Capítulo 13 · 13 min de leitura
O Três Vezes Santo
‘Vi o Senhor assentado sobre um trono, alto e sublime. Por cima dele estavam os serafins. E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.’—Is. vi. 1–3.
‘E os quatro seres viventes não têm repouso nem de dia nem de noite, dizendo: Santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir.’—Ap. iv. 8.
Não é apenas na terra, mas também no céu, que a Santidade de Deus é o seu principal e mais glorioso atributo. Não é apenas na terra, mas também no céu, que a mais alta inspiração de adoração e louvor faz menção da sua Santidade. Os mais resplandecentes dentre os seres viventes, os que estão sempre diante, ao redor e acima do trono, encontram a sua glória em adorar e proclamar a Santidade de Deus: certamente não pode haver para nós honra maior do que estudar e conhecer, cultuar e adorar, proclamar e manifestar a glória do Três Vezes Santo.
Depois de Moisés, como sabemos, Isaías foi o principal mensageiro da Santidade de Deus. Cada um teve uma preparação especial para a sua missão de dar a conhecer o Santo. Moisés viu o Santo no fogo, e escondeu o rosto e temeu olhar para Deus, e assim foi preparado para ser o seu mensageiro e para louvá-lo como ‘glorioso em santidade.’ Isaías, ao ouvir o cântico dos serafins, e ao ver o fogo sobre o altar, e a casa cheia de fumaça, exclamou: ‘Ai de mim.’ Não foi senão quando, no profundo sentimento da necessidade de purificação, ele recebeu o toque do fogo e a purgação do seu pecado, que pôde levar a Israel o Evangelho do Santo como seu Redentor. Que seja no espírito de temor e humilde adoração que escutamos o cântico dos serafins, e procuramos conhecer e adorar o Três Vezes Santo. E que também seja nossa a purificação pelo fogo, para que sejamos achados aptos a dizer ao povo de Deus que ele é o Santo de Israel, o seu Redentor.
A tríplice repetição do Santo tem sido em todos os tempos ligada, pela Igreja de Cristo, à Santíssima Trindade. O cântico dos seres viventes ao redor do trono (Ap. iv.) é evidência da verdade deste pensamento. Ali o encontramos seguido da adoração daquele que era, e é, e há de vir, o Todo-Poderoso: a Fonte Eterna, a manifestação presente no Filho, o aperfeiçoamento futuro da revelação de Deus na obra do Espírito na sua Igreja. A verdade da Santíssima Trindade é muitas vezes considerada uma doutrina abstrata, com pouca influência direta sobre a vida prática. Tão longe está isto de ser verdade, que uma fé viva precisa estar enraizada nela: algum discernimento espiritual da relação e da operação de cada uma das Três Pessoas, e a realidade da sua viva Unidade, é um elemento essencial do verdadeiro crescimento no conhecimento e no entendimento espiritual. Consideremos aqui a Trindade especialmente na sua relação com a Santidade de Deus e como a fonte da nossa. Que significa adorarmos o Três Vezes Santo? Deus não é apenas santo, mas santifica: na revelação das Três Pessoas temos a revelação do modo pelo qual Deus santifica.
A Trindade nos ensina que Deus se revelou de dois modos. O Filho é a Forma de Deus, a sua manifestação tal como ele se mostra ao homem, a Imagem na qual a sua glória invisível se corporifica, e à qual o homem há de ser conformado. O Espírito é o Poder de Deus, operando no homem, e conduzindo-o para o alto, até aquela Imagem. Em Jesus, aquele que estivera na forma de Deus tomou a forma de homem; e a Santidade Divina foi literalmente manifestada na forma de uma vida humana e nos membros de um corpo humano. Uma nova e santa natureza humana foi formada em Cristo, para ser-nos comunicada. Na sua morte a sua própria santidade pessoal foi aperfeiçoada como obediência humana, e assim o poder do pecado foi vencido e quebrado. Por isso, na ressurreição, pelo Espírito de Santidade, ele foi declarado Filho de Deus com poder para nos comunicar a sua vida. Ali o Espírito de Santidade foi libertado do véu da carne, dos entraves que o refreavam, e obteve poder para entrar e habitar no homem. O Espírito Santo foi derramado como fruto da Ressurreição e da Ascensão. E o Espírito é agora o Poder de Deus em nós, operando para o alto em direção a Cristo, para reproduzir em nós a sua vida e Santidade, para nos habilitar a recebê-lo e manifestá-lo plenamente nas nossas vidas. Cristo, do alto, vem a nós como a corporificação da invisível Santidade de Deus: o Espírito, de dentro, nos eleva para encontrá-lo, e nos habilita a receber e fazer nosso tudo o que nele há.
O Deus Triúno a quem adoramos é o Três Vezes Santo: o mistério da Trindade é o mistério da Santidade: a Glória e o Poder da Trindade são a Glória e o Poder de Deus que nos santifica. Há Deus habitando em luz inacessível, um fogo consumidor de Santo Amor, destruindo tudo o que resiste, glorificando na sua própria pureza tudo o que se rende. Há o Filho, lançando-se naquele fogo consumidor, seja na sua eterna bem-aventurança no céu, seja na sua ira acesa sobre a terra, um sacrifício voluntário, para ser o seu alimento e a sua satisfação, bem como a revelação do seu poder de destruir e de salvar. E há o Espírito de Santidade, as chamas daquele poderoso fogo espalhando-se por todos os lados, convencendo e julgando como o Espírito de Ardor, e depois transformando na sua própria resplandecência e santidade tudo o que pode alcançar. Todas as relações das Três Pessoas entre si e conosco têm a sua raiz e o seu sentido na revelação de Deus como o Santo. À medida que o conhecemos e dele participamos, conheceremos a Santidade e dela participaremos.
E como o conheceremos? Aprendamos a conhecer a Santidade de Deus como os serafins a conhecem: na adoração do Três Vezes Santo. Com o rosto velado, unamo-nos ao incessante cântico de adoração: ‘Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos.’ Cada vez que meditamos na Palavra, cada oração ao Deus Santo, cada ato de fé em Cristo, o Santo, cada exercício de espera confiante no Espírito Santo, que seja no espírito de adoração: Santo, santo, santo. Aprendamos a conhecer a Santidade de Deus como Isaías a conheceu. Ele havia de ser o mensageiro escolhido para revelar e interpretar ao povo o nome, o Santo de Israel. A sua preparação foi a visão que o fez exclamar: ‘Ai de mim! porque os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos.’ Inclinemo-nos em silêncio diante do Santo, até que também a nossa formosura se converta em corrupção. E então creiamos no fogo purificador vindo do altar, o toque das brasas vivas da santidade ardente, que não apenas consome, mas purga os lábios e o coração para dizer: ‘Eis-me aqui, envia-me a mim.’ Sim, adoremos, quer como os serafins que adoram, quer como o profeta trêmulo, até sabermos que também o nosso serviço é aceito, para anunciar o louvor do Três Vezes Santo.
Santo, santo, santo: se de fato havemos de ser os mensageiros do Santo, procuremos entrar plenamente no que este Três Vezes Santo significa. Santo, o Pai, Deus acima de nós, Alto e Sublime, a quem homem algum viu nem pode ver, de cuja Santidade ninguém ousa aproximar-se, mas que ele mesmo, na sua Santidade, se aproxima para santificar. Santo, o Filho, Deus conosco, revelando a Santidade Divina na vida humana, mantendo-a em meio ao sofrimento da morte por nós, e preparando uma vida e uma natureza santas para o seu povo. Santo, o Espírito, Deus em nós, o Poder da Santidade dentro de nós, estendendo-se para Cristo e abraçando-o, e transformando a nossa vida interior na união e comunhão daquele em quem somos santos. Santo, santo, santo! é tudo santidade. É somente santidade—santidade perfeita. Esta é a santidade Divina: santidade oculta e inacessível; santidade manifestada e mantida na natureza humana; santidade comunicada e feita inteiramente nossa.
O mistério da Santíssima Trindade é o mistério da vida cristã, o mistério da Santidade. Os Três são Um, e precisamos entrar cada vez mais profundamente na verdade de que nenhuma das Três Pessoas jamais opera separada ou independente da outra. O Filho revela o Pai, e o Pai revela o Filho. O Pai não dá a si mesmo, mas o Espírito: o Espírito não fala de si mesmo, mas clama: Aba, Pai! O Filho é a nossa Santificação, a nossa Vida, o nosso Tudo: a plenitude está nele. E, contudo, sempre nos cabe dobrar os joelhos diante do Pai para que ele revele Cristo em nós, para que ele nos estabeleça em Cristo. E o Pai não faz isto sem o Espírito: de modo que temos de pedir para ser poderosamente fortalecidos pelo Espírito, a fim de que Cristo habite em nós. Cristo dá o Espírito aos que creem, amam e obedecem; o Espírito, por sua vez, dá Cristo, formado interiormente e habitando no coração. E assim, em cada ato de adoração, e cada passo de crescimento, e cada bendita experiência de graça, todas as Três Pessoas estão ativamente envolvidas: o Um é sempre Três, os Três são sempre Um.
Deseja você aplicar isto na vida de santidade? Que a fé na Santíssima Trindade seja uma realidade viva e prática. Em toda oração ao Pai para que ele o santifique, assuma a sua posição em Cristo, e faça-o no poder do Espírito dentro de você. Em todo exercício de fé em Cristo como a sua Santificação, seja a sua postura a de oração ao Pai e de confiança nele, que se compraz em honrar o Filho, e a de quieta expectativa da obra do Espírito, por meio de quem o Pai glorifica o Filho. Em toda entrega da alma à santificação do Espírito, à sua condução como o Espírito de Santidade, olhe para o Pai, que concede a sua poderosa operação, e que santifica mediante a fé no Filho, e espere que o poder do Espírito se manifeste, mostrando a vontade de Deus, e Jesus como a sua Santificação. Se por algum tempo isto parecer em desacordo com a simplicidade da fé e da oração de criança, esteja certo de que, tendo Deus assim se revelado, ele lhe ensinará a adorar e a crer desse modo. E assim o Santo, santo, santo se tornará o profundo tom subjacente de toda a nossa adoração e de toda a nossa vida.
Filhos de Deus! chamados a ser santos como ele é santo, oh, venham, prostremo-nos e adoremos na sua santa presença! Venha e vele o rosto: retire os olhos e a mente de contemplar o que ultrapassa o conhecimento, e seja a alma recolhida naquela quietude interior, na qual somente se pode ouvir a adoração do Santuário celestial. Venha e cubra os pés: afaste-se da azáfama do trabalho e da pressa, seja ela mundana ou religiosa, e aprenda a adorar. Venha, e, ao se prostrar em autodesprezo, a glória do Santo brilhará sobre você. E, ao ouvir, assumir e cantar o cântico, Santo, Santo, Santo, você descobrirá como em tal conhecimento e adoração do Três Vezes Santo está o poder que o faz santo.
Sede santos, porque eu sou santo.
Santo, santo, santo, o Senhor Deus Todo-Poderoso! que eras, e que és, e que hás de vir! Eu te adoro como o Deus Triúno. Com o rosto velado e os pés cobertos, quisera prostrar-me em profunda humildade e silêncio, até que a tua misericórdia me levante como sobre asas de águias para contemplar a tua glória.
Deus misericordiosíssimo! que me chamaste a ser santo como tu és santo, oh, revela-me algo da tua Santidade! Enquanto ela resplandece sobre mim e faz morrer a criatura e a carne, que até a mais involuntária mancha de pecado, e o seu mais leve movimento, se torne insuportável. Enquanto ela resplandece e reaviva a esperança de ser participante da tua Santidade, que se fortaleça a confiança de que tu mesmo me estás santificando, e até me farás mensageiro da tua Santidade.
Deus Três Vezes Santo! Eu te adoro como o meu Deus. Santo! o Pai; santo e santificando; santificando o seu próprio Filho e enviando-o ao mundo, para que pudéssemos contemplar a própria glória de Deus num rosto humano, o rosto de Jesus Cristo. Santo! o Filho; o Santo de Deus, cumprindo a vontade do Pai, e santificando-se a si mesmo para que pudesse ser a nossa santidade. Santo! o Espírito; o Espírito de Santidade, habitando dentro de nós, fazendo nossos o Filho e a sua Santidade, e assim fazendo-nos participantes da Santidade de Deus. Ó meu Deus! prostro-me, e adoro, e reverencio.
Que já agora a adoração do céu, que não descansa nem de dia nem de noite, seja a adoração que a minha alma te rende sem cessar. Que o seu cântico seja, lá no fundo do coração, a nota tônica da minha vida: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo-Poderoso! que eras, e que és, e que hás de vir. Amém.
1. O pensamento sempre precisa distinguir e separar: somente na vida há perfeita unidade. Quanto mais conhecemos o Deus vivo, tanto mais perceberemos quão verdadeiramente os Três são Um. Em cada ato de uma Pessoa as outras Duas estão presentes. Não se eleva uma só oração sem que seja necessária a Presença dos Três Santos: por meio de Cristo, no Espírito, falamos ao Pai.
2. Apreender isto pela fé é ter o segredo da santidade. O Deus Santo acima de nós, sempre dando e operando; o Santo de Deus, o dom vivo, que nos possui, em quem estamos; o Espírito Santo, Deus dentro de nós, por meio de quem o Pai opera, e o Filho é revelado: este é o Deus que diz: Eu sou santo, eu santifico. Na perfeita unidade da obra dos Três encontra-se a santidade.
3. Não é de admirar que o amor do Pai e a graça do Filho não realizem mais, quando a comunhão do Espírito Santo é tão pouco compreendida, buscada ou aceita. O Espírito Santo é o fruto e a coroa da Revelação Divina, por meio de quem o Filho e o Pai vêm a nós. Se você quer conhecer a Deus, se você quer ser santo, precisa ser ensinado e conduzido pelo Espírito.
4. Tantas vezes quantas você adorar o Três Vezes Santo, escute se não se ouve uma voz: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Que se levante a resposta: Eis-me aqui, envia-me a mim; e ofereça-se para ser um mensageiro da santidade de Deus aos que estão ao seu redor.
5. Quando, em meditação e adoração, você tiver procurado assimilar e exprimir o que a palavra de Deus ensinou, então chega o momento de confessar que nada sabe, e de esperar em Deus para revelar-se a si mesmo.