Com Cristo na Escola de Oração
Nossa Confiança na Oração

Capítulo 30 · 13 min de leitura

Nossa Confiança na Oração

“E esta é a confiança que temos nele, que, se pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que ele nos ouve, tudo quanto pedimos, sabemos que alcançamos as petições que lhe temos feito.”—1 João 5:14-15.

UM dos maiores obstáculos à oração de fé é, para muitos, sem dúvida, este: não sabem se aquilo que pedem está segundo a vontade de Deus. Enquanto permanecem em dúvida quanto a este ponto, não podem ter a confiança de pedir na certeza de que hão de receber. E logo começam a pensar que, uma vez tornados conhecidos os seus pedidos e não recebendo resposta, o melhor é deixar a Deus fazer segundo o Seu beneplácito. As palavras de João, “Se pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve,” como eles as entendem, tornam impossível a certeza quanto à resposta à oração, porque não podem estar seguros do que realmente seja a vontade de Deus. Pensam na vontade de Deus como o Seu conselho oculto—como poderia o homem sondar qual realmente seja o propósito do Deus sumamente sábio.

Isto é exatamente o oposto daquilo que João visava ao escrever assim. Ele quis despertar-nos para a ousadia, para a confiança, para a plena certeza da fé na oração. Ele diz: “Esta é a confiança que temos nele,” de modo que podemos dizer: Pai! Tu sabes, e eu sei, que peço segundo a Tua vontade: sei que me ouves. “Esta é a confiança: que, se pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve.” Por essa razão ele acrescenta logo: “Se sabemos que ele nos ouve em tudo quanto pedimos, sabemos,” por meio desta fé, que temos,” que agora, enquanto oramos, recebemos “a petição,” as coisas especiais, “que lhe temos pedido.” João supõe que, quando oramos, primeiro verificamos se as nossas orações estão segundo a vontade de Deus. Elas podem estar segundo a vontade de Deus e, contudo, não vir de imediato, ou não sem a perseverante oração da fé. É para nos dar coragem de assim perseverar e de ser fortes na fé que ele nos diz: Isto nos dá ousadia ou confiança na oração — se pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. É evidente que, se para nós for questão de incerteza se os nossos pedidos estão segundo a sua vontade, não podemos ter o conforto daquilo que ele diz: “Sabemos que alcançamos as petições que lhe temos feito.”

Mas justamente aqui está a dificuldade. Mais de um crente diz: “Não sei se aquilo que desejo está segundo a vontade de Deus. A vontade de Deus é o propósito da Sua infinita sabedoria: é-me impossível saber se Ele não terá algo melhor para mim do que aquilo que desejo, ou se não terá alguma razão para reter o que peço.” Todos sentem como, com tais pensamentos, a oração de fé — de que Jesus disse: “Qualquer que crer que aquilo que disser se há de cumprir, terá tudo quanto disser,” — se torna uma impossibilidade. Pode haver a oração de submissão e de confiança na sabedoria de Deus; não pode haver a oração de fé. O grande erro aqui é que os filhos de Deus não creem realmente que seja possível conhecer a vontade de Deus. Ou, se o creem, não tomam o tempo e o cuidado de descobri-la. O que precisamos é ver claramente de que modo o Pai conduz o Seu filho que espera e se deixa ensinar a saber que o seu pedido está segundo a Sua vontade. É por meio da santa palavra de Deus, recebida e guardada no coração, na vida, na vontade; e por meio do Espírito Santo de Deus, acolhido na Sua habitação e direção interior, que aprenderemos a saber que os nossos pedidos estão segundo a Sua vontade.

Por meio da palavra. Há uma vontade secreta de Deus, com a qual muitas vezes tememos que as nossas orações estejam em desacordo. Não é com essa vontade de Deus, mas com a Sua vontade tal como revelada na Sua palavra, que temos de lidar na oração. As nossas noções do que a vontade secreta possa ter decretado, e de como isso poderia tornar impossíveis as respostas às nossas orações, são, na maior parte, muito errôneas. A fé de criança quanto àquilo que Ele está disposto a fazer pelos Seus filhos atém-se simplesmente à garantia do Pai: que é da Sua vontade ouvir a oração e fazer aquilo que a fé na Sua palavra deseja e aceita. Na palavra, o Pai revelou em promessas gerais os grandes princípios da Sua vontade para com o Seu povo. O filho tem de tomar a promessa e aplicá-la às circunstâncias especiais da sua vida a que ela se refere. Tudo o que ele pedir dentro dos limites dessa vontade revelada, poderá saber que está segundo a vontade de Deus, e poderá esperá-lo confiadamente. Na Sua palavra, Deus nos deu a revelação da Sua vontade e dos Seus planos conosco, com o Seu povo e com o mundo, com as mais preciosas promessas da graça e do poder com que, por meio do Seu povo, Ele levará a cabo os Seus planos e fará a Sua obra. À medida que a fé se torna forte e ousada o bastante para reivindicar o cumprimento da promessa geral no caso especial, podemos ter a certeza de que as nossas orações são ouvidas: estão segundo a vontade de Deus. Tome as palavras de João no versículo que segue o nosso texto como ilustração: “Se alguém vir seu irmão cometer um pecado que não é para morte, pedirá, e Deus lhe dará a vida.” Tal é a promessa geral; e o crente que suplica com base nesta promessa ora segundo a vontade de Deus, e João lhe daria a confiança de saber que tem a petição que pede.

Mas esta apreensão da vontade de Deus é algo espiritual, e precisa ser espiritualmente discernida. Não é como questão de lógica que a podemos deduzir: Deus o disse; hei de tê-lo. Nem todo cristão tem o mesmo dom ou chamado. Ainda que a vontade geral revelada na promessa seja a mesma para todos, há, para cada um, uma vontade especial e distinta segundo o propósito de Deus. E nisto está a sabedoria dos santos: conhecer esta vontade especial de Deus para cada um de nós, segundo a medida de graça que nos é dada, e assim pedir em oração justamente aquilo que Deus preparou e tornou possível para cada um. É para comunicar esta sabedoria que o Espírito Santo habita em nós. A aplicação pessoal das promessas gerais da palavra às nossas necessidades pessoais especiais—é para isto que nos é dada a direção do Espírito Santo.

É esta união do ensino da palavra e do Espírito que muitos não compreendem, e assim há uma dupla dificuldade em conhecer qual seja a vontade de Deus. Alguns buscam a vontade de Deus num sentimento ou convicção interior, e quereriam que o Espírito os conduzisse sem a palavra. Outros a buscam na palavra, sem a viva direção do Espírito Santo. As duas devem estar unidas: só na palavra, só no Espírito, mas nestes com toda a certeza, podemos conhecer a vontade de Deus e aprender a orar segundo ela. No coração a palavra e o Espírito devem encontrar-se: é só pela habitação interior que podemos experimentar o ensino deles. A palavra deve morar, deve permanecer em nós: coração e vida devem, dia após dia, estar sob a sua influência. Não de fora, mas de dentro, vem a vivificação da palavra pelo Espírito. Só aquele que se entrega inteiramente, em toda a sua vida, à supremacia da palavra e da vontade de Deus é que pode esperar discernir, em casos especiais, o que essa palavra e vontade lhe permitem pedir com ousadia. E, assim como com a palavra, também com o Espírito: se eu quiser ter a direção do Espírito na oração, para me assegurar qual é a vontade de Deus, toda a minha vida deve estar entregue a essa direção; só assim mente e coração podem tornar-se espirituais e capazes de conhecer a santa vontade de Deus. É aquele que, por meio da palavra e do Espírito, vive na vontade de Deus fazendo-a, que saberá orar segundo essa vontade, na confiança de que Ele nos ouve.

Quem dera que os cristãos vissem que dano incalculável causam a si mesmos com o pensamento de que, porque possivelmente a sua oração não está segundo a vontade de Deus, devem contentar-se sem resposta. A palavra de Deus nos diz que a grande razão da oração não respondida é que não oramos retamente: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal.” Ao não conceder resposta, o Pai nos diz que há algo errado no nosso orar. Ele quer ensinar-nos a descobri-lo e confessá-lo, e assim educar-nos para a verdadeira oração de fé e vitoriosa. Ele só pode alcançar o Seu objetivo quando nos leva a ver que somos nós os culpados pela retenção da resposta; o nosso alvo, ou a nossa fé, ou a nossa vida não é o que deveria ser. Mas este propósito de Deus é frustrado enquanto nos contentamos em dizer: É talvez porque a minha oração não está segundo a Sua vontade que Ele não me ouve. Oh, não lancemos mais a culpa das nossas orações não respondidas sobre a vontade secreta de Deus, mas sobre o nosso orar mal. Seja aquela palavra, “Não recebeis porque pedis mal,” como a lâmpada do Senhor, esquadrinhando coração e vida para provar que somos, de fato, daqueles a quem Cristo deu as Suas promessas de respostas certas. Creiamos que podemos saber se a nossa oração está segundo a vontade de Deus. Entreguemos o nosso coração para que a palavra do Pai nele habite ricamente, para que a palavra de Cristo permaneça em nós. Vivamos dia após dia com a unção que nos ensina todas as coisas. Entreguemo-nos sem reservas ao Espírito Santo, à medida que Ele nos ensina a permanecer em Cristo, a habitar na presença do Pai, e logo compreenderemos como o amor do Pai anseia que o filho conheça a Sua vontade e que, na confiança de que essa vontade inclui tudo o que o Seu poder e o Seu amor prometeram fazer, saiba também que Ele ouve as petições que Lhe pedimos. “Esta é a confiança que temos: que, se pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve.”

“SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR.”

Bendito Mestre! De todo o meu coração Te agradeço por esta bendita lição: que o caminho para uma vida cheia de respostas à oração é através da vontade de Deus. Senhor! Ensina-me a conhecer esta bendita vontade vivendo-a, amando-a e fazendo-a sempre. Assim aprenderei a oferecer orações segundo essa vontade, e a encontrar, na sua harmonia com a bendita vontade de Deus, a minha confiança na oração e a minha segurança em aceitar a resposta.

Pai! é a Tua vontade que o Teu filho desfrute da Tua presença e bênção. É a Tua vontade que tudo na vida do Teu filho esteja em conformidade com a Tua vontade, e que o Espírito Santo opere isto nele. É a Tua vontade que o Teu filho viva na experiência diária de respostas distintas à oração, de modo a desfrutar de viva e direta comunhão Contigo. É a Tua vontade que o Teu Nome seja glorificado em e por meio dos Teus filhos, e assim será naqueles que confiam em Ti. Ó meu Pai! seja esta Tua vontade a minha confiança em tudo o que peço.

Bendito Salvador! Ensina-me a crer na glória desta vontade. Essa vontade é o amor eterno, que, com poder Divino, realiza o seu propósito em cada vontade humana que a ela se entrega. Senhor! Ensina-me isto. Tu podes fazer-me ver como toda promessa e todo mandamento da palavra são, de fato, a vontade de Deus, e que o seu cumprimento me é garantido pelo próprio Deus. Torne-se assim a vontade de Deus para mim a rocha firme sobre a qual a minha oração e a minha certeza de resposta sempre repousam. Amém.

NOTA.

Há muitas vezes grande confusão quanto à vontade de Deus. As pessoas pensam que aquilo que Deus quer há de acontecer inevitavelmente. Não é de modo algum assim. Deus quer muitíssima bênção para o Seu povo, a qual nunca lhe chega. Ele a quer com o maior fervor, mas eles não a querem, e ela não lhes pode chegar. Este é o grande mistério da criação do homem com um livre-arbítrio, e também da renovação da sua vontade na redenção: que Deus tornou a execução da Sua vontade, em muitas coisas, dependente da vontade do homem. Da vontade de Deus revelada nas Suas promessas, cumprir-se-á tanto quanto a nossa fé aceitar. A oração é o poder pelo qual acontece aquilo que de outro modo não sucederia. E a fé, o poder pelo qual se decide quanto da vontade de Deus se fará em nós. Uma vez que Deus revela a uma alma o que está disposto a fazer por ela, a responsabilidade pela execução dessa vontade recai sobre nós.

Alguns temem que isto seja colocar poder demais nas mãos do homem. Mas todo o poder é colocado nas mãos do homem em Cristo Jesus. A chave de toda oração e de todo poder é Sua, e quando aprendemos a compreender que Ele está tanto conosco quanto com o Pai, e que nós também somos tão um com Ele quanto Ele com o Pai, veremos quão natural, justo e seguro é que a tal poder seja dado àqueles que permanecem Nele como Ele no Pai. É Cristo, o Filho, quem tem o direito de pedir o que quer: é por meio do permanecer Nele e do Seu permanecer em nós (numa realidade Divina de que temos apreensão em demasia pequena) que o Seu Espírito respira em nós aquilo que Ele quer pedir e obter por meio de nós. Oramos em Seu Nome: as orações são realmente nossas e tão realmente Suas.

Outros, por sua vez, temem que crer que a oração tenha tal poder seja limitar a liberdade e o amor de Deus. Oh, se ao menos soubéssemos como estamos limitando a Sua liberdade e o Seu amor ao não permitir que Ele atue do único modo pelo qual Ele escolhe atuar, agora que nos tomou consigo em comunhão—por meio das nossas orações e da nossa fé. Um irmão no ministério perguntou certa vez, enquanto falávamos sobre este assunto, se não havia o perigo de pensarmos que o nosso amor pelas almas e a nossa disposição de vê-las abençoadas fossem mover o amor de Deus e a disposição de Deus para abençoá-las. Passávamos justamente por umas grandes canalizações de água, pelas quais a água era conduzida por montes e vales, desde um grande riacho da montanha até uma cidade a certa distância. Olhe só para estes canos, foi a resposta; eles não tornaram a água disposta a correr montanha abaixo, nem lhe deram o seu poder de bênção e refrigério: esta é a sua própria natureza. Tudo o que puderam fazer foi decidir a sua direção: por meio deles os habitantes da cidade disseram que queriam ali a bênção. E assim mesmo, é da própria natureza de Deus amar e abençoar. Para baixo, e cada vez mais para baixo, o Seu amor anseia por vir com as suas correntes vivificantes e refrescantes. Mas Ele deixou à oração dizer aonde a bênção há de vir. Confiou ao Seu povo crente levar a água viva aos lugares desertos: a vontade de Deus de abençoar depende da vontade do homem de dizer onde a bênção deve descer. “Tal honra têm os seus santos.” “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que ele nos ouve, tudo quanto pedimos, sabemos que alcançamos as petições que lhe temos feito.”

1Veja isto ilustrado nos extratos de George Muller ao final deste volume.

Página 1 / 1 · 13 min restantes no capítulo