Capítulo 18 · 11 min de leitura
A Oração em Harmonia com o Ser de Deus
“Pai, graças te dou porque me ouviste. E eu sabia que sempre me ouves.”—João 11:41, 42.
“Tu és meu Filho; eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei.”—Salmos 2:7, 8.
NO Novo Testamento encontramos uma distinção feita entre fé e conhecimento. “A um é dada, pelo Espírito, a palavra da sabedoria; a outro, a palavra do conhecimento, segundo o mesmo Espírito; a outro, a fé, no mesmo Espírito.” Numa criança ou num cristão de espírito simples pode haver muita fé com pouco conhecimento. A simplicidade infantil aceita a verdade sem dificuldade e muitas vezes pouco se importa em dar a si mesma ou a outros qualquer razão para a sua fé senão esta: Deus o disse. Mas é da vontade de Deus que o amemos e o sirvamos, não somente com todo o coração, mas também com todo o entendimento; que cresçamos até uma percepção da sabedoria divina e da beleza de todos os seus caminhos, palavras e obras. É somente assim que o crente poderá aproximar-se plenamente e adorar retamente a glória da graça de Deus; e somente assim o nosso coração poderá apreender inteligentemente os tesouros de sabedoria e conhecimento que há na redenção, e estar preparado para entrar plenamente na mais alta nota do cântico que se eleva diante do trono: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!”
Em nossa vida de oração esta verdade tem a sua plena aplicação. Ainda que a oração e a fé sejam tão simples que o convertido recém-nascido pode orar com poder, a verdadeira ciência cristã encontra na doutrina da oração alguns dos seus mais profundos problemas. Até que ponto é o poder da oração uma realidade? E, se o é, como pode Deus conceder à oração poder tão grande? Como pode a ação da oração harmonizar-se com a vontade e os decretos de Deus? Como se podem conciliar a soberania de Deus e a nossa vontade, a liberdade de Deus e a nossa?—estas e outras questões semelhantes são temas próprios para a meditação e a investigação cristãs. Quanto mais séria e reverentemente nos aproximamos de tais mistérios, tanto mais, em adorador assombro, nos prostraremos para louvar Aquele que na oração deu tamanho poder ao homem.
Uma das dificuldades secretas a respeito da oração—uma que, embora não expressa, muitas vezes realmente estorva a oração—deriva da perfeição de Deus, na sua absoluta independência de tudo o que está fora de si mesmo. Não é Ele o Ser Infinito, que deve o que é somente a si mesmo, que se determina a si próprio e cuja vontade sábia e santa determinou tudo o que há de ser? Como pode a oração influenciá-lo, ou como pode Ele ser movido pela oração a fazer o que de outro modo não seria feito? Não será a promessa de resposta à oração simplesmente uma condescendência para com a nossa fraqueza? Será que o que se diz do poder—do poder tão eficaz—da oração é algo mais do que uma acomodação ao nosso modo de pensar, visto que a Divindade nunca pode depender de qualquer ação vinda de fora para os seus atos? E não será a bênção da oração simplesmente a influência que ela exerce sobre nós mesmos?
Ao buscar resposta a tais perguntas, encontramos a chave no próprio ser de Deus, no mistério da Santíssima Trindade. Se Deus fosse apenas uma Pessoa, fechada em si mesma, não poderia haver qualquer ideia de aproximação dele ou de influência sobre ele. Mas em Deus há três Pessoas. Em Deus temos o Pai e o Filho, que têm no Espírito Santo o seu vínculo vivo de unidade e comunhão. Quando o amor eterno gerou o Filho, e o Pai deu ao Filho, como Segunda Pessoa, um lugar ao seu lado, como seu Igual e seu Conselheiro, abriu-se um caminho para a oração e a sua influência na própria vida mais íntima da Divindade. Assim como na terra, também no céu toda a relação entre o Pai e o Filho é de dar e receber. E se esse receber há de ser tão voluntário e autodeterminado como o dar, deve haver, da parte do Filho, um pedir e um receber. Na santa comunhão das Pessoas Divinas, este pedir do Filho era uma das grandes operações da Vida Três Vezes Bendita de Deus. Por isso o temos no Salmo 2: “Eu hoje te gerei: pede-me, e eu te darei.” O Pai deu ao Filho o lugar e o poder de agir sobre si. O pedir do Filho não era mera aparência ou sombra, mas um daqueles movimentos de vida em que o amor do Pai e do Filho se encontravam e se completavam mutuamente. O Pai havia determinado não estar sozinho nos seus conselhos: havia um Filho de cujo pedir e aceitar dependeria o cumprimento deles. E assim havia, no próprio Ser e Vida de Deus, um pedir do qual a oração na terra seria o reflexo e o transbordamento. Não foi sem incluir isto que Jesus disse: “Eu sabia que sempre me ouves.’ Assim como a Filiação de Jesus na terra não pode ser separada da sua Filiação no céu, assim também a sua oração na terra é a continuação e a contraparte do seu pedir no céu. A oração do homem Cristo Jesus é o elo entre o eterno pedir do Filho unigênito no seio do Pai e a oração dos homens sobre a terra. A oração tem a sua origem e a sua fonte mais profunda no próprio Ser de Deus. No seio da Divindade nada jamais se faz sem oração—o pedir do Filho e o dar do Pai.
Isto pode ajudar-nos um pouco a compreender como a oração do homem, chegando através do Filho, pode ter efeito sobre Deus. Os decretos de Deus não são decisões por Ele tomadas sem referência ao Filho, ou à sua petição, ou à petição que há de subir através dele. De modo nenhum. O Senhor Jesus é o primogênito, a Cabeça e o Herdeiro de todas as coisas: todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele, e todas as coisas subsistem nele. Nos conselhos do Pai, o Filho, como Representante de toda a criação, teve sempre uma voz; nos decretos do propósito eterno houve sempre lugar deixado para a liberdade do Filho como Mediador e Intercessor, e assim para as petições de todos os que se aproximam do Pai no Filho.
E se vier o pensamento de que esta liberdade e poder do Filho de agir sobre o Pai está em desacordo com a imutabilidade dos decretos divinos, não nos esqueçamos de que não há com Deus, como há com o homem, um passado pelo qual Ele esteja irrevogavelmente atado. Deus não vive no tempo, com o seu passado e futuro; as distinções do tempo não têm referência Àquele que habita a Eternidade. E a Eternidade é um Agora sempre presente, no qual o passado nunca é passado, e o futuro está sempre presente. Para atender à nossa fraqueza humana, a Escritura precisa falar de decretos passados e de um futuro que há de vir. Na realidade, a imutabilidade do conselho de Deus está sempre ainda em perfeita harmonia com a sua liberdade de fazer tudo o que quiser. Não foram as orações do Filho e do seu povo de tal modo acolhidas nos decretos eternos que o seu efeito devesse ser apenas aparente; mas de tal modo que o coração do Pai se mantém aberto e livre para ouvir toda oração que sobe através do Filho, e que Deus de fato se permite ser levado pela oração a fazer o que de outro modo não teria feito.
Esta perfeita harmonia e união da Soberania Divina e da liberdade humana é para nós um mistério insondável, porque Deus, como O ETERNO, transcende todos os nossos pensamentos. Mas seja o nosso consolo e a nossa força ter a certeza de que, na eterna comunhão do Pai e do Filho, o poder da oração tem a sua origem e a sua certeza, e que, mediante a nossa união com o Filho, a nossa oração é acolhida e pode ter a sua influência na vida interior da Bendita Trindade. Os decretos de Deus não são nenhuma armação de ferro contra a qual a liberdade do homem em vão buscasse debater-se. Não. O próprio Deus é o Amor Vivo, que no seu Filho, como homem, entrou na mais terna relação com tudo o que é humano, que pelo Espírito Santo acolhe tudo o que é humano na vida divina de amor, e se conserva livre para dar a cada oração humana o seu lugar no seu governo do mundo.
É à luz da alvorada de tais pensamentos que a doutrina da Bendita Trindade deixa de ser uma especulação abstrata, para ser a manifestação viva da maneira pela qual foi possível ao homem ser acolhido na comunhão de Deus, e a sua oração tornar-se um fator real no governo que Deus exerce sobre esta terra. E podemos, como que à distância, vislumbrar a luz que, desde o mundo eterno, resplandece sobre palavras como estas: “POR ELE temos acesso EM UM MESMO ESPÍRITO ao PAI.”
“SENHOR, ENSINA-NOS A ORAR.”
Deus Eterno! Três-Uno e Três Vezes Santo! em profunda reverência quisera eu, de rosto velado, adorar diante do santo mistério do teu Ser Divino. E se te aprouver, ó Deus gloriosíssimo, desvendar algo desse mistério, eu me inclinaria com temor e tremor, para que não peque contra ti, enquanto medito na tua glória.
Pai! graças te dou porque levas este nome não somente como o Pai dos teus filhos aqui na terra, mas por teres subsistido desde a eternidade como o Pai com o teu Filho unigênito. Graças te dou porque, como Pai, podes ouvir a nossa oração, pois desde a eternidade deste, nos teus conselhos, um lugar ao pedir do teu Filho. Graças te dou porque vimos nele, na terra, qual era o bendito convívio que Ele tinha contigo no céu; e como, desde a eternidade, em todos os teus conselhos e decretos, houvera lugar deixado para a sua oração e para as respostas dela. E graças te dou, acima de tudo, porque, mediante a sua verdadeira natureza humana no teu trono lá no alto, e mediante o teu Espírito Santo na nossa natureza humana aqui embaixo, abriu-se um caminho pelo qual todo clamor humano de necessidade pode ser acolhido na Vida e no Amor de Deus e tocá-los, e receber em resposta tudo o que pedir.
Bendito Jesus! em quem, como Filho, o caminho da oração foi aberto, e que nos dás a certeza da resposta, nós te suplicamos: ensina o teu povo a orar. Oh, que isto seja cada dia o sinal da nossa filiação: que, como tu, saibamos que o Pai sempre nos ouve. Amém.
NOTA.
“‘Deus ouve a oração.’ Esta visão simplíssima da oração é tomada por toda a Escritura. Ela não se detém na influência reflexa da oração sobre o nosso coração e a nossa vida, embora mostre abundantemente a conexão entre a oração como ato e a oração como estado. Antes, fixa com grande nitidez os propósitos objetivos ou reais da oração: obter de Deus bênção, dons, livramentos. ‘Pedi, e dar-se-vos-á’, diz Jesus.
“Por mais verdadeira e valiosa que seja a reflexão de que Deus, prevendo e preordenando todas as coisas, também previu e preordenou as nossas orações como elos na cadeia dos acontecimentos, de causa e efeito, como um poder real, ainda assim estamos convencidos de que não é esta a luz em que a mente pode encontrar paz neste grande assunto, nem pensamos que aqui esteja o poder atrativo que nos leva à oração. Sentimos antes que tal reflexão desvia a atenção do Objeto de onde vêm o impulso, a vida e a força da oração. O Deus vivo, contemporâneo e não meramente eterno, o vivo, misericordioso e santo, Deus manifestando-se à alma, Deus dizendo: ‘Busca a minha face’; este é o ímã que nos atrai, só isto pode abrir o coração e os lábios. . .
“Em Jesus Cristo, o Filho de Deus, temos a plena solução da dificuldade. Ele orou na terra, e isso não meramente como homem, mas como o Filho de Deus encarnado. A sua oração na terra é somente a manifestação da sua oração desde toda a eternidade, quando no conselho divino Ele foi constituído como o Cristo. . . . O Filho foi designado para ser herdeiro de todas as coisas. Desde toda a eternidade o Filho de Deus era o Caminho, o Mediador. Ele estava, para usar a nossa linguagem imperfeita, desde a eternidade falando ao Pai em favor do mundo.”—SAPHIR, The Hidden Life, cap. vi. Veja também The Lord’s Prayer, p. 12.
Capítulo 18 concluído
A Oração em Harmonia com o Ser de Deus