Santo em Cristo ·A Santidade e o Corpo

Capítulo 24 · 12 min de leitura

A Santidade e o Corpo

‘O templo de Deus é santo, e esse templo sois vós. O corpo é para o Senhor, e o Senhor para o corpo. Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo que está em vós? Portanto, glorificai a Deus no vosso corpo.’—1 Coríntios 3:16; 6:13,19.

‘A que não é casada cuida das coisas do Senhor, para que seja santa tanto no corpo como no espírito.’—1 Coríntios 7:34.

‘Apresentai os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.’—Romanos 12:1.

Ao entrar no mundo, o nosso bendito Senhor disse: ‘Um corpo me preparaste; eis que venho para fazer, ó Deus, a tua vontade.’ Ao deixar novamente este mundo, foi em seu próprio corpo que ele levou os nossos pecados sobre o madeiro. Assim, foi no corpo, não menos que na alma e no espírito, que ele fez a vontade de Deus. E por isso está escrito: ‘Por essa vontade fomos santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas.’

Ao orar pelos tessalonicenses e por sua santificação, Paulo diz: ‘E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.’ De si mesmo havia falado como ‘trazendo sempre no corpo a mortificação de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo. Pois nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste na nossa carne mortal.’ Sua ardente expectativa e esperança era ‘que Cristo seja engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte.’ A relação entre o corpo e o espírito é tão íntima, o poder do pecado no espírito vem tanto por meio do corpo, o corpo é de modo tão distinto o objeto tanto da redenção de Cristo como da renovação do Espírito Santo, que o nosso estudo da santidade ficará seriamente deficiente se não acolhermos o ensino da Escritura sobre a santidade no corpo.

Bem se disse que o corpo é, para a alma e o espírito que nele habitam e agem, como as muralhas da cidade. Por elas o inimigo entra. Em tempo de guerra, tudo cede à defesa das muralhas. É muitas vezes porque o crente não conhece a importância de manter as muralhas defendidas, de manter o corpo santificado, que ele não consegue ter a alma e o espírito conservados irrepreensíveis. Ou é porque não entende que o guardar e o santificar do corpo em todas as suas partes deve ser tão distintamente uma obra de fé, e tão diretamente por meio do poderoso poder de Jesus e da habitação do Espírito, como a renovação da vida interior, que o progresso na santidade é tão débil. O governo da cidade confiamos a Jesus; mas a defesa das muralhas guardamos em nossas próprias mãos; o Rei não nos guarda como esperávamos, e não conseguimos descobrir o segredo do fracasso. É o Deus de paz ele mesmo, que santifica plenamente, que há de conservar o espírito e a alma e o corpo inteiros e sem culpa. O tabernáculo com sua madeira, o templo com sua pedra, eram tão santos como tudo o que se incluía dentro de suas muralhas: os santos de Deus precisam que o corpo seja santo.

Para compreender o pleno sentido disto, lembremo-nos de como foi pelo corpo que o pecado entrou. ‘A mulher viu que a árvore era boa para se comer’ — esta foi a tentação na carne; por meio dela a alma foi atingida, ‘era agradável aos olhos’; por meio da alma passou então ao espírito, ‘e desejável para dar entendimento’. Na descrição que João faz do que há no mundo (1 João 2:15), encontramos a mesma divisão tríplice: ‘a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida’. E as três tentações de Jesus por Satanás correspondem exatamente: ele procurou primeiro alcançá-lo pelo corpo, na sugestão de satisfazer a sua fome fazendo pão; a segunda (ver Lucas 4) apelou à alma, na visão dos reinos deste mundo e da sua glória; a terceira ao espírito, no chamado a afirmar e provar a sua Filiação Divina lançando-se para baixo. Mesmo ao Filho de Deus a primeira tentação veio, como a Adão e a todos no mundo, como concupiscência da carne, o desejo de gratificar o apetite natural e legítimo da fome. Não podemos observar com demasiado cuidado que foi numa questão de comer aquilo que parecia bom para alimento que se cometeu o primeiro pecado do homem, e que essa mesma questão de comer para satisfazer a fome foi o campo de batalha no qual se deu o primeiro encontro do Redentor com Satanás. É na questão de comer e beber o que é bom e legítimo que mais cristãos do que se supõe são derrotados por Satanás. Ter todo apetite do corpo sob o governo e a regulação do Espírito Santo parece a alguns desnecessário, a outros demasiado difícil. E, contudo, assim deve ser, se o corpo há de ser santo, como templo de Deus, e se havemos de glorificá-lo no nosso corpo e no nosso espírito. As primeiras investidas do pecado se fazem pelo corpo: no corpo se ganhará a vitória completa.

O que a Escritura ensina quanto à intimidade da ligação entre o corpo e o espírito, a fisiologia confirma. O que à primeira vista parecem transgressões meramente físicas deixam uma mancha e têm uma influência degradante sobre a alma e, por meio dela, arrastam para baixo o espírito. E, por outro lado, os pecados espirituais, pecados de pensamento e de imaginação e de disposição, passam pela alma para o corpo, fixam-se na constituição nervosa e se expressam até no semblante e nos hábitos ou tendências do corpo. O pecado deve ser combatido não somente na região do espírito: se havemos de aperfeiçoar a santidade, devemos purificar-nos de toda imundícia da carne e do espírito. ‘Se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis.’ Se de fato havemos de ser purificados do pecado e feitos santos para Deus, o corpo, como a fortificação exterior, deve muito especialmente ser guardado do poder de Satanás e do pecado.

E como isto se há de fazer? Deus fez uma provisão muito especial para isto. A Santa Escritura fala tão explicitamente do Espírito Santo, o Espírito que comunica santidade, em ligação com o corpo. À primeira vista, parece que a expressão o vosso corpo é empregada simplesmente como equivalente às vossas pessoas, a vós mesmos. Mas, à medida que uma visão mais profunda do poder do pecado no corpo, e da necessidade de uma libertação especialmente ali, aviva a nossa percepção, vemos o que se quer dizer com o corpo ser o templo do Espírito Santo. Notamos quão especialmente é dos pecados no corpo que Paulo fala como profanando o santo templo de Deus; e como é pelo poder do Espírito Santo no corpo que ele nos quer ver glorificar a Deus. ‘Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo? Glorificai, pois, a Deus, no poder do Espírito Santo, no vosso corpo.’ O Espírito Santo não deve apenas exercer uma influência restritiva e reguladora sobre os apetites do corpo e a sua satisfação, de modo que sejam em moderação e temperança — este é apenas o lado negativo —, mas deve haver um elemento positivamente espiritual, que faça do exercício das funções naturais um serviço de santo gozo e liberdade para a glória de Deus; não mais um ameaçador estorvo à vida de obediência e comunhão, mas um meio de graça, uma real ajuda à vida espiritual. É somente num corpo que está cheio da vida santa, muito inteiramente possuído pelo Espírito de Deus, que assim será.


E como isto se pode obter? Na verdadeira vida cristã, a abnegação é o caminho para o gozo, a renúncia para a posse, a morte para a vida. Enquanto houver algo que julgamos ter liberdade e poder de usar ou fruir retamente, contanto que o façamos com moderação, ainda não vimos nem confessamos a nossa própria falta de santidade, nem a necessidade da inteira renovação do Espírito Santo. Não basta dizer: ‘toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ação de graças’; devemos lembrar o acréscimo: ‘porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada.’ Este santificar de toda criatura e do seu uso é coisa tão real e solene quanto o santificar de nós mesmos. E isto só acontecerá onde, se for preciso, sacrificamos o dom e a liberdade de usá-lo, até que Deus nos dê o poder de verdadeiramente usá-lo somente para a sua glória. De uma das mais sagradas instituições divinas, o casamento, Paulo, que tanto denuncia os que proibiriam de casar, diz distintamente que pode haver casos em que um celibato voluntário seja o modo mais seguro e aceitável de ser ‘santo tanto no corpo como no espírito.’ Quando ser santo como Deus é santo se torna de fato o grande desejo e alvo da vida, tudo será acalentado ou abandonado conforme promova o fim principal. A presença real e ativa do Espírito Santo na vida do corpo será o fogo que se conserva ardendo continuamente sobre o altar.

E como isto se há de alcançar? Tanto do corpo como do espírito é Deus, Deus em Cristo, quem é o nosso Guardador e o nosso Santificador. O guardar das muralhas da cidade deve ser confiado Àquele que governa por dentro. ‘Estou persuadido de que ele é poderoso para guardar o meu depósito’, para conservar aquilo que lhe confiei — isto deve tornar-se tão definitivamente verdadeiro a respeito do corpo, e de cada uma de suas funções das quais temos consciência de que é ocasião de dúvida ou de tropeço, como o tem sido a respeito da alma que lhe confiamos para a salvação. Um depósito fixo num banco é dinheiro entregue para fora das minhas mãos a fim de ali ser guardado: o corpo, ou qualquer parte dele que precise ser feita santa, deve ser um depósito com Jesus. A fé deve confiar na sua aceitação e guarda dele; a oração e o louvor devem, cada dia de novo, renovar a certeza, confirmar a entrega do depósito e manter a comunhão com Jesus. Permanecendo assim nele e na sua Santidade, receberemos, numa vida de confiança e alegria, o poder de provar, mesmo no corpo, quão plena e inteiramente estamos naquele que se fez para nós santificação, quão real e verdadeira é a Santidade de Deus no seu povo.

Sede santos, porque eu sou santo.

Bendito Senhor! que és a minha santificação, venho a ti agora com um pedido muito especial. Ó tu que em teu próprio corpo levaste os nossos pecados sobre o madeiro, e de quem está escrito: ‘fomos santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas’, digna-te revelar-me como o meu corpo pode experimentar em plenitude o poder da tua maravilhosa redenção. Desejo, em alma e corpo, ser santo para o Senhor.

Senhor! Muito pouco compreendi que o meu corpo é o templo do Espírito Santo, que nada há nele que possa ser matéria de indiferença, que cada um dos seus estados e funções há de ser santidade ao Senhor. E onde vi que assim deveria ser, ainda procurei eu mesmo guardar das investidas do inimigo estas, as muralhas da cidade. Esqueci-me de como esta parte do meu ser também só poderia ser guardada e santificada pela fé, por tomares tu e manteres o encargo daquilo que a fé te confiou.

Senhor Jesus! Venho agora entregar este corpo, com todas as suas necessidades, nas tuas mãos. No cansaço e no nervosismo, na excitação e no prazer, na fome e na privação, na saúde e na fartura, ó meu santo Salvador, esteja o meu corpo sob a tua guarda a cada momento. Tu nos chamas, ‘libertados do pecado, a apresentar os nossos membros como servos da justiça para a santificação.’ Salvador! na fé da liberdade do pecado que tenho em ti, apresento-te cada membro do meu corpo: creio que o Espírito da vida, em ti, me liberta da lei do pecado nos meus membros. Vivendo ou morrendo, sê tu engrandecido no meu corpo. Amém.

1. No tabernáculo e no templo, a parte material devia estar em harmonia com a santidade que habitava por dentro, e ser a sua incorporação. Por isso tudo foi feito segundo o modelo mostrado no monte. Nos dois últimos capítulos de Êxodo, temos dezoito vezes ‘como o Senhor ordenou.’ Tudo, mesmo no exterior, era a incorporação da vontade de Deus. Assim também o nosso corpo, como templo de Deus, deve em tudo ser regulado pela palavra de Deus, avivado e santificado pelo Espírito Santo.


2. Como parte desta santidade no corpo, a Escritura menciona o vestuário. Falando do ‘enfeite exterior de encrespar os cabelos, de usar joias, ou de vestir roupas,’ como incompatível com ‘o traje de um espírito manso e quieto,’ Pedro diz: ‘Assim também, antigamente, as santas mulheres que esperavam em Deus se adornavam.’ A santidade se via no seu modo de vestir; o seu corpo era o templo do Espírito Santo.

3. ‘Se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis.’ A sua energia vivificadora deve reinar por todo o conjunto. Estamos tão acostumados a associar o espiritual ao ideal e ao invisível, que será necessário tempo, reflexão e fé para compreender como o físico e o sensível influenciam a nossa vida espiritual, e devem estar sob o domínio e a inspiração do Espírito de Deus. Até Paulo diz: ‘Esmurro o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, de modo algum, eu mesmo venha a ser reprovado.’

4. Se Deus de fato soprou o seu Espírito no corpo de Adão, formado do pó da terra, não se ache estranho que o Espírito Santo anime agora também os nossos corpos com a sua energia santificadora.

5. ‘A corporeidade é o fim dos caminhos de Deus.’ Esta profunda sentença de um antigo teólogo lembra-nos uma verdade muito negligenciada. A grande obra do Espírito de Deus é aliar-se à matéria e formá-la num corpo espiritual, para morada de Deus. No nosso corpo o Espírito Santo o fará, se obtiver completa posse.

6. É sobre esta verdade do poder do Espírito Santo no corpo que repousa aquilo que se chama Cura pela Fé. Através de todas as eras, em tempos de especial avivamento espiritual, Deus concedeu a alguns ver como Cristo faria, mesmo aqui, o corpo participante da vida e do poder do Espírito. Para aqueles que o veem, o vínculo entre a Santidade e a Cura é muito estreito e bendito, à medida que o Senhor Jesus toma posse do corpo para si mesmo.


Vigésimo Quarto Dia.

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