O Ministério da Intercessão ·Queres Ficar São?

Capítulo 10 · 13 min de leitura

Queres Ficar São?

“Disse-lhe Jesus: Queres ficar são? O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque. Disse-lhe Jesus: Levanta-te e anda. E logo aquele homem ficou são, e andava.”—João 5:6-9.

“Disse Pedro: Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda.... A fé que vem por ele deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde.”—Atos 3:6, 16.

“Disse Pedro: Enéias, Jesus Cristo te dá saúde; levanta-te. E logo se levantou.”—Atos 9:34.

A fraqueza na oração é a marca da doença. A impotência para andar é, no cristão, como na vida natural, uma prova terrível de algum mal no organismo que precisa de médico. A falta de força para andar com alegria pelo caminho novo e vivo que conduz ao Pai e ao trono da graça é especialmente dolorosa. Cristo é o grande Médico, que vem a todo Betesda onde se ajuntam os enfermos, e pronuncia a sua pergunta amorosa e perscrutadora: Queres ficar são? Para todos os que ainda se agarram à sua esperança no tanque, ou esperam que algum homem os ponha nele, que esperam, com o passar do tempo, ser de algum modo ajudados apenas por continuarem no uso dos meios ordinários da graça, a sua pergunta aponta para um caminho melhor. Ele lhes oferece cura por um poder que jamais compreenderam. E a todos os que estão dispostos a confessar, não só a sua própria impotência, mas também o seu fracasso em achar quem os ajude, a sua pergunta traz a esperança firme e certa de uma libertação próxima. Vimos que a nossa fraqueza na oração faz parte de uma vida ferida de impotência espiritual. Ouçamos o nosso Senhor enquanto se oferece para restaurar a nossa força espiritual, para nos capacitar a andar como homens sãos e fortes por todos os caminhos do Senhor, e assim estarmos aptos a ocupar devidamente o nosso lugar na grande obra da intercessão. À medida que virmos que saúde é essa que Ele oferece, como Ele a dá, e o que Ele pede de nós, estaremos preparados para dar uma resposta voluntária à sua pergunta.

A saúde que Jesus oferece.

Eu poderia mencionar muitas marcas da saúde espiritual. O nosso texto nos leva a tomar uma delas: o andar. Jesus disse ao enfermo: Levanta-te e anda, e com isso o restaurou ao seu lugar entre os homens, em plena saúde e vigor, capaz de tomar parte em toda a obra da vida. É um quadro maravilhosamente sugestivo da restauração da saúde espiritual. Para o são, andar é um prazer; para o enfermo, um fardo, quando não uma impossibilidade. Quantos cristãos há para os quais, como para o aleijado, o coxo, o manco e o impotente, o movimento e o progresso no caminho de Deus são de fato um esforço e um cansaço. Cristo vem dizer, e com a palavra dá o poder: Levanta-te e anda.

Pense apenas neste andar para o qual Ele nos restaura e nos capacita. É uma vida como a de Enoque e Noé, que “andaram com Deus.” Uma vida como a de Abraão, a quem Deus disse: “Anda diante de mim,” e que ele mesmo declarou: “O Senhor, diante de quem ando.” Uma vida da qual Davi canta: “Andarão na luz da tua face,” e Isaías profetiza: “Os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão.” Assim como Deus, o Criador, não se cansa nem se fatiga, também os que andam com Ele, esperando nele, nunca ficarão exaustos nem fracos. É uma vida a respeito da qual se pôde dizer dos últimos dos santos do Antigo Testamento, Zacarias e Isabel: “Eram ambos justos diante de Deus, andando irrepreensíveis em todos os mandamentos e preceitos do Senhor.” Este é o andar que Jesus veio tornar possível e verdadeiro ao seu povo, com poder maior do que nunca.

Ouça o que o Novo Testamento fala a respeito disso: “Que, assim como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida.” É o Ressuscitado que nos diz: Levanta-te e anda; Ele dá o poder da vida da ressurreição. É um andar em Cristo. “Assim como recebestes Cristo Jesus, o Senhor, assim também andai nele.” É um andar como Cristo. “Aquele que diz que permanece nele deve também andar como ele andou.” É um andar pelo Espírito e segundo o Espírito. “Andem pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne.” “Que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito.” É um andar digno de Deus e que lhe agrada. “Que andásseis de modo digno do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra.” “Rogo-vos que, assim como recebestes de nós de que maneira convém andar e agradar a Deus, como de fato andais, assim abundeis cada vez mais.” É um andar em amor celestial. “Andai em amor, como também Cristo vos amou.” É um “andar na luz, como ele está na luz.” É um andar de fé, com todo o seu poder vindo simplesmente de Deus, de Cristo e do Espírito Santo, para a alma que se afasta do mundo. “Andamos por fé, e não por vista.”

Quantos crentes há que consideram tal andar como algo impossível — tão impossível que não sentem ser pecado “andarem de outra maneira”; e assim não anseiam por este andar em novidade de vida. Tornaram-se de tal modo habituados à vida de impotência que a vida e o andar na força de Deus têm pouca atração. Mas há alguns com quem não é assim. Eles de fato se perguntam se estas palavras realmente querem dizer o que dizem, e se a vida maravilhosa de que cada uma delas fala é simplesmente um ideal inatingível, ou se é para ser realizada em carne e osso. Quanto mais as estudam, mais sentem que foram ditas para a vida diária. E, contudo, parecem elevadas demais. Ah, se eles cressem que Deus enviou o seu Filho Todo-Poderoso, e o seu Espírito Santo, justamente para nos trazer e nos capacitar para uma vida e um andar celestiais, além de tudo o que o homem ousaria pensar ou esperar.

Como Jesus nos torna sãos.

Quando um médico cura um paciente, ele age sobre ele de fora, e faz algo que, se possível, o torna para sempre independente da sua ajuda. Ele o restaura à perfeita saúde e o deixa. Com a obra do nosso Senhor Jesus, em ambos os aspectos é exatamente o oposto. Jesus não age de fora, mas de dentro, entrando ele mesmo, no poder do seu Espírito, na nossa própria vida. E, em vez de, como na cura corporal, ser tornado, se possível, independente de um médico para o futuro, o único propósito de Cristo ao curar é, como dissemos, exatamente o oposto. A sua única condição de êxito é trazer-nos a tal dependência dele que não possamos, um único momento sequer, passar sem ele. O próprio Cristo Jesus é a nossa vida, num sentido do qual muitos cristãos não têm a menor ideia. A prevalecente vida fraca e enfermiça se deve inteiramente à falta de compreensão da verdade divina de que, enquanto esperarmos que Cristo continuamente faça algo por nós desde o céu, em atos isolados de graça de tempos em tempos, e a cada vez confiarmos que Ele nos dê o que durará um pouco, não podemos ser restaurados à perfeita saúde. Mas, quando uma vez vemos que nada há de ser nosso por um só momento, e que tudo há de ser de Cristo momento a momento, e aprendemos a recebê-lo dele e a confiar nele para isso, a vida de Cristo se torna a saúde da nossa alma. A saúde nada mais é do que a vida em sua ação normal e imperturbada. Cristo nos dá saúde dando-se a si mesmo como a nossa vida; assim Ele se torna a nossa força para o nosso andar. As palavras de Isaías encontram o seu cumprimento no Novo Testamento: Os que esperam no Senhor andarão e não se fatigarão, porque Cristo é agora a força da sua vida.

É estranho como os crentes às vezes julgam esta vida de dependência um esforço grande demais, e uma perda da nossa liberdade pessoal. Admitem uma necessidade de dependência, de muita dependência, mas deixando espaço para a nossa própria vontade e energia. Não veem que mesmo uma dependência parcial nos torna devedores, e não nos deixa nada de que nos gloriar. Esquecem que a nossa relação com Deus, e a nossa cooperação com Ele, não é que Ele faça a maior parte e nós a menor, mas que Deus faz tudo e nós fazemos tudo — Deus tudo em nós, nós tudo por meio de Deus. Esta dependência de Deus assegura a nossa verdadeira independência; quando a nossa vontade não busca senão a vontade divina, alcançamos uma nobreza divina, a verdadeira independência de tudo o que é criado. Aquele que não viu isto há de permanecer um cristão enfermiço, deixando que o eu faça uma parte e Cristo outra. Aquele que aceita a vida de incessante dependência de Cristo, como vida, saúde e força, é tornado são. Como Deus, Cristo pode entrar e tornar-se a vida da sua criatura. Como o Glorificado que recebeu do Pai o Espírito Santo para o conceder, Ele pode renovar o coração da criatura pecadora e fazer dele a sua morada, e pela sua presença mantê-lo em plena saúde e força.

Ó todos vocês que de bom grado desejariam andar e agradar a Deus, e na sua vida de oração não ter o coração a condená-los, ouçam as palavras de Cristo: “Queres ficar são?” Ele pode dar saúde à alma. Ele pode dar uma vida que sabe orar, e saber que isso é agradável ao Pai. Se vocês quiserem ter isto, venham e ouçam como podem recebê-lo.

O que Cristo pede de nós.

A narrativa nos convida a observar três coisas muito especialmente. A pergunta de Cristo apela primeiro à vontade, e pede a expressão do seu consentimento. Ele então escuta a confissão que o homem faz da sua total impotência. Depois vem a pronta obediência à ordem de Cristo, que se levanta e anda.

1. Queres ficar são? Quanto à resposta do enfermo, não podia haver dúvida. Quem não estaria disposto a ver removida a sua doença? Mas, ai, na vida espiritual, que necessidade há de insistir na pergunta. Alguns não admitem que estão tão doentes. E alguns não creem que Cristo possa tornar são um homem. E alguns creem nisso para os outros, mas estão certos de que não é para eles. Na raiz de tudo está o medo da abnegação e do sacrifício que serão necessários. Não estão dispostos a abandonar inteiramente o andar segundo o curso deste mundo, a renunciar a toda vontade própria, a toda autoconfiança e a todo comprazimento próprio. O andar em Cristo e como Cristo é reto e árduo demais: não o querem, não querem ser tornados sãos. Meu irmão, se você está disposto, diga-o em voz alta: “Senhor! a qualquer preço, eu quero!” Do lado de Cristo o ato é de vontade: “Quero, sê limpo.” Do seu lado igualmente: “Seja-te feito como tu queres.” Se você quiser ser libertado da sua impotência — ah, não tema dizer: “Eu quero, eu quero!”

Depois vem o segundo passo. Cristo quer que olhemos para Ele como o nosso único Ajudador. “Não tenho ninguém que me ponha no tanque,” há de ser o nosso clamor. Aqui na terra não há socorro para mim. A fraqueza pode crescer em força no uso ordinário dos meios, se todos os órgãos e funções estiverem em bom estado. A doença precisa de medidas especiais. A sua alma está doente; a sua impotência para andar com alegria o andar cristão no caminho de Deus é sinal de doença; não tema confessá-lo, e admitir que não há esperança de restauração senão por um ato da misericórdia de Cristo que o cure. Abandone a ideia de sair, por crescimento, do seu estado enfermiço para um estado saudável, de crescer para fora do domínio da lei rumo a uma vida sob a graça. Há alguns dias ouvi um estudante defender a causa do Compromisso Voluntário. “O compromisso o chama,” disse ele, “a uma decisão. Não pense em tornar-se missionário por crescimento gradual: a menos que Deus o proíba, dê o passo; a decisão trará alegria e força, o deixará livre para crescer em tudo o que é necessário a um missionário, e será uma ajuda para outros.” Assim é também na vida cristã. A demora e a luta igualmente o estorvarão; confesse que não consegue levar-se a orar como desejaria, porque não pode dar a si mesmo a vida saudável e celestial que ama orar, e que sabe contar com o Espírito de Deus para orar em nós. Venha a Cristo para que Ele o cure. Ele pode num momento torná-lo são. Não no sentido de operar uma súbita mudança nos seus sentimentos, ou naquilo que você é em si mesmo, mas na realidade celestial de entrar, em resposta à sua entrega e fé, e assumir o encargo da sua vida interior, e enchê-la de si mesmo e do Espírito.

A terceira coisa que Cristo pede é esta: a entrega da fé. Quando Ele falou ao enfermo, a sua palavra de ordem tinha de ser obedecida. O homem creu que havia verdade e poder na palavra de Cristo; nessa fé, ele se levantou e andou. Pela fé, obedeceu. E o que Cristo disse a outros era para ele também — “Vai; a tua fé te salvou.” De nós também Cristo pede esta fé: que a sua palavra muda a nossa impotência em força, e nos capacita para aquele andar em novidade de vida para o qual fomos vivificados nele. Se não cremos nisto, se não tomamos ânimo e dizemos, com Paulo: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece,” não podemos obedecer. Mas, se ouvirmos a palavra que nos fala do andar que não só é possível, mas foi provado e visto nos santos de Deus desde a antiguidade, se fixarmos o olhar no poderoso, vivo e amoroso Cristo, que fala com poder: “Levanta-te e anda,” tomaremos ânimo e obedeceremos. Nós nos levantaremos e começaremos a andar nele e na sua força. Na fé, à parte de e acima de todo sentimento, aceitaremos e confiaremos num Cristo invisível como a nossa força, e prosseguiremos na força do Senhor Deus. Conheceremos a Cristo como a força da nossa vida. Conheceremos, e diremos, e provaremos que Jesus Cristo nos tornou sãos.

Pode isso realmente ser? Sim, pode. Ele o fez por muitos; Ele o fará por você. Cuidado para não formar concepções erradas do que deve acontecer. Quando o enfermo foi tornado são, ainda tinha tudo a aprender quanto ao uso da força recém-encontrada. Se quisesse cavar, ou construir, ou aprender um ofício, tinha de começar do princípio. Não espere ser de imediato um perito na oração, ou em qualquer parte da vida cristã. Não; mas espere e tenha confiança nesta única coisa: que, tendo você confiado a si mesmo a Cristo para ser a sua saúde e força, Ele o guiará e ensinará. Comece a orar num tranquilo reconhecimento da sua ignorância e fraqueza, mas na alegre certeza de que Ele operará em você o de que necessita. Levante-se e ande cada dia numa santa confiança de que Ele está com você e em você. Apenas aceite Jesus Cristo, o Vivente, e confie que Ele fará a sua obra.

Você o fará? Já o fez? Ainda agora Jesus fala: “Levanta-te e anda.” “Amém, Senhor! à tua palavra eu venho. Levanto-me para andar contigo, e em ti, e como tu.”

UM APELO POR MAIS ORAÇÃO

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