiritualmente reconhecida e aceita antes que você sinta algo dela. É a fé que faz isso. A alma que não somente busca uma resposta, mas busca primeiro o Deus que dá a resposta, recebe o poder de saber que tem aquilo que lhe pediu. Se sabe que pediu segundo a sua vontade e as suas promessas, e que veio até Ele e o encontrou para conceder-lho, então crê que já recebeu. “Sabemos que ele nos ouve.”
Não há nada tão perscrutador do coração como esta fé: “Crede que já o recebestes.” Ao nos esforçarmos por crer, e verificarmos que não podemos, isso nos leva a descobrir o que há que nos estorva. Bem-aventurado o homem que nada retém, e nada deixa retê-lo, mas, com os olhos e o coração unicamente em Deus, recusa descansar até haver crido o que o nosso Senhor lhe ordena: “que já recebeu.” Aqui é o lugar onde Jacó se torna Israel, e o poder da oração que prevalece nasce da fraqueza e do desespero humanos. Aqui entra a real necessidade da oração perseverante e sempre importuna, que não descansará, nem se irá, nem desistirá, até saber que é ouvida, e crer que já recebeu.
Você ora pedindo “o Espírito de graça e de súplicas”? Ao pedi-lo com forte desejo, e crer em Deus que ouve a oração, não tenha medo de prosseguir e crer que a sua vida pode de fato ser mudada, que o mundo, com a sua pressão de deveres, religiosos ou não, que estorvam a oração, pode ser vencido, e que Deus lhe dá o desejo do seu coração, graça para orar tanto em medida como em espírito, exatamente como o Pai quereria que o seu filho fizesse. “Creia que já recebeu.”
5. “Tudo o que desejardes, quando orardes, crede que já o recebestes, e o tereis.”—O receber de Deus pela fé, a aceitação crente da resposta com a perfeita e louvorosa certeza de que ela foi dada, não é necessariamente a experiência ou a posse subjetiva do dom que pedimos. Às vezes pode haver um intervalo considerável, ou até longo. Noutros casos, o suplicante crente pode entrar imediatamente no gozo real daquilo que recebeu. É especialmente no primeiro caso que temos necessidade de fé e de paciência: fé para nos alegrarmos na certeza da resposta concedida e recebida, e para começar a agir com base nessa resposta, ainda que nada se sinta; paciência para esperar, se por ora não houver prova sensível da sua presença. Podemos contar com isto: Vós o tereis, em real gozo.
Se aplicarmos isto à oração pelo poder da intercessão fiel, a graça de orar com fervor e perseverança pelas almas ao nosso redor, aprendamos a reter firmemente a certeza divina de que, tão certamente como cremos, recebemos, e que, portanto, a fé, à parte de toda falha, pode alegrar-se na certeza de uma oração respondida. Quanto mais louvarmos a Deus por ela, tanto mais depressa virá a experiência. Podemos começar imediatamente a orar pelos outros, na confiança de que nos será dada graça para orar com mais perseverança e mais fé do que antes. Se não encontrarmos nenhuma dilatação ou poder especial na oração, isso não deve estorvar-nos nem desanimar-nos. Aceitamos, à parte do sentimento, um dom divino e espiritual pela fé; nessa fé havemos de orar, em nada duvidando. O Espírito Santo pode, por um pouco de tempo, estar escondendo-se dentro de nós; podemos contar com Ele, ainda que seja com gemidos que não podem exprimir-se, para orar em nós; a seu tempo nos tornaremos conscientes da sua presença e do seu poder. Tão certo como há desejo, e oração, e fé, e a aceitação do dom pela fé, haverá também a manifestação e a experiência da bênção que buscávamos.
Amado irmão! você deseja verdadeiramente que Deus o capacite a orar de tal modo que a sua vida fique livre de contínua autocondenação, e que o poder do seu Espírito desça em resposta à sua petição? Venha e peça-o a Deus. Ajoelhe-se e ore por isso numa única frase definida. Depois de o fazer, permaneça de joelhos em fé, crendo em Deus que responde. Creia que você agora recebe o que orou: creia que já recebeu. Se lhe for difícil fazer isso, permaneça de joelhos, e diga que o faz na força da própria palavra de Deus. Se custar tempo, e luta, e dúvida—não tema; a seus pés, olhando para o seu rosto, a fé virá. “Creia que já recebeu”: por ordem dele, você ousa reclamar a resposta. Comece nessa fé, ainda que seja frágil, uma nova vida de oração, com este único pensamento como sua força: “Você pediu e recebeu graça em Cristo para prepará-lo, passo a passo, a ser fiel na oração e na intercessão. Quanto mais simplesmente você se apegar a isto, e esperar que o Espírito Santo o opere em você, tanto mais certa e plenamente se cumprirá em você a palavra: Vós o tereis. O próprio Deus que deu a resposta a operará em você.”