Voe Como a Águia ·Voando Alto

Capítulo 1 · 13 min de leitura

Voando Alto

Que quadro maravilhoso Deus nos dá por meio do profeta Isaías, conforme registrado no capítulo 40, versículos 28-31: Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos confins da terra, não se cansa nem se fatiga? É insondável o seu entendimento. Dá força ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansarão e se fatigarão, e os moços certamente cairão; mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão.

[As palavras ‘esperar no’ no último versículo seriam melhor traduzidas como ‘permanecer em’ (‘entrelaçado em’), que é o sentido raiz da palavra hebraica qavah. (Veja o número 6960 na Concordância de Strong.)] O salmista Davi escreve no Salmo 103:1-5: Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios. É ele que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades; que redime da perdição a tua vida; que te coroa de benignidade e de misericórdia; que farta de bem a tua boca, de modo que a tua mocidade se renova como a da águia.

Já observei um esquadrão de gansos-do-canadá voando em formação sobre a minha cabeça; já vi um bando de pelicanos erguendo-se das águas de um lago revolto; já contemplei um exército de abutres descer sobre uma carcaça em decomposição, mas nunca vi nada tão impressionante quanto uma águia adulta planando nas alturas, muito acima de todas as outras aves, soberana de tudo o que avista. Não é de admirar que os romanos da antiguidade e os americanos de hoje a tenham adotado como símbolo de suas grandes nações.

Um dos dias mais maravilhosos da minha vida foi passado na Ilha Saturna, logo ao largo da costa oeste do Canadá, onde, com três amigos que me visitavam do País de Gales, estive no alto de uma elevada colina em meio a seis ou sete águias que mergulhavam no vale abaixo de nós e depois se lançavam ao céu acima, passando a poucos palmos das nossas mãos estendidas. Pareciam fazer pouco esforço; nenhuma asa batia atarefada enquanto cavalgavam as correntes de ar que subiam pelas encostas íngremes até aquele alto planalto.

É desejo de Deus que o seu povo se torne tudo aquilo que deveria ser — como águias que planam para os lugares celestiais com ele. No entanto, muitos de nós jamais aprenderam a voar, contentando-se em permanecer no conforto dos seus ninhos, digerindo a mais recente refeição servida no púlpito da manhã de domingo.

Alguns tentaram bater as asas, elevar-se acima do mundano, ao verem ou ouvirem falar de outros crentes que planavam nas alturas, desfrutando das ricas bênçãos do seu Senhor enquanto se erguiam ao vento do Espírito.

Eles ‘deram um passo de fé’ ou correram um risco, com o frequente resultado de decepção e mágoa, ao caírem estrondosamente de volta à terra.

As nossas igrejas estão cheias de pessoas que se encontram mais parecidas com a galinha do quintal do que com a águia que plana! Elas se contentam em cacarejar enquanto bicam grãos de bênçãos em meio ao bufê variado de programas eclesiásticos, concebidos para o seu benefício. Por que parece tão difícil voar como a águia, se essa é a vontade de Deus para nós e o desejo do nosso coração? Alguém sugeriu, com cinismo, que “é difícil voar como uma águia quando você está cercado de perus!”, mas eu sugiro que há razões mais fundamentais.

Algumas Razões pelas Quais Muitos Deixam de Voar

1. Eles nascem ‘feridos’.

Quando nascemos de novo do Espírito de Deus, o nosso espírito tornou-se vivo para Deus; fomos transferidos do reino das trevas para o reino da luz, tirados da morte para a vida. Fomos feitos novas criaturas: ‘as coisas antigas já passaram, eis que todas as coisas se tornaram novas’. Os teólogos chamam isso de justificação — a salvação do espírito —, uma obra passada do Espírito Santo pela qual fomos salvos da penalidade do pecado.

No entanto, o nosso corpo não mudou de repente — ele ainda está morrendo, um dia de cada vez, e os resultados físicos do pecado continuam no nosso corpo. As cicatrizes de feridas antigas permanecem, ainda precisamos de óculos para ler, o nosso cabelo continua a cair e as falhas nos nossos dentes não estão sendo preenchidas com esmaltes novos e reluzentes. Evidentemente, o nosso corpo não era ‘uma nova criação’! Graças a Deus, um dia ele será renovado, quando este corpo corruptível se revestir da incorruptibilidade e este corpo mortal se revestir da imortalidade.

A isso chamamos glorificação — a salvação do corpo —, uma obra futura do Espírito Santo pela qual seremos salvos da presença do pecado.

Da mesma forma, a nossa alma não foi instantaneamente curada das feridas que sofrera; feridas como rejeição, abandono, agressões verbais e físicas que levam a complexo de inferioridade, insegurança e medo; feridas muitas vezes profundas, no subconsciente. Se você é filho de um divórcio, você carrega feridas. Se houve relação sexual fora dos laços do casamento, você carrega feridas. Se os seus pais não foram capazes de derramar em você o amor que se evidencia em segurança, autoestima e bem-estar emocional, você carrega feridas. Satanás conhece as muitas feridas que carregamos e é rápido em agravá-las sempre que tentamos fazer grandes coisas para Deus.

A boa notícia é que há cura e plenitude, mesmo para essas feridas, na obra expiatória da cruz. A isso chamamos santificação — a salvação da alma —, uma obra presente e contínua do Espírito Santo pela qual estamos sendo salvos do poder do pecado. Até que essas feridas sejam tratadas — de maneira espiritual —, o nosso ‘voo’ será limitado. (Veja o meu outro livro, A Chave em Minha Mão.)

“E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.”

2. Tomamos decisões contrárias aos princípios de vida de Deus.

Muitas dessas decisões têm consequências para o resto da vida. Por exemplo, somos ensinados a não nos prender ‘a um jugo desigual com os infiéis’, mas há muitos crentes que se casaram com cônjuges não convertidos. Embora o Senhor pudesse tê-los chamado a um grande destino no seu serviço, a sua principal responsabilidade agora é ser testemunha para o seu parceiro incrédulo. Claro que o Senhor pode trazer a si o parceiro incrédulo, embora isso não seja comum, e então ambos podem aprender a voar. Ele ainda pode usar tais pessoas mesmo que o parceiro permaneça não comprometido, mas o ‘voo’ é estritamente limitado, e a decisão não pode ser revertida.

Outras decisões, porém, podem ser revertidas — e devem sê-lo, se alguém quer voar como a águia. Muitos vivem endividados, tão contrariamente à palavra de Deus, sem perceber que agora estão servindo a Mamom, um deus estranho! Fico absolutamente pasmo ao ver tantos líderes cristãos e igrejas se comprometerem com uma pesada carga de dívidas que, quando se tornam incapazes de atender às exigências dos seus credores, os leva a uma escravidão jamais pretendida para eles pelo Senhor. O Senhor não pode lançá-los à grandeza no seu serviço enquanto estiverem potencialmente sujeitos às exigências dos seus credores.

Muitos carregam no coração a falta de perdão para com os outros, dando assim a Satanás a sua oportunidade, enquanto outros ainda carregam ofensas e preconceitos. Todas essas são decisões que eles tomaram, embora prefiram culpar outra pessoa. Quando alguém o prejudica, o Senhor lhe prometeu graça suficiente para suportar esse dano e para perdoar.

Quando alguém o ofende com suas ações, personalidade ou palavras, você pode escolher não permitir que aquele macaco se instale nos seus ombros!

Se ele permanece, a ofensa é sua! Preconceitos são aquelas atitudes negativas que temos para com os outros, geralmente baseadas na ignorância. Lembre-se: você nunca saberá como outro homem se sente enquanto não tiver caminhado alguns quilômetros no lugar dele!

O Senhor ainda pode usar todas essas pessoas no ministério, mas o ‘voo’ é limitado.

“Deixemos também todo peso e o pecado que tão de perto nos envolve, e corramos com perseverança a carreira que nos está proposta.”

3. Nunca compreendemos que deveríamos estar voando!

Tornamo-nos tão satisfeitos com a normalidade da nossa vida cristã que nunca questionamos se há algo mais. Contentamo-nos em ser alimentados a cada domingo por uma mensagem do púlpito, acrescida de alguma agradável música de ‘adoração’ no rádio do carro e de um livro de amenidades da mais recente celebridade cristã. Certamente isso é anormal — subnormal em relação à vida abundante que o Senhor pretendeu para nós!

Fomos tão anestesiados pelo cristianismo fraco e materialista de grande parte do mundo ocidental que já não conseguimos ouvir o nosso esposo dizer: Levanta-te, amada minha, e vem. A voz dele tornou-se a voz de um estranho, e a esposa esqueceu o seu doce tom. Ela amou demais este mundo, e os cuidados e a imundície dele a sobrecarregaram.

Se alguém busca ouvir a voz do Senhor, aproximar-se dele, é chamado com escárnio de ‘místico’ (como eu certa vez fui, por um pastor sênior!). Já não nos importamos com ouvir a voz do Pastor, nem esperamos ouvi-la.

Muitas das nossas igrejas tornaram-se lugares aonde vamos para nos sentirmos bem, em vez de lugares para adorar a Deus e aprender sobre as suas exigências para as nossas vidas. Não gostamos de ouvir a sua voz, para o caso de ela trazer convicção de pecado. Sempre que alguém me fala de uma igreja ‘excelente’ que frequenta, procuro saber, sem provocação, o que quer dizer com ‘excelente’. Muitas vezes, querem dizer que os números subiram, que Jesus é exaltado, que as mãos estão erguidas no ar, que o canto é animado e que os sermões duram no máximo vinte e cinco minutos, sobre algum tema que não desafia ninguém! Queremos estar numa igreja em ascensão! Impressiona-me que Evan Roberts, instrumento de Deus no grande avivamento galês de 1904, aprendeu a voar como a águia orando: “Senhor, curva-me, curva-me mais para baixo!”

Parece-me, ainda, que muitas das nossas igrejas ‘excelentes’ o são por causa do carisma do líder, e não dos carismas do Espírito Santo. O líder teria tanto sucesso construindo um império empresarial quanto teve construindo o seu próprio império eclesiástico pessoal. Aprendeu todas as técnicas do mundo dos negócios para controlar os que trabalham para ele e estabeleceu um firme ‘organograma’ de autoridade e responsabilidade. Da mesma forma, na outra ponta do espectro, muitas das nossas igrejas menores permanecem assim por causa da insegurança e do controle do seu líder.

Não me pressione demais! Estou feliz em apenas descansar aqui no meu ninho!

4. Cortaram-nos as asas, para que não voássemos alto demais!

Muitos dos nossos líderes não compreenderam a sua responsabilidade de ensinar o seu povo a voar. Em vez disso, muitas igrejas e organizações paraeclesiásticas são conduzidas de maneira semelhante aos sistemas do mundo, em que a estrutura organizacional é piramidal, com o poder emanando de cima para baixo, e a palavra de ordem é controle. Jesus disse: “Convosco não será assim!” Como pastor, sinto-me profundamente desafiado por saber que a minha tarefa é “o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério”, ou seja, ensiná-los a voar! Fui chamado para fazer discípulos, não para construir ninhos maiores! — e os discípulos devem voar como Deus quis que voassem.

A águia não descansa enquanto não vê a sua cria erguer-se para planar acima de todas as outras aves na vasta extensão dos céus. Oxalá os pastores tivessem esse desejo — alimentar, ensinar e liberar o seu povo para que cada um alcançasse o seu mais elevado destino em Cristo. Em vez disso, muitas vezes os vemos aparar as asas do seu povo, para que não perturbem o conforto da ‘sua’ igreja.

Afinal, de quem é a igreja?

Eu estava na casa de um pastor na Austrália, onde o meu anfitrião havia convidado alguns amigos para uma noite de comunhão com o seu visitante canadense. Ele me apresentou brevemente, pedindo que eu compartilhasse com os seus convidados qualquer coisa que o Senhor pudesse ter posto no meu coração. Comecei ampliando a sua apresentação: “Sou pastor, atualmente não à frente de uma igreja, mas ainda assim pastor segundo Efésios 4:11, conhecendo o meu chamado e o ministério que o Senhor colocou diante de mim.” Imediatamente uma mulher de meia-idade que estava presente disse, em voz alta o bastante para ser ouvida por todos: “Suponho que teremos as nossas asas aparadas de novo!” Só pude presumir que a sua experiência com pastores era a de que eles constantemente a atrapalhavam naquilo que ela considerava ser o chamado de Deus para a sua vida.

Fico contente em poder dizer que, ao fim da noite, ela e eu éramos ‘grandes amigos’! Ela até soltou um caloroso “Amém” quando terminei.

Devo acrescentar que, nessa mesma reunião, encontrei um daqueles cristãos mais insuportáveis, o autonomeado “vigia sobre o muro”, cujo papel na vida é criticar tudo o que o pastor ou o visitante possa dizer e que possa ser interpretado como algo perigoso (segundo o vigia) para os santos — geralmente algo que o orador jamais pretendeu dizer. Um bom pastor certamente precisaria aparar aquelas asas!

Temos muitos jovens nas nossas igrejas que ainda não contraíram a doença da indolência, tão comum entre os membros mais velhos, e que têm sonhos e ideias de servir ao Senhor.

“Por que não abrimos uma cafeteria? Os jovens podem conduzir a adoração num domingo? Podemos realizar uma reunião ao ar livre? Quero ir numa viagem missionária com a Jovens Com Uma Missão ou a Cruzada Estudantil. Podemos planejar um churrasco para os meninos de rua, com seus cabelos coloridos e argolas no nariz? Podemos formar um coral de jovens, todos vestidos com camisas de rúgbi e calças jeans?” Admiramos o entusiasmo deles, mas somos rápidos em desencorajá-los com uma centena e uma desculpas.

Não queremos que ‘balancem o nosso barco’. Afinal, a nossa é uma igreja respeitável e temos tudo ‘sob controle’. Realmente não precisamos de mais programas, sobretudo não daqueles de que o mundo possa tomar conhecimento, como os sugeridos acima.

Afinal, é tarefa do pastor saber quais programas Deus quer na sua igreja, não é? Não é???

Se as opiniões que expressei acima são verdadeiras, então não é de admirar que haja tantos crentes que já não estão em boa comunhão com uma igreja local por causa da desilusão, da frustração e das feridas.

O peso do meu coração é pela igreja ferida, especialmente por aqueles pastores e missionários ‘na linha de frente’ que sofrem por males e feridas cometidos contra eles, geralmente, e tristemente, por outros membros do Corpo de Cristo. No entanto, em minhas viagens, tenho encontrado cada vez mais crentes desiludidos, tanto do clero quanto do laicato, que perderam a sua alegria e o seu propósito de servir ao Senhor. Muitos se esgotaram carregando ministérios que Deus nunca pretendeu que eles carregassem.

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Voe Como a Águia Gareth Evans

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