Capítulo 18 · 10 min de leitura
Que Mais Direi?
“E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo, contando o de Gideão, e o de Baraque, e o de Sansão, e o de Jefté, e o de Davi, e o de Samuel e dos profetas; os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos.
As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e covas e cavernas da terra. E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11:32-40).
Os nove versículos que encerram o capítulo comprovam claramente a minha premissa. Pela fé, muitos realizaram grandes feitos e viram grandes milagres; pela fé, outros foram levados a grande dor e angústia. Certamente isso não se deu porque creram, mas porque era o bom propósito de Deus que, mesmo por meio do sofrimento, Ele fosse glorificado no seu povo. Eles estavam dispostos porque tinham um testemunho interior da realidade que não os deixava escapar da tristeza e da dor. Poderiam tê-lo feito, se tivessem negado o seu Senhor como os seus perseguidores exigiam.
O escritor sagrado já defendeu o seu ponto nos exemplos anteriores deste capítulo. Agora ele apenas agrupa muitos nomes, nem mesmo em ordem cronológica, mas isso não incomodará os seus leitores, pois estão bem cientes das histórias de cada novo nome registrado. Talvez percamos o impacto desses nomes e feitos, disparados sobre nós tão rapidamente, mas, para os judeus, cada expressão traria uma lembrança vívida.
Josefo, um antigo historiador, usou a mesma expressão grega que o nosso autor ao descrever como Davi ‘venceu reinos.’
A Septuaginta - a versão grega do nosso Antigo Testamento - usa as mesmas palavras para contar como Davi ‘praticou a justiça,’ como a fé ‘fechou as bocas dos leões’ para Daniel, e como a fé ‘apagou fogos ardentes’ para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego.
A referência a ‘escapar do fio da espada’ voltaria os pensamentos dos leitores para o livramento de Elias e Eliseu das mãos de Jezabel e dos sírios. Outros exemplos são tirados da vida dos fiéis não registrados no nosso Antigo Testamento, mas provavelmente bem conhecidos dos leitores dos livros apócrifos, especialmente o segundo livro dos Macabeus. Certamente, as expressões ‘esforçar-se na batalha’ e ‘pôr em fuga exércitos estranhos’ os fariam imediatamente pensar nas glórias inesquecíveis dos dias macabeus.
Contudo, as histórias de fé nem sempre são vitoriosas quando vistas por olhos mortais. Se o capítulo parasse no versículo 34, seríamos tentados a crer que somente coisas boas acontecem aos que têm fé em Deus: saúde, riqueza e prosperidade, mas, ao contrário, morte, perseguição e sofrimento. Pode isso ser pela fé? Sim! Sim! Sim! Se Deus for glorificado nisso, sim! E Ele tem sido glorificado por meio do sofrimento do seu povo.
Ao ler o Evangelho de João, encontro muitas vezes Jesus falando sobre a sua glória vindoura. Em que você pensa ao ler a palavra “glória?” Tentei defini-la e por fim concluí que é a plenitude de Deus, revelada. Jesus disse em João 17:1: “Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti” e foi para a cruz. De fato, toda referência à glória no evangelho de João está associada à morte de Jesus! A glória vem por meio do sofrimento!
A história macabeia estava repleta de relatos do sofrimento e do martírio de fiéis judeus durante os dias maus do sírio Antíoco Epifânio. Histórias que os leitores hebreus bem poderiam relacionar às expressões acima, e a história da igreja, desde os tempos dos apóstolos e do escritor de Hebreus, tem muitos relatos semelhantes.
Poderíamos escrever: “ Pela fé Estêvão foi morto, clamando: ‘Pai, não lhes imputes este pecado!” Por esse ato de fé, ele libertou Saulo de Tarso da condenação de Deus, abrindo assim o caminho para que Deus chamasse Saulo ao seu grande ministério como o apóstolo Paulo. Se Estêvão tivesse reagido à sua angústia clamando pela ira de Deus sobre Saulo (como confesso que eu teria sido tentado a fazer!), pergunto-me se Saulo algum dia teria se tornado o grande apóstolo.
Pela fé Paulo foi aprisionado em Roma para que tivesse tempo de escrever as grandes epístolas que se tornaram tamanha fonte de encorajamento e orientação para inúmeros crentes.
Pela fé os primeiros crentes foram perseguidos para que o evangelho se espalhasse por todo o mundo romano à medida que fugiam dos seus perseguidores.
Pela fé, Cranmer, Ridley e Latimer foram queimados na fogueira em meados do século dezesseis para que se acendesse “uma luz na Inglaterra que jamais se apagaria” (Hugh Latimer).
Pela fé os missionários receberam ordem de sair da China em meados do século vinte para que uma igreja pura de crentes pudesse crescer dentro da cultura chinesa - não uma imitação da igreja ocidental. Esse é um ponto difícil para muitos de nós que temos a visão distorcida de que só o conceito ocidental de igreja é aceitável a Deus. Em minhas viagens quase cheguei à posição cínica de que a nossa igreja ‘ocidental’ é a menos aceitável a Deus!
Alguns não aceitarão que a igreja na China cresceu para muitos milhões desde que os missionários partiram. Deixe-me acrescentar aqui, para que não me entendam mal, que creio firmemente nas missões e nos missionários. Às vezes, porém, acho difícil aceitar os nossos métodos e a nossa falta de unidade. Graças ao Senhor, isso vem se tornando menos evidente na história recente das missões.
Pela fé cinco jovens americanos morreram nas selvas do Equador em 8 de janeiro de 1956 para que os índios aucas também se tornassem herdeiros conosco das riquezas do Evangelho. Os editoriais do mundo chamaram isso de grande desperdício de jovens vidas americanas, mas, como um deles, Jim Elliott, havia escrito em seu diário poucas horas antes de sua morte: “Não é tolo aquele que dá o que não pode reter, para ganhar o que não pode perder!” (Jim Elliot). Esse deveria tornar-se o lema de todos os que quiserem andar pela fé.
Os nomes de Pete Fleming, Roger Youderian, Ed McCully, Nate Saint e Jim Elliott, juntamente com os de suas esposas, são bem conhecidos tanto no Céu quanto no Inferno. Pois, por meio da morte e da angústia que sofreram, abriu-se uma ampla brecha nos muros da prisão que haviam mantido os índios aucas no cativeiro do pecado.
Hoje, podemos nos alegrar de que muitos milhares daquele povo precioso atravessaram para a liberdade que só se encontra em Cristo.
Caso o meu leitor não conheça esse acontecimento, encorajo você a ler “Through Gates of Splendour”, de Elizabeth Elliott, viúva de Jim.
Verdadeiramente podemos concordar com a afirmação de que a morte dos mártires tem sido o sangue vital da igreja. Hoje, no século vinte, há possivelmente mais martírio e mais perseguição do que em qualquer outro tempo da história, mas a igreja não está derrotada e continua a crescer a um ritmo exponencial.
Uns pelas águas, uns pela enchente, uns pelo fogo, mas todos pelo sangue; uns por grande tristeza, mas Deus dá um cântico, na estação da noite e por todo o dia.
(G.A.Young) Não poderíamos também escrever que, pela fé, (seu nome) entrou no mais recente vale da dor porque o Pai quer torná-lo mais semelhante ao seu outro filho, Jesus?
“E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa, provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11:39-40).
Todos esses homens e mulheres de fé estão registrados como exemplo para nós. Eles não receberam nenhuma recompensa nesta vida pela sua fidelidade. Tinham fé em Deus. Confiaram nele e obedeceram à palavra que Ele lhes falou e dentro deles; contudo, não haviam recebido a ‘coisa melhor’ que é nossa hoje.
A recompensa pela sua fidelidade encontra-se no Salvador, Cristo, que dará a cada um conforme merece - não pela sua grandeza aos olhos do mundo ou da igreja, mas pela sua fé. Além disso, foi-nos dado o Espírito Santo que habita em nós, o qual é a promessa do Pai (Atos 1:4), “Cristo em vós, esperança da glória” que nos guiará à verdade. É o seu testemunho interior que nos capacita a andar pela fé, à medida que nos rendemos à sua revelação interior. É Ele quem nos trouxe à fé salvadora, e Ele produzirá em nós o fruto da fé enquanto permanecermos junto às correntes de água viva. À medida que bebermos profundamente dos rios de água viva, produziremos fruto no tempo devido.
Oh Senhor, anseio andar na tua vontade. Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim a minha alma suspira por ti. Guia-me na tua vontade. Não peço conhecer a tua vontade nem ser feliz nela. Se me conduzires por vales profundos, estou disposto a ir, pois tu serás o meu consolador ainda no vale da sombra da morte. Sei quão insensato e teimoso posso ser, por isso, sempre que eu me desviar da tua vontade, dou-te plena permissão para me trazer de volta à linha com o açoite. Tudo o que peço é que, ao fim desta jornada, eu te ouça dizer: “Bem está, servo bom e fiel!”
A imagem que tenho da fé é a de que sou apenas uma criança segurando a mão do meu Pai celestial.
Não sei se hoje Ele me levará a lugares de prazer, como a ‘confeitaria’ da vida, ou, em vez disso, à dor do ‘dentista.’ Mas sei que Ele achará necessário levar-me ao segundo se eu for com frequência ao primeiro!
Não sei se amanhã Ele me conduzirá a um vale profundo, mas sei que, no meu passado, tais vales sempre estiveram ali antes de Ele me levar aos cumes dos montes consigo.
Não sei qual é a sua vontade para mim (além do que a Escritura revela para todos nós), mas sei que Ele conhece o caminho à frente.
Não sei o que o amanhã reserva, mas sei quem tem o amanhã em suas mãos, e Ele está segurando a minha mão!
“Quero que a minha vida seja toda cheia de louvor a Ti, meu precioso Senhor divino, que por mim morreu.
Seja toda a minha vontade Tua, dominada por amor divino; vive em mim a Tua vida, ó poderoso Salvador.
Coro: Tua preciosa vontade divina, com alegria eu a faço minha; o meu coração será o Teu trono, e só Teu.
Escolhe tu a senda que trilho, e para onde sou conduzido; ajuda-me a prosseguir, ó poderoso Salvador.
Um peregrino nascido de novo, um estrangeiro de passagem; não sou deste mundo, pois sou Teu.
Desapegado do seu espetáculo passageiro, transformado para conhecer o Teu amor; segura tu a minha mão na Tua, ó poderoso Salvador.
Quando inimigos malignos me assaltarem e quase prevalecerem, naquela hora sombria sê Tu a minha força e escudo.
Concede então o Teu forte abraço, sustenta-me pela Tua graça; na fraqueza sê a minha força, ó poderoso Salvador.
Sim, escolhe a senda para mim, ainda que eu não possa ver a razão por que queres conduzir-me assim.
Sei que o caminho penoso conduzirá aos reinos do dia, onde habitarei contigo, ó poderoso Salvador.”
(H.Tee) - permissão solicitada.
FIM