Capítulo 12 · 31 min de leitura
Dezembro
Dezembro 1
“Como ele é, assim somos nós neste mundo” (1 Jo 4:17).
Jesus entrará no coração rendido e se unirá a ele, comunicando-lhe a sua própria vida e o seu próprio ser, e tornando-se de novo, dia após dia, o suprimento das suas necessidades espirituais e o substituto da sua impotência.
A nossa parte é simplesmente entregarmo-nos plenamente, reconhecendo a nossa própria indignidade, e então tomar o próprio Jesus para viver em nós e ser, momento a momento, a nossa força, a nossa pureza e a nossa vitória.
Um com Ele na sua morte no madeiro, um como Ele ressurgiu dos mortos; da maldição estou tão livre como a minha gloriosa Cabeça. Um em seus méritos permaneço, um quando oro em seu nome, tudo o que o seu valor pode reclamar eu posso, com confiança, pleitear. Um no Trono ao seu lado, um na sua filiação divina, um como o Esposo e a Esposa, um como o Ramo e a Videira. Tudo o que Ele tem será meu, tudo o que Ele é eu serei; revestido da sua glória divina, serei como Ele é.Dezembro 2
“Atentando para que ninguém se prive da graça de Deus” (Hb 12:15).
O que devemos temer não é perder tudo, mas ficar aquém. Podemos não perder a nossa alma, mas podemos perder algo mais precioso que a vida — a sua plena aprovação, a sua escolha mais elevada, e a nossa coroa incorruptível e cravejada de estrelas. É o grau a mais que conta, e faz toda a diferença entre a água quente — sem força na caldeira — e o vapor — cheio de poder, levando a sua preciosa carga através do continente.
Quero, nesta minha breve vida, quanto se possa reunir de serviço verdadeiro a Deus e ao homem; ajuda-me a dar o meu melhor. Quero permanecer de pé quando Cristo aparecer e ouvir o meu nome confessado, contado entre os ocultos, os seus mais santos e melhores. Quero, entre a multidão dos vencedores, ter o meu nome confessado; e ouvir o meu Mestre dizer enfim: Bem está, deste o teu melhor. Dá-me, ó Senhor, a tua escolha mais elevada; deixa que outros tomem o restante: as boas coisas deles não têm encanto para mim, pois tenho o teu melhor.Dezembro 3
Os teus pensamentos são mui profundos (Sl 92:5).
Quando a um soldado romano o seu guia disse que, se ele insistisse em fazer certa jornada, provavelmente seria fatal, ele respondeu: “É necessário que eu vá; não é necessário que eu viva.” Isto era profundidade. Quando formos convictos assim, havemos de chegar a alguma coisa.
A natureza superficial vive dos seus impulsos, das suas impressões, das suas intuições, dos seus instintos, e em grande medida do que a rodeia. O caráter profundo olha para além de tudo isto e avança firmemente, singrando através de todas as tempestades e nuvens até ao claro sol que está sempre do outro lado, e esperando o depois que sempre traz a reversão da tristeza e da aparente derrota e fracasso.
Quando Deus nos tiver aprofundado, então poderá dar-nos as suas verdades mais profundas, os seus segredos mais recônditos e os seus encargos mais poderosos.
Senhor, conduze-me às profundezas da tua vida e salva-me de uma experiência superficial.
Avante, para campos mais vastos de santa visão; avante, para alturas mais sublimes de fé e amor; adiante, para o alto, apreendendo por inteiro tudo aquilo para o qual Ele te chama lá do céu.Dezembro 4
“De mim é achado o teu fruto” (Os 14:8).
Nada nos impede mais de avançar do que os sulcos e as correntes, e os rastos de rodas em que os nossos carros entram e depois seguem na linha estreita com monotonia imutável, correntes no rio da vida que nos arrastam na antiga direção até que a lei do hábito quase torna impossível o avanço. O verdadeiro remédio para isto é começar do nada; tomando Cristo de novo para ser o Alfa e o Ômega de uma experiência mais profunda, mais alta e divina, esperando até a sua concepção de pensamento, desejo e oração, e temendo que o nosso mais alto pensamento fique aquém do seu grande plano de sabedoria e amor.
Ó Consolador brando e terno, ó Pomba santa e celestial, entregamos o nosso coração em rendição, esperamos provar a tua plenitude. Ó vem como o fogo que sonda o coração, ó vem como a torrente que purifica do pecado; consome-nos com santo desejo e enche-nos com a plenitude de Deus. Unge-nos com alegria e cura; batiza-nos com poder do alto; ó vem com o encher e o selar, enquanto jazemos prostrados junto ao teu estrado.Dezembro 5
“Com um coração inteiro, para fazer Davi rei” (1 Cr 12:38).
“Qual é o propósito supremo da nossa vida? Todos eles eram de um só coração para fazer Davi rei.” É este o nosso propósito: preparar a Esposa, preparar o mundo, preparar o seu caminho? Ele reduz e ofusca todas as demais ambições, todos os demais cuidados? Ele enche e satisfaz toda capacidade, todo poder, todo desejo? Ele absorve cada momento, cada energia, cada recurso? Ele dá direção e tom a todo plano e obra da vida? Ele decide por nós a educação dos nossos filhos, o emprego dos nossos bens, as amizades e associações da vida, toda a atividade, o interesse e a perspectiva do nosso ser? Estamos nisto, espírito, alma e corpo, tudo o que somos, tudo o que fazemos, tudo o que esperamos — de um só coração para fazer Jesus Rei?
Saímos unidos, de coração e mão leais, para levar o seu estandarte real por sobre toda terra. De toda tribo e nação nos apressaremos a trazer a sua Esposa. E oh, com que alegre acolhimento faremos o nosso Jesus Rei!Dezembro 6
“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte” (1 Pe 5:6).
A oposição é essencial a um verdadeiro equilíbrio de forças. As forças centrípeta e centrífuga, agindo em oposição uma à outra, mantêm o nosso planeta na sua órbita. Uma impelindo e a outra repelindo, de tal modo agem e reagem que, em vez de se lançar pelo espaço num rumo de desolação e destruição, ele segue a sua órbita regular ao redor do seu centro solar.
Assim Deus dirige as nossas vidas. Não basta ter uma força que impele — precisamos igualmente de uma força que retém, e por isso Ele nos refreia pelas provas que nos ensaiam na vida, pela pressão da tentação e do sofrimento, pelas coisas que parecem estar contra nós, mas que na verdade abrem o nosso caminho e firmam os nossos passos. Demos-lhe graças por ambas; tomemos tanto os pesos como as asas, e assim, divinamente impelidos, prossigamos com fé e paciência na nossa alta e celestial vocação.
Senhor, ajuda-me a aprender, de tudo o que me vier hoje, a tua vontade mais elevada.
Senhor, ajuda-me hoje a submeter-me sob a tua bendita mão, para que faças em mim o teu caminho e a tua vontade.
Dezembro 7
“Fica conosco, porque já é tarde” (Lc 24:29).
Nas suas últimas mensagens aos discípulos, nos capítulos 14 e 15 de João, o Senhor Jesus ensina-nos claramente que a própria essência da mais alta santidade é: “Permanecei em mim, e eu em vós, porque sem mim nada podeis fazer.”
O próprio propósito do Espírito Santo que Ele prometeu era revelá-lo, para que “naquele dia conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós”; e o eco final da sua oração intercessória estava encerrado nestas três palavras pequenas, mas infinitas: “Eu neles.”
Será para mim ser purificado pelo seu poder da poluição do pecado? Será para mim ser guardado a cada hora pela sua habitação interior? Será para mim ser perfeitamente inteiro por meio da sua unção divina, reclamando, em corpo, espírito e alma, toda a sua plenitude como minha? Maravilhosa promessa, tão plena e tão livre; maravilhoso Salvador, oh, como pode ser — purificação, perdão e misericórdia para mim? Sim, é para mim, para mim!Dezembro 8
“Não há bálsamo em Gileade? Não há lá médico?” (Jr 8:22).
A cura divina é simplesmente a vida divina. É a soberania de Cristo sobre o corpo. É a vida de Cristo na estrutura do corpo. É a união dos nossos membros com o próprio corpo de Cristo e o fluir da vida de Cristo nos nossos membros vivos. É tão real como o seu corpo ressurreto e glorificado. É tão razoável como o fato de que Ele ressuscitou dos mortos e é hoje um homem vivo, com um corpo verdadeiro e uma alma racional, à direita de Deus. Esse Cristo vivo pertence-nos em todos os seus atributos e poderes. Somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos, e, se ao menos o crermos e recebermos, poderemos viver da própria vida do Filho de Deus.
Senhor, ajuda-me a conhecer o “Senhor para o corpo, e o corpo para o Senhor.”
Há cura na promessa, há cura no sangue, há força para toda a nossa fraqueza no ressurreto Filho de Deus. E o mais débil dos seus filhos pode compartilhar de toda a sua vida gloriosa; Ele tem bálsamo de cura em Gileade, Ele é ali o Grande Médico.Dezembro 9
“Faze-te ao mar alto” (Lc 5:4).
Uma das marcas peculiares do Espírito Santo na Igreja Apostólica era o espírito de ousadia. Uma das qualidades mais essenciais da fé que há de tentar grandes coisas para Deus e esperar grandes coisas de Deus é a santa audácia. Quando tratamos com um Ser sobrenatural e recebemos dele coisas humanamente impossíveis, é mais fácil tomar muito do que pouco; é mais fácil permanecer num lugar de confiança audaz do que num lugar de apego cauteloso e tímido à praia. Como marinheiros prudentes na vida de fé, façamo-nos ao mar alto, e descobriremos que tudo é possível a Deus, e tudo é possível ao que crê.
Tentemos hoje grandes coisas para Deus, tomemos a sua fé e creiamos por elas, e a sua força para realizá-las.
A misericórdia de Deus é um oceano divino, uma torrente sem limites e sem fundo; faze-te ao mar alto, corta a amarra da praia, e perde-te na plenitude de Deus. Oh, façamo-nos ao mar neste oceano tão largo, onde transbordam as torrentes da salvação; oh, percamo-nos na misericórdia de Deus, até conhecermos a profundeza da sua plenitude.Dezembro 10
“Conforme a medida da regra que Deus nos repartiu” (2 Co 10:13).
“Conforme a tua fé te seja feito” era a grande lei de cura e bênção de Cristo no seu ministério terreno. Era isto que Ele queria dizer quando afirmou: “Com a medida com que medirdes vos medirão também.” Estas medidas poderosas são limitadas pelas medidas que trazemos. Deus reparte-nos os seus tesouros celestiais nestes vasos gloriosos, mas cada um de nós deve trazer o seu copo, e conforme a medida dele seremos cheios.
Mas até a medida da nossa fé pode ser divina. Graças a Deus, o pequeno copo foi alargado pela graça de Jesus, até que do seu fundo desce um cano até o grande oceano, e, se essa ligação for mantida aberta, descobriremos que o nosso copo é tão vasto como o oceano e jamais poderá ser esvaziado até o fundo. Pois Ele nos disse: “Tende fé em Deus,” e por certo esta é uma medida ilimitável.
Reclamemos a poderosa promessa, acendamos as tochas apagadas; unamo-nos ao coro glorioso: Nada é demasiado difícil para Ele.Dezembro 11
“Não rogo pelo mundo, mas por eles” (Jo 17:9).
Quantas vezes dizemos que gostaríamos de conseguir algum espírito forte que orasse por nós, e nos sentimos tão amparados quando pensamos que eles nos levam na sua fé. Mas há Um cujas orações nunca deixam de ser cumpridas, e que está mais disposto a concedê-las do que qualquer amigo humano. A sua única ocupação à direita de Deus é interceder pelo seu povo, e nós simplesmente entramos na linha da sua própria designação, da sua própria promessa e provisão definidas, quando lançamos sobre Ele os nossos fardos e reclamamos a sua advocacia sem dúvida ou temor. “Tendo, pois, um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, cheguemos, portanto, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar socorro no tempo oportuno.”
Como um turíbulo de ouro a resplandecer, cheio de raros aromas ardentes, todo o meu coração flui para o alto, numa nuvem de incessante oração. Curvado sobre o altar celestial, Jesus está de pé, intercedendo; todas as nossas orações, subindo ao céu, alcançam o Pai por suas mãos.Dezembro 12
“Ficar na carne é mais necessário por amor de vós; e, tendo esta confiança, sei que ficarei” (Fp 1:24, 25).
Uma das coisas mais bem-aventuradas a respeito da cura divina é que a força que ela traz é força santa, e encontra o seu escoamento natural e afim em atos e exercícios santos.
A mera força natural busca a sua satisfação em prazeres e atividades naturais, mas a força de Cristo leva-nos a fazer o que Cristo faria, e a buscar a nossa ocupação afim no seu santo serviço.
A vida de Cristo num corpo humano salva-o de mil tentações à autoindulgência e ao pecado, e não só nos dá força para um serviço mais elevado, como também o desejo dele, e nele imprime um gosto e um vigor que lhe conferem poder redobrado.
Senhor, ajuda-nos hoje a reclamar a tua vida e depois a entregá-la em auxílio de outros.
Encontraste o ramo da cura? Transmite-o. Sentiste o selar do Espírito? Transmite-o. Foi para isto que a sua misericórdia te buscou e a toda a sua plenitude te trouxe; pelo precioso sangue que te comprou, transmite-o.Dezembro 13
“Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15:5).
Tão familiares são a videira e os ramos que não é necessário explicar; só que os ramos e a videira são um. A videira não diz: Eu sou o tronco central que se ergue e vós sois os pequenos ramos; mas: Eu sou o todo, e vós sois o todo. Ele nos considera participantes da sua natureza. “Sem mim nada podeis fazer.” O marido e a esposa, e muitas outras figuras, contribuem para este maravilhoso ensino de Cristo, que não tem paralelo nem precedente em nenhum outro ensino debaixo do sol: que Cristo é a vida do seu povo, e que estamos absolutamente ligados a Ele e dependentes dele. Todos os outros sistemas ensinam quanto o homem é e pode vir a ser. O cristianismo mostra como o homem deve perder tudo o que é, se quiser entrar em plena unidade com Cristo na sua vida.
Senhor, ajuda-me neste dia a permanecer em ti.
Oh! que lugar maravilhoso Jesus me deu! Salvo pela sua gloriosa graça, posso ser como Ele é.Dezembro 14
“Em lugar do espinheiro crescerá a faia, e em lugar da sarça crescerá a murta” (Is 55:13).
As dificuldades e os obstáculos são os desafios de Deus à fé. Quando os empecilhos nos confrontam no caminho do dever, devemos reconhecê-los como vasos para que a fé os encha com a plenitude e a toda-suficiência de Jesus; e, à medida que avançamos, confiando nele simples e plenamente, podemos ser provados, podemos ter de esperar e deixar que a paciência tenha a sua obra perfeita, mas por certo acharemos afinal a pedra removida, e o Senhor esperando para nos retribuir o dobro pelo nosso tempo de prova, e cumprir a promessa: “Em lugar do espinheiro crescerá a faia, e em lugar da sarça crescerá a murta; e isto será para o Senhor por nome, por sinal eterno, que nunca se apagará.”
Muitas vezes chega uma mensagem admirável, quando as minhas esperanças vão esmorecendo; posso ouvi-la através da treva, como um doce e distante hino. Nada é demasiado difícil para Jesus, ninguém pode obrar como Ele. Quando o meu caminho se fecha em trevas e os meus inimigos são ferozes e sombrios, ainda assim ela canta acima do conflito, como um alegre e vitorioso hino: Nada é demasiado difícil para Jesus, ninguém pode obrar como Ele.Dezembro 15
“Quando o meu coração desfalece, guia-me para a rocha que é mais alta do que eu” (Sl 61:2).
O fim do eu é o começo de Deus. “Quando o número de tijolos é dobrado, então vem Moisés.” É assim que o antigo hebreu o exprimia. “A extremidade do homem é a oportunidade de Deus.” É a expressão proverbial disto. “Quando o meu coração desfalece, guia-me para a rocha que é mais alta do que eu.” É assim que Davi o exprime. “Não temos força alguma contra esta grande multidão, nem sabemos o que havemos de fazer.” Sem força, sem luz — “porém os nossos olhos estão postos em ti,” foi essa a experiência de Josafá. “Os meus olhos desfalecem de olhar para o alto. Ó Senhor, ando oprimido; fica por meu fiador.”
“Quando eu tinha grandes aflições, sempre ia a Deus e era conduzida através delas de modo admirável; mas nas minhas pequenas provações eu costumava tentar resolvê-las sozinha, e muitas vezes fracassava do modo mais notório.” Assim a senhorita Havergal exprimiu a experiência de muitos cristãos. Deus nos quer “no fim das nossas forças,” e então mostrará a sua sabedoria, o seu amor e o seu poder. Quantas vezes pedimos a Deus que ajude, e logo começamos a somar as probabilidades humanas! As próprias bênçãos de Deus tornam-se um empecilho para nós, se desviarmos os olhos dele para elas.
Dezembro 16
“Restituir-vos-ei os anos que foram consumidos pelo gafanhoto, a locusta, o pulgão e a lagarta, o meu grande exército que enviei contra vós” (Jl 2:25).
Um amigo disse-me certa vez: “Tenho de colher o que semeei, pois Deus disse: ‘Tudo o que o homem semear, isso também ceifará.’ Então por que não aplicas isto no mundo espiritual, e não obrigas o pecador a pagar a pena dos seus pecados?”
Cristo levou esta pena, e o mesmo Cristo levou também as penas naturais, e livrou-nos da condenação em todos os sentidos. Os sofrimentos físicos vêm a nós, mas não sob a lei da retribuição, e sim apenas como disciplina divina. Toda pena foi cumprida por Cristo e toda lei satisfeita; e, na medida em que houvermos ressuscitado com Ele ao plano da vida espiritual e eterna, somos elevados acima do mero domínio da lei, e entramos nos plenos efeitos da sua completa satisfação de toda reivindicação contra nós. Assim é verdade que até a ruína que o pecado trouxe sobre a nossa vida física e temporal é removida pela sua grande expiação, e a promessa torna-se real para nós: “Restituir-vos-ei os anos que o gafanhoto comeu.”
Dezembro 17
“Não estejais inquietos por coisa alguma” (Fp 4:6).
Qual é o modo de depor o teu fardo? “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.”
“Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” Esse é o modo de tomar sobre si o fardo dele. Descobrirás que o fardo dele é sempre leve. O teu é muito pesado. Feliz o dia em que houveres trocado os fardos e deposto as tuas cargas aos seus benditos pés, para tomares o dele em seu lugar. Deus quer dar descanso aos seus obreiros, e é bondoso demais para pôr o seu fardo sobre corações que já estão curvados sob o próprio peso de cuidados.
Estás temendo, inquietando-te ou lamentando-te? Nunca poderás conhecer a perfeita paz de Deus. Reclinando todo o teu peso sobre o seu seio, todas as tuas dúvidas e cuidados ansiosos hão de cessar. Queres conhecer a paz que Deus tem dado? Queres achar a própria alegria do céu? Não estejas inquieto por coisa alguma, sê dado à oração em tudo, sê grato por qualquer coisa, e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará a tua mente e o teu coração.Dezembro 18
“A fé do Filho de Deus” (Gl 2:20).
A fé é estorvada, acima de tudo, por aquilo a que chamamos “a nossa fé,” e pelos esforços infrutíferos de forjar uma fé que não passa de um fingimento e de uma tentativa desesperada de confiar em Deus, a qual sempre ficará aquém das suas vastas e gloriosas promessas. A verdade é que a única fé que está à altura das estupendas promessas de Deus e das necessidades incomensuráveis da nossa vida é “a fé de Deus” mesmo, a própria confiança que Ele infundirá no coração que inteligentemente o espera como o seu poder para crer, assim como o seu poder para amar, obedecer ou realizar qualquer outro exercício da vida nova.
Bendito seja o seu nome! Ele não nos deu uma corrente que chega a um único elo do nosso pobre e impotente coração, ficando esse último elo fatal para toda a corrente. Não; o último elo, aquele que se prende do lado humano, é tão divino quanto o elo que ata a corrente da promessa nos céus. “Tende fé em Deus” é o seu grande mandamento. “Vivo na fé do Filho de Deus” é o testemunho vitorioso de quem o comprovou verdadeiro.
Senhor, ensina-me a ter a fé do Filho de Deus.
Dezembro 19
“Deus dá graça aos humildes” (Tg 4:6).
Uma das marcas do mais alto valor é uma profunda humildade. A natureza superficial, consciente da sua fraqueza e insuficiência, está sempre tentando anunciar-se e certificar-se de que é apreciada. A natureza forte, consciente da sua força, está disposta a esperar e a deixar que a sua obra se manifeste a seu tempo. De fato, as naturezas mais verdadeiras estão de tal modo livres de toda autoconsciência e autoconsideração que o seu objetivo não é ser apreciadas, compreendidas ou recompensadas, mas cumprir a sua verdadeira missão e realizar a verdadeira obra da vida.
Uma das expressões mais sugestivas usadas a respeito do Senhor Jesus é dada pelo evangelista João, no capítulo treze do seu Evangelho, onde lemos: “Jesus, sabendo que viera de Deus e a Deus voltava, levantou-se da ceia e começou a lavar os pés aos discípulos.” Foi porque conhecia a sua elevada dignidade e o seu elevado destino que Ele pôde inclinar-se ao lugar mais baixo, e esse lugar não pôde rebaixá-lo.
Que Deus nos dê a insígnia divina da dignidade celestial: uma cabeça inclinada, um espírito manso e humilde.
Dezembro 20
“Que eu seja ministro de Jesus Cristo entre os gentios, administrando o evangelho de Deus” (Rm 15:16).
Esta é uma concepção muito bela e prática da obra missionária. Há uma grande diferença em ser consagrado ao nosso Deus. Podemos ser consagrados à nossa obra e consagrados ao nosso Deus. Podemos ser consagrados e habilitados para fazer obra missionária, e fracassar por completo se Ele nos chamar a fazer algo diferente. Mas, quando somos consagrados a Ele, estaremos prontos para tudo o que Ele nos exigir, e tão bem qualificados para servi-lo junto ao leito de um irmão enfermo, ou mesmo nos deveres seculares do lar, como em pé no púlpito ou conduzindo uma alma a Cristo.
A concepção de Paulo é a de uma obra santa, ou um sacrifício especial, e diretamente para Cristo, e para Cristo somente; e ele se punha como se deve estar junto ao altar do incenso, levantando com mãos santas as nações gentias a Deus, e depondo toda a sua obra como incenso aromático diante do trono, contente somente com o que agradasse ao seu Mestre, e resistisse à prova do seu exame, e recebesse o selo da sua aprovação naquele glorioso dia.
Este é o espírito do verdadeiro serviço.
Dezembro 21
“Dá-nos cada dia o nosso pão cotidiano” (Lc 11:3).
É muito difícil viver uma vida inteira de uma só vez, ou mesmo um ano, mas é deliciosamente fácil viver um dia de cada vez. Dia a dia caía o maná; assim, dia a dia podemos viver do pão celestial, e viver a nossa vida para Ele. Fôlego a fôlego, momento a momento, passo a passo, permaneçamos nele, e, assim como cuidamos dos dias, Ele cuidará dos anos.
Deus deu duas preciosas promessas para os dias. “Como forem os teus dias, assim será a tua força” é a sua antiga aliança; e a tradução literal das palavras de despedida do nosso Mestre aos seus discípulos é: “Eis que estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos.”
Como a pequena aranha-d'água que desce sob as águas do lago envolta numa bolha de ar, e ali constrói o seu ninho e cria os seus filhotes, e vive a sua pequena vida naquela brilhante esfera lá no fundo do lago lodoso, assim, neste mundo tenebroso, encerremo-nos com Cristo no pequeno círculo de cada dia que retorna, e assim permaneçamos nele, respirando o ar do céu e vivendo no seu amor.
Dezembro 22
“A minha língua também falará da tua justiça todo o dia” (Sl 71:24).
É uma lei simples da natureza que o ar sempre entra para preencher um vácuo. Podes produzir uma corrente de ar a qualquer momento, aquecendo o ar até que ele suba, e então o ar frio se precipita para ocupar o seu lugar. E assim podemos sempre ser cheios do Espírito Santo, ao proporcionar um vácuo. Esta respiração depende de esgotar o fôlego anterior antes de poder inspirar um novo. E assim devemos esvaziar o nosso coração do último sopro do Espírito Santo que recebemos, pois ele se esgota no momento em que o recebemos, e precisamos de um novo suprimento, para evitar a asfixia espiritual.
Devemos aprender o segredo de expirar, tanto quanto o de inspirar. Ora, a inspiração continuará se a outra parte for bem feita. Uma das melhores maneiras de dar lugar ao Espírito Santo é reconhecer as necessidades que entram na vida como vácuos para que Ele os preencha; e acharemos ao nosso redor necessidades em abundância a serem preenchidas, e, à medida que derramamos as nossas vidas em santo serviço, Ele derramará a sua — em plena medida.
Jesus, esvazia-me e enche-me com a tua plenitude até à borda.Dezembro 23
“Dos despojos ganhos nas batalhas dedicaram para a manutenção da casa do Senhor” (1 Cr 26:27).
A força física está armazenada nas entranhas da terra, nas minas de carvão, que provieram do calor ardente que queimou grandes florestas em eras antigas. E assim a força espiritual está armazenada nas profundezas do nosso ser, por meio dos próprios sofrimentos que não conseguimos compreender. Um dia descobriremos que o livramento que ganhamos dessas provações nos preparava para nos tornarmos verdadeiros “Grandes Corações” no Peregrino da vida, e para conduzir triunfalmente os nossos companheiros de peregrinação, através da provação, até a cidade do Rei.
Mas jamais esqueçamos que a fonte para ajudar os outros deve ser o sofrimento vitorioso. A dor queixosa e murmuradora nunca faz bem a ninguém. Paulo não carregava consigo um cemitério, mas um coro de louvor vitorioso; e, quanto mais dura a provação, mais ele confiava e se alegrava, exclamando do próprio altar do sacrifício: “E, ainda que eu seja oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós.”
Senhor, ajuda-me neste dia a tirar força de tudo o que me sobrevém.
Dezembro 24
“E procuras tu grandes coisas para ti mesmo? Não as busques; porque eis que trago o mal sobre toda a carne, diz o Senhor; mas te darei a tua vida por despojo, em todos os lugares para onde fores” (Jr 45:5).
Uma promessa dada para os lugares difíceis, e uma promessa de segurança e vida em meio a uma tremenda pressão: uma vida por despojo.
Bem pode ela ajustar-se aos nossos próprios tempos, que se vão tornando mais duros à medida que nos aproximamos do fim da era, e dos tempos da tribulação.
Qual é o significado de “uma vida por despojo”? Significa uma vida arrancada das mandíbulas do destruidor, como Davi arrancou o cordeiro ao leão. Não significa um lugar de segurança, ou de afastamento do fragor da batalha e da presença dos nossos inimigos, mas significa uma mesa no meio dos nossos inimigos, um abrigo contra a tempestade, uma fortaleza em meio ao adversário, uma vida preservada em face da pressão contínua; a cura de Paulo quando oprimido além da medida, a ponto de perder a esperança até da vida; o socorro divino de Paulo quando o espinho permaneceu, mas o poder de Cristo repousou sobre ele e a graça de Cristo lhe bastou.
Senhor, dá-me a minha vida por despojo, e nos lugares mais difíceis ajuda-me hoje a ser vitorioso.
Dezembro 25
“Eis que vos trago boas novas” (Lc 2:10).
Um espírito de Natal deve ser um espírito de humanidade. Diante daquela bela lição objetiva da Manjedoura, do Berço e da humilde criancinha, que coração cristão poderá algum dia desejar ser soberbo? É um espírito de alegria. É justo que estas sejam boas novas, pois: “Eis que vos trago boas novas de grande alegria, que será para todo o povo.”
É um espírito de amor. Deve ser a alegria que vem de dar alegria a outros. O fato central do Natal é o Cristo que nos amou, e veio viver entre nós e morrer por nós; e não tem direito de partilhar das suas alegrias aquele ou aquela que vive somente para si mesmo.
O amor é sempre sacrificial, e assim o espírito do Natal nos chamará a uma alegre e plena entrega, primeiro a Deus, e depois ao alegre sacrifício daquilo a que chamamos nosso, para a sua glória e o bem dos outros.
O espírito do Natal é um espírito de adoração. Ele encontra os Magos a seus pés, com o seu ouro, incenso e mirra. Que ele também nos encontre ali.
O espírito do Natal é um espírito de missões. As suas boas novas são para todo o povo.
Dezembro 26
“O Espírito que em nós habita anseia até à inveja” (Tg 4:5).
Esta bela passagem foi infelizmente traduzida na nossa Versão Revisada: “O Espírito que em nós habita anseia até à inveja.” Deveria ser: “O Espírito que em nós habita nos ama até ao ciúme.” É a figura de um amor que sofre por causa da sua intensa afeição pelo objeto amado.
O Espírito Santo está tão ansioso por realizar em nós e por nós a mais alta vontade de Deus, e por receber de nós o mais verdadeiro amor a Cristo, o nosso Esposo divino, que Ele se torna zeloso quando de algum modo o desapontamos, ou dividimos com outros o amor que lhe é devido.
Por isso se diz na passagem anterior: “Adúlteros e adúlteras, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus?”
Oh, entristeceremos um Amigo tão bondoso? Desapontaremos um Esposo tão amoroso? Não corresponderemos ao bendito Espírito Santo com o amor que Ele nos traz, e não lhe daremos em retribuição a nossa afeição indivisa e ilimitada?
Houve algum dia um Esposo tão amoroso, buscando conquistar o nosso coração?
Dezembro 27
“Soltou a pomba, e esta não tornou mais a ele” (Gn 8:12).
Primeiro, temos a pomba saindo da arca e não achando repouso sobre o ermo revolto e à deriva do pecado e do juízo. Isto representa, talvez, o período do Antigo Testamento, quando o Espírito Santo visitou este mundo pecaminoso, mas não pôde achar lugar de repouso, e voltou ao seio de Deus.
Em seguida, temos a pomba saindo e regressando com a folha de oliveira no bico, símbolo e penhor de paz e reconciliação, o sinal de que o juízo havia passado e a paz estava voltando. Por certo isto pode representar belamente a etapa seguinte da manifestação do Espírito Santo, ao sair no ministério e na morte de Jesus Cristo, para proclamar a reconciliação a um mundo pecaminoso.
Há uma terceira etapa, quando, por fim, a pomba sai da arca e não torna mais; mas faz do mundo o seu lar, e constrói o seu ninho entre as habitações dos homens. Esta é a terceira e presente etapa da bendita obra do Espírito Santo. Acolhamos a Pomba num ninho dentro dos nossos corações.
Dezembro 28
“O Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem” (At 5:32).
Só podemos conhecer e comprovar a plenitude do Espírito quando avançamos para os propósitos e planos mais amplos de Cristo para o mundo.
Talvez a principal razão por que o Espírito Santo tem sido tão limitado na sua obra no coração dos cristãos seja a vergonhosa negligência, pela grande maioria dos que professam seguir a Cristo, para com o mundo não salvo e não evangelizado. Há milhões de cristãos professos — e, talvez, cristãos verdadeiros — no mundo, que nunca dedicaram um só pensamento real e fervoroso à evangelização do mundo pagão.
Deus não dará o Espírito Santo na sua plenitude para o gozo egoísta de nenhum cristão. O seu poder é um grande encargo, que devemos usar para o benefício dos outros e para a evangelização do mundo perdido e pecaminoso. Só quando o povo de Deus despertar para compreender o seu verdadeiro propósito para a salvação dos homens é que a Igreja conhecerá a plenitude do seu Pentecostes. O poder prometido de Deus há de estar na linha do dever, e, à medida que obedecemos ao mandamento, receberemos a sua promessa na sua plenitude.
Senhor, ajuda-me a compreender o teu plano.
Dezembro 29
“Não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus” (At 20:27).
É provável que Deus permita que todo ser humano que cruza o nosso caminho nos encontre, a fim de que tenhamos a oportunidade de deixar alguma bênção no seu caminho, e depositar no seu coração e na sua vida alguma influência que o aproxime de Deus. Bem-aventurado, deveras, seria se pudéssemos encontrar, enfim, toda alma imortal que algum dia tocamos no caminho da vida, e dizer com verdade: “Estou limpo do sangue de todos.”
Amados, é assim? O servo que trabalha em tua casa; o homem que se sentou ao teu lado no trem; o trabalhador que labutou por ti; e, acima de tudo, os membros da tua casa e da tua família, o teu companheiro de trabalho na loja ou na fábrica — fizeste o teu melhor para conduzi-los a Cristo?
Os primeiros cristãos consideravam cada situação como uma oportunidade de testemunhar de Cristo. Mesmo quando levados perante reis e governadores, nunca lhes ocorria que deveriam tentar livrar-se, mas a mensagem do Mestre a eles era: “Isso vos acontecerá para testemunho.” Era simplesmente uma ocasião de pregar a reis e governantes, que de outro modo não poderiam alcançar.
Dezembro 30
“Que o nosso Deus cumpra em vós todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder” (2 Ts 1:11).
O nosso Deus procura hoje homens que sirvam de modelo, e, quando obtém uma amostra verdadeira, é muito fácil reproduzi-la em mil edições, e multiplicá-la em outras vidas sem limitação.
Todas as experiências da vida vêm a nós como provas, e, à medida que as enfrentamos, o nosso amoroso Pai observa com amor intenso e zeloso, para nos ver vencer; e, se falhamos, Ele fica profundamente desapontado, e o nosso adversário se enche de alegria.
Somos continuamente um espetáculo para os anjos e os principados, e cada passo que damos é crítico e decisivo para algo no nosso futuro eterno.
Quando Abraão partiu naquela manhã para o monte Moriá, foi uma hora de solene provação, e, quando voltou, era um dos homens provados de Deus, com o selo da sua eterna aprovação. Deus pôde dizer: “Eu o conheço, que ele há de ordenar a seus filhos que guardem o juízo e a justiça, para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a seu respeito tem falado.”
Deus procura hoje homens assim. Senhor, ajuda-me a ser um deles.
Dezembro 31
“Não rogo que os tires do mundo, mas que os livres do mal” (Jo 17:15).
Ele nos quer aqui por um propósito mais elevado do que a mera existência. Esse propósito não é outro senão representá-lo ao mundo, ser os mensageiros do seu Evangelho e da sua vontade aos homens, e, por meio das nossas vidas, exibir-lhes a verdadeira vida, e ensinar-lhes como vivê-la eles mesmos.
Ele nos representa lá no alto, e a nossa única ocupação é representá-lo aqui. Somos tão verdadeiramente enviados a este mundo para representá-lo como se tivéssemos ido à China como embaixador do Governo americano.
Enquanto estamos envolvidos nos assuntos seculares da vida, é simplesmente para que o representemos ali, levemos avante os seus negócios, e tenhamos meios para empregar nos assuntos dele. Ele veio aqui de outro reino, e com uma mensagem especial, e, quando a sua obra estava concluída, foi chamado a voltar para a morada de seu Pai e para a sua própria.
Senhor, ajuda-me a representar-te dignamente.
E levar música no coração pela rua movimentada e pelo mercado em contenda; cumprindo a nossa tarefa diária com pés mais diligentes, porque as nossas almas repetem uma melodia celestial.Capítulo 12 concluído
Dezembro