Biografia de Julia A. J. Foote
1823–1900
Tradução por IA — aguardando revisão nativa
Nesta severa provação, eu tinha acesso constante a Deus e a clara consciência de que ele me ouvia.
Julia A. J. Foote nasceu em 21 de maio de 1823, em Schenectady, Nova York, quarta filha de pais que haviam conhecido a escravidão em primeira mão. Seu pai nasceu livre, mas foi raptado ainda criança e escravizado; sua mãe nasceu escrava no estado de Nova York e serviu a um senhor e a uma senhora cruéis antes de a família conquistar sua liberdade. Dessa dura herança veio uma menina de consciência ardente e mente ágil, mandada aos dez anos para trabalhar como criada numa família a algumas milhas de casa e faminta — muito antes de poder dar-lhe nome — por Deus.
Sua infância foi marcada pelas crueldades corriqueiras de um mundo erguido sobre a escravidão, mesmo onde a escravidão estava chegando ao fim. Foi açoitada, certa vez, por um furto que não cometera; um professor querido foi enforcado por um crime; e por toda parte ela sentia o peso de ser pobre, negra e menina. Ainda assim, também recordava misericórdias — uma família que a tratou, por um tempo, quase como se fosse sua, e, acima de tudo, uma crescente sensação de que Deus estava perto. Aprendeu a ler principalmente para poder ler o Testamento por si mesma, soletrando-lhe as palavras à luz do fogo.
Aos quinze anos, converteu-se. Aconteceu, segundo ela conta, num domingo à noite, numa reunião trimestral, num ímpeto de certeza que jamais pôs em dúvida depois. Mas a conversão apenas abriu uma fome mais profunda. Ela ouvira os metodistas falarem de uma segunda obra da graça — a inteira santificação, um coração tornado puro e inteiramente de Cristo — e não descansaria enquanto não a tivesse. Numa época em que muitos cristãos tratavam o novo nascimento como o fim da questão, Foote cria que o evangelho prometia mais: não só o perdão pelo que a pessoa fizera, mas a purificação daquilo que ela era.
A obra da plena salvação
Após seu casamento, por volta de 1836, com George Foote, um marinheiro, mudou-se para Boston, e foi ali que o anseio recebeu resposta. Entrou naquilo que chamou, por toda a vida, de "a obra da plena salvação" — a santificação como um dom distinto e definido do Espírito Santo — e, desde aquele dia, a santidade foi o peso do seu testemunho. Quando se levantava na reunião de classe para falar disso, alguns se apinhavam ao seu redor para perguntar como também poderiam encontrá-la; outros se afastavam em pequenos grupos desconfiados. Essa divisão a acompanharia pelo resto da vida. Pregar a santidade no seu tempo, e sendo uma mulher negra a fazê-lo, era sentir, em suas próprias palavras, que "a mão de todo homem está contra nós" — e responder a isso não com amargura, mas com comunhão.
Nesta severa provação, eu tinha acesso constante a Deus e a clara consciência de que ele me ouvia.
— Julia A. J. Foote
Um chamado que ela combateu e depois obedeceu
O chamado a pregar veio devagar e contra a vontade dela. Durante meses, viu-se levada à oração e à exortação de casa em casa, sua "alma inteira parecia arrebatada pela salvação das almas." Amigos advertiam que era atrevida demais. E, quando a convicção se aguçou num apelo, ela resistiu como Jonas resistira.
Quando começou a pregar, o ministro de sua própria congregação Metodista Episcopal Africana de Zion, em Boston, voltou-se contra ela. Ela pediu apenas para ser ouvida; ele recusou, levou o nome dela perante a igreja e a fez excluir. Foi julgada e expulsa da igreja que amava — excomungada pela dupla ofensa de pregar a santidade e de pregar como mulher. Apelou à conferência de ministros, confiando que um corpo de homens cristãos julgaria com retidão, e decepcionou-se outra vez. Foi uma ferida que nunca se fechou por completo. Ainda assim, ela recusou-se a deixar que isso a detivesse e recusou-se, também, a deixar que isso a tornasse amarga. Simplesmente continuou pregando, agora como evangelista independente, sem denominação alguma a apoiá-la e sem salário algum diante de si, confiando somente em Deus para abrir as portas e prover o caminho.
As mulheres no Evangelho
Desse preço veio uma das mais claras defesas da pregação feminina na América do século XIX. Foote havia examinado as Escrituras por si mesma e não conseguia encontrar o Deus que tão claramente a chamara e usara proibindo-a de falar. Seu argumento era de uma simplicidade desarmante: tudo o que o Espírito concede, ele concede igualmente a mulheres e a homens.
Se o poder de pregar o Evangelho é efêmero e espasmódico no caso das mulheres, deve sê-lo igualmente no dos homens; e, se as mulheres perderam o dom de profecia, também os homens o perderam.
— Julia A. J. Foote
Durante décadas, levou essa convicção por todo o país — pela Nova Inglaterra e por Nova York, até Ohio e o Meio-Oeste, subindo até o Canadá — viajando sem cessar, muitas vezes pobre, muitas vezes doente, pregando nas igrejas quando a aceitavam e em salões, casas e reuniões de acampamento quando não. Tornou-se uma das evangelistas mais conhecidas do movimento wesleyano de santidade. Em 1878, pregou a cerca de cinco mil pessoas numa reunião de santidade em Lodi, Ohio. Por onde passava, insistia na mesma mensagem: não apenas o perdão, mas a pureza; não apenas uma primeira obra da graça, mas uma plena salvação que purifica o coração e o prepara para Deus.
A vida cobrou-lhe caro. Viajava quando estava doente e quando não tinha dinheiro para a passagem; pregava em lugares onde uma mulher negra num púlpito atraía desprezo ou coisa pior; ficou apartada, por longos períodos, do lar e do marido, cujo trabalho no mar já os mantinha separados, e sobreviveu a ele e ao filho que havia sepultado. Enfrentou oposição não só de congregações brancas, mas dos líderes de seu próprio povo, que temiam que uma mulher pregadora trouxesse suas igrejas para o descrédito. Em meio a tudo isso, sustentava que a aflição era comunhão com um Salvador sofredor e que o chamado que tanto lhe custara valia mais do que o custo.
Suas viagens eram sustentadas, como seu livro de memórias registra em quase todas as páginas, por uma oração incessante. Ela orava para entrar em reuniões hostis e orava para atravessar a doença e a necessidade; pedia a Deus o pão de cada dia e o próximo compromisso e anotava como ele os supria. As provações que enfrentava, contava-as como a comunhão dos sofrimentos de Cristo, e os livramentos que encontrava, contava-os como prova de que o Deus que a chamara não a abandonaria.
Vindicada, por fim
Foote fundamentou todo o seu ministério na Escritura, não em desafio a ela. Apontava para a promessa do profeta Joel, cumprida em Pentecostes, de que Deus derramaria o seu Espírito tanto sobre as filhas como sobre os filhos, para que também elas profetizassem; apontava para as mulheres que seguiram a Cristo e as mulheres que trabalharam ao lado de Paulo. Se Deus certa vez falara por meio de tais mulheres, raciocinava ela, não emudecera — e o mesmo Espírito que santificara um coração podia, com certeza, encher uma boca. Não era, para ela, uma questão de direitos a exigir, mas de um dom a obedecer.
Em 1879, radicada em Cleveland, Ohio, Foote publicou sua autobiografia, Um Tição Arrancado do Fogo — o título tirado da visão do profeta Zacarias de uma alma arrebatada das chamas. É um livro simples e fervoroso, que não se envergonha de visões nem de santa alegria, e figura entre as mais importantes narrativas espirituais deixadas por uma mulher negra de seu século. Ela o escreveu, disse, não em favor de seu próprio nome, mas para que seu testemunho da plena salvação a sobrevivesse e conduzisse outros à mesma liberdade.
A vindicação veio devagar e, depois, por completo. Em 1894, a Igreja Metodista Episcopal Africana de Zion — a mesma comunhão que outrora a excomungara — ordenou Julia Foote diaconisa, a primeira mulher que jamais ordenara para tal ofício. Em 1900, pouco antes de sua morte, foi ordenada presbítera, apenas a segunda mulher a alcançar esse ofício na denominação. A igreja que a expulsara quando jovem recebeu-a, por fim, como uma de seus próprios ministros. Morreu naquele mesmo ano, já perto dos oitenta, um tição de fato arrancado do fogo — e que havia ateado fogo em muitos outros.
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