Capítulo 2 · 12 min de leitura
Controvérsia
Mary estava doente havia alguns meses com a síndrome de Epstein-Barr, comumente chamada de “gripe dos yuppies”, ou “a doença dos anos noventa”.
Seus médicos haviam experimentado muitos medicamentos para devolvê-la à jovem saudável que ela fora um ano antes, mas estavam perplexos, assim como todos os profissionais da medicina, diante dessa doença que ataca o sistema imunológico, fazendo com que sua vítima fique com pouquíssima energia e num cansaço contínuo.
Não havia cura conhecida, e o desconhecimento de suas causas começou a gerar medo em muitos dos amigos de Mary. Alguns a associavam à AIDS, outro flagelo que afeta o sistema imunológico. Ela sempre fora muito ativa em sua igreja, mas agora se mantinha afastada, pois ninguém tinha certeza se essa doença era contagiosa.
Ela leu muitos livros e assistiu a documentários de televisão sobre a doença, chegando a experimentar algumas das ‘curas’ experimentais recomendadas. Poucos amigos vinham visitá-la, embora alguns telefonassem regularmente para saber como ela estava. Diziam-lhe que a igreja estava orando por ela e que ela deveria permanecer encorajada.
Desde a adolescência, Mary era crente no Senhor Jesus, tendo entregado a vida a Ele em um culto na igreja. Com o passar dos anos, sua crença e confiança haviam crescido à medida que estudava as Escrituras, orava e frequentava fielmente os cultos.
Ao longo dos meses difíceis de sua enfermidade, ela se apegara à sua confiança no Senhor, crendo que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam ao Senhor” (Romanos 8:28). Ainda que não compreendesse, continuaria a confiar Nele.
Embora ela não fosse da minha igreja, eu tinha o hábito de visitar Mary algumas vezes por mês. Havíamos nos tornado amigos por meio de outro ministério no qual estivéramos envolvidos, e por isso me preocupava vê-la tão debilitada por essa doença terrível. Ela estava sempre alegre e grata quando eu a levava ao banco ou a uma loja, algo que ela não conseguia fazer sozinha naquela condição debilitante.
Certo dia, porém, ao chegar à casa dela, encontrei-a profundamente angustiada. Levou um bom tempo até que ela se recompusesse o suficiente para me contar o que havia acontecido. Ela recebera um telefonema de uma de suas ‘amigas’ mais próximas da igreja, dizendo-lhe que o grupo de oração havia decidido parar de orar por sua recuperação. A razão apresentada foi que, “ela evidentemente não tinha fé, ou já estaria curada a esta altura.”
A implicação era que, por ela ser ‘sem fé’, não podiam mais considerá-la parte da família deles!
Que terrível mal-entendido a respeito da natureza da fé e de como ela opera em nossas vidas! Ao estudar as Escrituras, não vejo nada que justifique as ações ou as crenças daquele grupo de oração da igreja.
Para eles, evidentemente, a fé era algo que a pessoa podia produzir pelo próprio esforço ou empenho. Se Mary tivesse conseguido criar o suficiente dessa misteriosa ‘essência’ chamada fé, Deus teria sido obrigado a suprir sua necessidade de cura! Em essência, eles acreditavam que a fé é quantitativa e que uma medida suficiente agrada a Deus; portanto, ela só precisava crer mais!
Eu creio na cura divina como uma das riquezas que nos são concedidas na vitória da cruz, mas descobri que não há fórmula para obtê-la. Deus continua sendo soberano ao conceder cura e boa saúde, e nenhuma quantidade de crença, de horas em oração ou de baldes de lágrimas se compara à sua graça soberana.
Como o pai do menino endemoninhado, cuja história está registrada em Marcos 9, Mary clamou: “Senhor, eu creio; ajuda a minha incredulidade!”
Naquela história, os discípulos haviam crido que podiam curar o menino, mas haviam falhado. Jesus lhes mostrou que o que precisavam era de fé, não de crença. Poder-se-ia acrescentar: “até os demônios creem!”
Crença NÃO é fé O pastor John estava preocupado! Apenas dois anos antes, ele vira a frequência de sua pequena igreja crescer rapidamente, à medida que muitas pessoas novas passaram a participar da comunhão. Famílias inteiras se converteram e falava-se em avivamento. Logo haviam ultrapassado a marca de duzentas pessoas na frequência regular; as ofertas financeiras haviam aumentado mais de 100% em relação aos anos anteriores, e um entusiasmo tomava conta do santuário a cada semana. Pregar tornara-se fácil, e sempre havia voluntários para atender os muitos ministérios que surgiam em cada departamento da igreja.
“Pastor, precisamos construir um santuário maior”, disseram seus presbíteros.
“Deus está evidentemente fazendo uma grande obra em nossa comunidade.” Não foi difícil persuadir a congregação a concordar com isso, e logo se faziam planos para um santuário que comportaria mais de mil adoradores. Qualquer um que manifestasse receio diante dos planos grandiosos era rotulado de ‘sem fé’. Afinal, se Deus estava evidentemente nisso, uma fé maior deveria ser exercida. Assim, os planos foram crescendo até que se projetou um edifício que, ao final, custaria mais de três milhões de dólares!
O que John não previra foi um grande aumento nas taxas de hipoteca ao mesmo tempo em que um grande empregador se retirava daquela pequena cidade, deixando muitos desempregados, vários dos quais eram membros da igreja de John.
Os pagamentos de juros logo se tornaram grandes demais para a congregação, e o problema se agravou à medida que as pessoas começaram a deixar aquela comunidade em vez de permanecer numa igreja acorrentada a um enorme fardo financeiro que, na opinião delas, não fora criado por elas mesmas.
O que dera errado? Será que Deus os falhara, quando haviam exercido uma fé tão grande? Ou teriam John — e seus presbíteros — confundido fé com presunção? Na verdade, será que alguma vez entenderam o que é a fé? Para eles, fé era correr riscos de forma santificada, com a condição implícita de que, se as coisas não dessem certo, a culpa haveria de ser de Deus.
Em suas tentações por Satanás, registradas para nós em Lucas 4:1-13, Jesus nos mostra claramente a diferença entre fé e presunção.
Jesus tinha uma necessidade real; estava com fome depois de passar quase seis semanas no deserto. Fora levado até lá pelo Espírito Santo, após o seu batismo no Jordão.
Embora a Escritura silencie a respeito, creio que foi ali que Ele teve comunhão com o seu Pai celestial acerca das coisas que haveriam de lhe acontecer. Ele sabia que o seu cálice seria amargo. Sabia também que tinha uma escolha — a sua vontade ou a do Pai. Depois daqueles dias, Satanás o desafia com uma tentação real.
“Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão” (Lucas 4:3).
Se assim tivesse feito, sua fome teria sido saciada e Ele teria provado ser mais poderoso do que o seu adversário; certamente isso mostraria que Ele era verdadeiramente o Filho de Deus. Ele sabia que podia fazê-lo! Por que não declarar e reivindicar? Poderia tê-lo feito, mas isso não teria sido fé — teria sido presunção e contrária à vontade de seu Pai.
Na terceira tentação, Satanás chega a citar as Escrituras a Jesus.
“Tu sabes que Deus não permitirá que sofras dano algum. Ainda que te lances do ponto mais alto do templo, nenhum mal te acontecerá. Os anjos te susterão. Imagina o que o povo pensará se fizeres isso!
Todos correrão para te seguir, de modo que não precisarás sofrer e morrer numa cruz” (Lucas 4:9-11).
Jesus poderia ter realizado o milagre, reivindicando as promessas da Palavra de Deus, mas isso não teria sido fé; teria sido presunção, novamente contrária à vontade de seu Pai.
Presunção NÃO é fé Assim como Satanás, há muitos crentes que citam as Escrituras como fundamento de sua ‘fé’. Por exemplo, ouvi Tiago 3:2 sendo ensinado na minha televisão nesta última semana.
“A carta de Tiago declara que, se um homem consegue controlar a própria língua, é capaz de refrear todo o corpo. Portanto, certifique-se de falar apenas coisas positivas. Se assim fizer, você nunca ficará doente!”
Esses mestres justificam sua posição com expressões de fé.
“A Bíblia diz, eu creio, e pronto!”
Conheço grandes denominações que baseiam suas doutrinas nesse tipo de mal-entendido a respeito da fé. Elas se agrupariam sob o título genérico de igrejas da “Palavra da Fé”, chamadas de modo mais cínico por expressões como “Declare e reivindique!” ou “Fale e agarre!” ou “Confesse e possua!”. Raramente assisto à TV cristã, mas, quando ligo o aparelho num domingo de manhã, invariavelmente encontro uma emissora onde tal mensagem está sendo proclamada.
Devo confessar que há muito ensino bom no que eles dizem. Precisamos ser um povo capaz de fundamentar a vida no alicerce sólido da Palavra de Deus, com as suas muitas promessas maravilhosas e riquezas que são nossas em Cristo; contudo, precisamos ter muito cuidado para exegetar corretamente a Palavra, reivindicando apenas aquelas promessas que se aplicam a nós, e sendo obedientes às condições dessas promessas onde há condições.
Reivindicar que nada pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus é a bênção incondicional para todos os crentes. Contudo, as promessas do Cenáculo — a paz que o mundo não pode dar nem tirar, uma alegria que é plena — estão condicionadas à aliança do Cenáculo. Ali os discípulos se comprometeram a encorajar e revigorar uns aos outros (lavar os pés uns dos outros), a obedecer ao seu mandamento, a amar uns aos outros e a ser obedientes à sua Palavra.
Estou convencido de que há outro erro na compreensão que eles têm da fé. Na verdade, deveriam chamar-se igrejas da “Palavra da Esperança”, pois a esperança tem muito mais a ver com a crença do que a fé tem! É a esperança que diz: “Deus disse! Eu creio! Isso me basta!”
Falamos tão pouco sobre a esperança cristã porque a confundimos com a esperança mundana. Sempre que o mundo fala de esperança, há uma possibilidade negativa associada. “Espero que não chova amanhã.” (Pode chover!) “Espero passar nas minhas provas!”
(Posso reprovar!) “Espero que você seja feliz no seu casamento.”
(Pode haver um divórcio!) A esperança cristã não tem nenhuma conotação negativa dessa espécie. É uma expectativa ansiosa daquilo que é certo! Assim, quando proclamamos as verdades da Palavra de Deus e quando reivindicamos as suas promessas, estamos expressando esperança, não fé.
A esperança é um atributo da mente e se evidencia na confiança. A fé é um atributo do coração e se evidencia na obediência.
Esperança NÃO é fé Outro aspecto do poder da crença é visto na área do pensamento positivo. O mundo entende que ‘aquilo que você crê que é, você é’, de modo que executivos de empresas frequentam regularmente cursos de pensamento positivo. “Como pensar rumo ao sucesso.” Agora, temos seminários para líderes de igreja baseados nas mesmas premissas e práticas.
Infelizmente, há muitas igrejas, algumas muito grandes e com ministérios de televisão, que pregam sobre a fé mas, na realidade, ensinam o pensamento positivo. Nos últimos anos, chegamos até a introduzir práticas da Nova Era, como as ‘técnicas de visualização’, para produzir cura de doenças, equiparando erroneamente o pensamento positivo da visualização à fé.
Por mais estranho que pareça, há hoje muitas pessoas que darão a você o testemunho de que o Senhor realizou uma cura assim para elas. Afirmarão que foi resultado da fé — exercida na visualização.
Eu estava, de fato, presente no pequeno grupo em que oraram assim sobre uma mulher que havia se apresentado para oração: “Imagine o câncer dentro do seu corpo. Você consegue vê-lo? Agora imagine a mão de Jesus alcançando aquele lugar doente e retirando as células cancerosas. Ele está fazendo isso agora mesmo, enquanto você O vê!
Aleluia! Você está curada agora!”
Pensamento positivo NÃO é fé Grandes controvérsias se levantam sempre que se fala sobre a fé. Afinal, o que é a fé? O que é a obra de fé mencionada em 1 Tessalonicenses 1:3 e, além disso, o que é o andar de fé mencionado em 2 Coríntios 5:7? Uma vez que “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6), o desejo de todo crente deveria ser entender o que é a fé.
Paulo declara várias vezes que somos “justificados pela fé” (Efésios 2:8-9 e Romanos), e Tiago argumenta que “a fé sem obras é morta” (Tiago 2:17). Alguns que ficam do lado de Paulo (ou melhor, da sua interpretação de Paulo) consideram que Tiago não tem lugar nas Sagradas Escrituras! Martinho Lutero, grande instrumento da Reforma, declarou que o livro de Tiago é “um livro de palha” e não deveria estar nas Escrituras! Outros ficariam do lado de Tiago (ou da sua interpretação de Tiago), classificando todos os crentes paulinos com termos depreciativos como “fundamentalistas”.
Até mesmo as palavras de Jesus entram na controvérsia!
A Nicodemos Ele disse aquelas maravilhosas palavras: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Contudo, ao enviar os seus discípulos para irem por todo o mundo pregar as boas-novas, acrescentou: “Quem crer e for batizado será salvo” (Marcos 16:16).
Paulo acrescenta ainda mais confusão: “Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus Cristo e creres em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10:9).
Afinal, somos justificados pela fé? Se sim, fé é crer? Ou é confiar, talvez confessar, ou quem sabe ser batizado? Ou poderia ser algo mais?
Até mesmo os tradutores da versão King James mostraram sua confusão quando, em Hebreus 10:23, escreveram: “Retenhamos firme a profissão da nossa fé”, traduzindo a palavra grega ‘elpis’ como ‘fé’, quando em todos os outros contextos ela é traduzida como ‘esperança’. De fato, parece-me que fé e esperança são regularmente confundidas pelo crente comum! A esperança tem muito mais a ver com a crença do que a fé tem!
Permita-me repetir: a esperança é um atributo da mente e se evidencia na confiança, ao passo que a fé é um atributo do coração e se evidencia na obediência.