Capítulo 26 · 11 min de leitura
Santidade e Irrepreensibilidade
‘Vós e Deus sois testemunhas de quão santa, e justa, e irrepreensivelmente nos houvemos para convosco, os que credes.—O Senhor vos faça crescer e abundar em amor uns para com os outros e para com todos, para confirmar os vossos corações irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus com todos os seus santos.’—1 Tessalonicenses 2:10; 3:12,13.
‘Ele nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e sem mácula diante dele em amor.’—Efésios 1:4.
Há duas palavras gregas, de significado quase idêntico, empregadas com frequência ao lado da palavra santo, e após ela, para exprimir qual será o resultado e o efeito da santidade tal como se manifesta na vida visível. Uma delas se traduz por sem mácula, imaculado, e é a mesma que se usa a respeito de nosso Senhor e do seu sacrifício, o Cordeiro sem mácula (Hebreus 9:14; 1 Pedro 1:19). É então empregada acerca dos filhos de Deus juntamente com santo—santos e sem mácula (Efésios 1:4,5,27; Colossenses 1:22; Filipenses 2:15; Judas 24; 2 Pedro 3:14). A outra é sem culpa, irrepreensível (como em Lucas 1:6; Filipenses 2:15; 3:6), e também se encontra em conjunção com santo (1 Tessalonicenses 2:10; 3:13; 5:23). Em resposta à pergunta de se essa irrepreensibilidade se refere ao juízo que Deus faz dos santos ou ao dos homens, a Escritura claramente a relaciona com ambos. Em algumas passagens (Efésios 1:4; 5:27; Colossenses 1:22; 1 Tessalonicenses 3:15; 2 Pedro 3:14) as palavras ‘diante dele,’ ‘para si mesmo,’ ‘diante de nosso Deus e Pai,’ indicam que o primeiro pensamento é o da imaculação e da isenção de falta na presença de um Deus santo, que nos é apresentada como o seu propósito e o nosso privilégio. Em outras (tais como Filipenses 2:15; 1 Tessalonicenses 2:10), a irrepreensibilidade aos olhos dos homens ocupa o primeiro plano. Em cada caso a palavra pode ser considerada como abrangendo ambos os aspectos: sem mácula e sem culpa devem suportar a dupla prova do juízo de Deus e também do homem.
E qual é agora a lição especial que este entrelaçamento destas duas palavras na Escritura, e a explicação de santo pelo acréscimo de irrepreensível, tenciona ensinar-nos? Uma lição de profunda importância. Na busca da santidade, o crente, quanto mais claramente compreende que grande bênção espiritual ela é—encontrada somente na separação do mundo e na comunhão direta com Deus, possuída plenamente apenas por meio de uma verdadeira habitação divina—tanto mais pode correr o perigo de olhar exclusivamente para o lado divino da bênção, no seu aspecto celestial e sobrenatural. Pode esquecer-se de como o arrependimento e a obediência, sendo o caminho que conduz à santidade, devem abranger cada detalhe, ainda o mais ínfimo, da vida diária. Pode não entender como a fidelidade às direções do Espírito, na medida em que já o possuímos, a fidelidade ao seu mais tênue sussurro no tocante à conduta comum, é essencial a toda experiência mais plena do seu poder e da sua obra como o Espírito de santidade. Pode, acima de tudo, não ter aprendido como, não somente a obediência ao que sabe ser a vontade de Deus, mas uma docilidade muito terna e disposta para receber tudo o que o Espírito tem a mostrar-lhe das suas imperfeições e da perfeita vontade do Pai a seu respeito, é a única condição sob a qual a Santidade de Deus pode ser mais plenamente revelada a nós e em nós. E assim, enquanto está mais empenhado em tentar descobrir o segredo da verdadeira e plena santidade pelo lado divino, pode estar tolerando faltas que todos ao seu redor percebem, ou permanecendo—e isso não sem pecado, pois provém da falta de perfeita docilidade—ignorante das graças e belezas da santidade com que o Pai desejaria que ele ornasse a doutrina da santidade diante dos homens. Pode procurar viver de modo muito santo, e contudo dar pouca importância a uma vida perfeitamente irrepreensível.
Tem havido santos assim, santos mas duros, santos mas distantes, santos mas severos nos seus juízos sobre os outros; santos, mas—diziam os homens ao redor—sem amor e egoístas; o meio-pagão samaritano mais bondoso e abnegado do que o santo levita e sacerdote. Se isto é verdade, não é o ensino da Sagrada Escritura o que se deve culpar. Ao ligar santo e sem mácula (ou sem culpa) tão estreitamente, o Espírito Santo quis conduzir-nos a buscar a corporificação da santidade como poder espiritual na irrepreensibilidade da prática e da vida diária. Que todo crente que se alegra na declaração de Deus de que ele é santo em Cristo procure também aperfeiçoar a santidade, e não almeje nada menos do que ser ‘irrepreensível em santidade.’
Que essa irrepreensibilidade tem referência muito especial ao nosso trato com os nossos semelhantes, vemo-lo pela maneira como está ligada ao amor. Assim em Efésios 1:4, ‘para que fôssemos santos e sem mácula diante dele em amor.’ Mas especialmente naquela notável passagem: ‘O Senhor vos faça crescer e abundar em amor uns para com os outros, e para com todos, para confirmar os vossos corações irrepreensíveis em santidade.’ A santidade e a irrepreensibilidade, o positivo e oculto princípio de vida divino, e a externa e humana prática da vida—ambas hão de encontrar a sua força, pela qual seremos nelas firmados, no nosso amor abundante e sempre transbordante.
Santidade e amor—é de profunda importância que estas palavras estejam inseparavelmente ligadas em nossas mentes, como a sua realidade em nossas vidas. Vimos, no estudo da santidade de Deus, como o amor é o elemento em que ela habita e opera, atraindo a si e tornando semelhante a si tudo aquilo de que pode apoderar-se. Do fogo da santidade divina o amor é a bela chama, que se estende para comunicar-se e assimilar a si tudo o que pode alcançar. Nos filhos de Deus a verdadeira santidade é a mesma; o fogo divino arde para trazer à sua própria bem-aventurança tudo o que chega ao seu alcance. Quando Jesus se santificou a si mesmo para que fôssemos santificados na verdade, isso não foi senão o amor entregando-se à morte para que os pecadores participassem da sua santidade. O egoísmo e a santidade são irreconciliáveis. A ignorância pode pensar na santidade como uma bela veste com que adornar-se diante de Deus, enquanto por baixo há um orgulho egoísta que diz: ‘Eu sou mais santo do que tu,’ e bem contente de que o outro careça daquilo de que ele se gloria. A verdadeira santidade, ao contrário, é a expulsão e a morte do egoísmo, tomando posse do coração e da vida para serem os ministros daquele fogo de amor que se consome a si mesmo, para alcançar, purificar e salvar os outros. A santidade é amor. O amor abundante é o que Paulo pede como condição da santidade irrepreensível. É à medida que o Senhor nos faz crescer e abundar em amor, que Ele pode confirmar os nossos corações irrepreensíveis em santidade.
O Apóstolo fala de um amor duplo, ‘amor uns para com os outros, e para com todos.’ O amor aos irmãos foi o que o próprio Senhor prescreveu como a principal marca do discipulado. E o pediu ao Pai como a principal prova, dada ao mundo, da verdade da sua missão divina. É na santidade do amor, numa santidade amorosa, que a unidade do corpo será comprovada e promovida, e preparada para as mais plenas operações do Espírito Santo. Nas Epístolas aos Coríntios e aos Gálatas, a divisão e o distanciamento entre os crentes são apontados como a prova segura da vida do eu e da carne. Oh, se quisermos ser santos, comecemos por ser muito brandos, e pacientes, e indulgentes, e bondosos, e generosos no nosso trato com todos os filhos do Pai. Estudemos a imagem divina do amor que não busca os seus interesses, e oremos sem cessar para que o Senhor nos faça abundar em amor uns para com os outros. O mais santo será o mais humilde e o mais esquecido de si, o mais brando e o mais abnegado, o mais bondoso e o mais atencioso para com os outros por amor de Jesus. ‘Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhável misericórdia, de benignidade, de humildade, de mansidão, de longanimidade’ (Colossenses 3:12,13).
E depois o amor para com todos os homens. Um amor comprovado na conduta e no trato da vida diária. Um amor que não somente evita a ira e o mau gênio e os juízos ásperos, mas exibe a virtude mais positiva de uma dedicação ativa ao bem-estar e aos interesses de todos. Um amor caritativo que cuida tanto dos corpos como das almas. Um amor que não somente está pronto a socorrer quando é chamado, mas que verdadeiramente se entrega à abnegação e ao sacrifício próprio para buscar e aliviar as necessidades dos mais miseráveis e indignos. Um amor que de fato toma o amor de Cristo, que o trouxe do céu e o levou a escolher a cruz, como a única lei e medida da sua conduta, e faz tudo subordinar-se à bem-aventurança divina de dar, de fazer o bem, de abraçar e salvar os necessitados e perdidos. Assim, abundando em amor, seremos irrepreensíveis em santidade.
É em Cristo que somos santos; de Deus é que estamos em Cristo, o qual nos foi feito por Deus santificação: é nesta fé que Paulo ora para que o Senhor, o nosso Senhor Jesus, nos faça crescer e abundar em amor. O Pai é a fonte, Ele é o canal; o Espírito Santo é a corrente viva. E Ele é a nossa Vida, pelo Espírito. É pela fé nele, permanecendo nele e no seu amor, permitindo, em estreita união com ele, que o Espírito derrame o amor de Deus, que receberemos a resposta à nossa oração, e por Ele mesmo seremos firmados irrepreensíveis em santidade. Seja para nós uma oração de fé que se transforma em louvor: Bendito seja o Senhor, que nos fará crescer e abundar em amor, e nos firmará irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus com os seus santos.
Sede santos, porque eu sou santo.
Ó Deus e Pai clementíssimo! de novo te agradeço por aquela maravilhosa salvação, mediante a santificação do Espírito, que nos fez santos em Cristo. E te agradeço que o Espírito pode de tal modo tornar-nos participantes da vida de Cristo, que também nós possamos ser irrepreensíveis em santidade. E que é o próprio Senhor quem nos faz crescer e abundar em amor, para que os nossos corações sejam assim firmados; que o amor abundante e a santidade irrepreensível procedem ambos dele.
Bendito Senhor e Salvador! venho agora reivindicar e tomar como meu aquilo que és capaz de fazer por mim. Só em ti sou santo; em ti eu sou santo. Em ti há para mim o poder de abundar em amor. Ó tu, em quem habita a plenitude do amor de Deus, e em quem eu habito, ó Senhor, meu Senhor, faze-me abundar em amor. Em união contigo, na vida de fé em que tu vives em mim, isso pode ser e há de ser. Pelo ensino do teu Espírito Santo, guia-me em todas as pisadas do teu amor abnegado, para que também eu seja consumido em abençoar os outros.
E assim, Senhor! firma poderosamente o meu coração para ser irrepreensível em santidade. Que o eu pereça na tua presença. Que a tua Santidade, entregando-se para fazer santo o pecador, tome inteira posse, até que o meu coração e a minha vida sejam santificados por completo, e todo o meu espírito e alma e corpo sejam conservados irrepreensíveis até a tua vinda. Amém.
1. Oremos muito fervorosamente para que o nosso interesse no estudo da santidade não seja uma coisa do intelecto ou das emoções, mas da vontade e da vida, visto de todos os homens no andar e na conversação diária. ‘Abundando em amor,’ ‘irrepreensíveis em santidade,’ dará favor diante de Deus e do homem.
2. ‘Deus é amor;’ a Criação é o transbordar do amor. A Redenção é o sacrifício e o triunfo do amor. A santidade é o fogo do amor. A beleza da vida de Jesus é o amor. Tudo o que desfrutamos do que é divino, devemo-lo ao amor. A nossa santidade não é a de Deus, não é a de Cristo, se não amamos.
3. ‘O amor não busca os seus interesses.’ ‘O amor nunca falha.’ ‘O amor é o cumprimento da lei.’ ‘O maior destes é o amor.’ ‘O fim do mandamento é o amor.’ Amar a Deus e ao homem é ser santo. No trato da vida diária, a santidade pode ter os seus começos simples e doces e o seu exercício; assim, na sua mais alta consecução, a santidade é o amor aperfeiçoado.
4. A fé tem todo o seu valor do amor, do amor de Deus, de onde ela bebe e haure, e do amor a Deus e ao homem que dela flui. Sejamos fortes na fé, e então abundaremos em amor.
5. ‘O amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.’ Que seja esta a nossa confiança.