Capítulo 10 · 7 min de leitura
Abraão
“Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé habitou na terra da promessa, como em terra alheia, morando em cabanas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa. Porque esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:8-10).
O exemplo clássico da vida de fé, usado por Paulo, por Tiago e pelo autor da carta aos Hebreus, foi o peregrino Abraão, e a sua história está registrada em Gênesis 11-25. O escritor de Hebreus destaca aqui a fé demonstrada por Abraão como um forasteiro, alguém sem quaisquer laços com os seus próprios bens.
Ao compararmos os versículos de Hebreus acima com o relato histórico encontrado em Gênesis 11:31, vemos que, embora Deus estivesse chamando Abrão (mais tarde Abraão) para a terra prometida de Canaã, foi por meio de seu pai Terá que ele saiu de Ur dos caldeus. Deus muitas vezes conduz os seus filhos por meio das decisões de outros. Somente depois de ter deixado Harã foi que Deus falou diretamente a Abrão. Ele era o vaso escolhido por meio de quem Deus estabeleceria o seu povo e a sua terra.
Ao contrário de Noé, Abrão não foi escolhido por ser justo; na verdade, ele vivia num país idólatra e com pouco conhecimento de Deus. Entre os homens que vieram antes dele havia muitos que adoravam a Deus, mas nenhum deles foi escolhido para ser o pai da grande nação do povo de Deus.
Abel era bom; ele oferecia sacrifícios segundo a vontade de Deus, mas oferecia apenas por si mesmo. Ele não foi especialmente escolhido.
Enoque e Noé também eram indivíduos em sua caminhada com Deus.
Os três adoravam o Deus verdadeiro, mas nenhum deles foi especialmente escolhido para iniciar a recuperação daquilo que se perdera por Adão.
Foi Abrão quem Deus escolheu, e ele era um idólatra (Josué 24:2)! Deus chamou Abrão porque tinha uma razão especial — Abrão seria o ponto de partida da recuperação divina desde a queda. Quando nos voltamos para o Novo Testamento, as primeiras palavras que lemos são: “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mateus 1:1). Deus começa as suas boas-novas (o Evangelho) com Abraão!
Quando Deus falou, Abrão obedeceu. Ele não entendeu, nem parou para discutir planos com Deus. Ele simplesmente obedeceu e ‘saiu.’ Ele poderia ter reclamado que já tinha 75 anos de idade e era velho demais para começar a peregrinar, mas não reclamou. Ele saiu sem saber para onde ia. Tinha ouvido falar de uma terra, de um reino que haveria de ser a sua herança. Tinha ouvido a promessa de que o seu nome seria grande e de que ele seria uma bênção para todos os povos da terra.
Embora ele não conhecesse a Deus antes desse tempo, havia nele uma confiança plantada para crer que as promessas de Deus eram certas. Então, ele saiu… Deus está procurando hoje homens e mulheres cujos olhos estejam fixos no seu reino e não nas feiras de vaidade deste mundo. O autor do hino 695 do Trinity Hymnal declara: “Sou um estranho aqui, numa terra estrangeira; o meu lar está bem longe, sobre uma praia dourada.
Embaixador sou eu de coisas além do céu; estou aqui a serviço do meu Rei.”
A. P. Carter expressou isso desta maneira em seu hino, “Este Mundo Não É o Meu Lar:” “Este mundo não é o meu lar, estou apenas de passagem por ele.
Os meus tesouros estão guardados em algum lugar além do azul do céu.
Os anjos me acenam desde a porta aberta do Céu, e não consigo mais me sentir em casa neste mundo!”
O apóstolo João nos exorta a não amar o mundo, nem as coisas do mundo (1 João 2:15). É claro que devemos amar as pessoas deste mundo e as suas belezas, que nos levam a adorar a Deus, mas João se refere aos sistemas feitos pelos homens: a sua política e astúcia, o seu humanismo secular e a sua transigência, a sua vaidade e o seu materialismo. Abraão não tinha interesse em tais coisas, pois era um peregrino, alguém de passagem, e a sua vida era uma caminhada com Deus, uma caminhada de fé.
Lembro-me do filho pródigo na parábola contada por Jesus em Lucas 15. Ele saiu e desperdiçou a sua parte da herança nos prazeres do mundo. Caindo em si, voltou para casa arrependido, dizendo: “Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros” (Lucas 15:18-19). Contudo, o pai o recebe calorosamente, revestindo-o com as melhores vestes, calçando-lhe sandálias e preparando-lhe uma festa, para grande desgosto do irmão mais velho. Embora eu me reconheça no pródigo, ciente da minha culpa e reconhecendo o amor do Pai que ainda me aceita como seu filho, vejo nele pouca coisa que o recomende — até que o comparo com o filho mais velho!
O filho mais velho reclama ao pai a respeito do tratamento dado ao pródigo. “Ele nos trouxe vergonha, desperdiçou a sua herança cobiçando este mundo, enquanto eu permaneci fiel em casa. Por que mataste para ele o novilho cevado? A mim nunca me trataste assim!” (Lucas 15:28-30). Que hipocrisia presunçosa! O pai responde: “Meu filho, todos os novilhos cevados te pertencem! Tudo o que resta é a tua herança!” (Lucas 15:31). O pródigo cobiçara os prazeres deste mundo, mas agora caíra em si, num remorso arrependido.
O filho mais velho também cobiçava as coisas deste mundo — não vinho, mulheres e festa, mas os seus bens. Ele era dono da fazenda e não queria que nada o roubasse da sua herança. Na verdade, era a fazenda que era dona dele!
Não é errado ter bens neste mundo, mas a caminhada de fé exige que, como Abraão, eles não sejam donos de nós! Segure-os com mão leve, para que, quando o Senhor o chamar a partir, nada o esteja detendo. Esta é certamente a razão pela qual os crentes nunca deveriam estar endividados. Quando devemos dinheiro a alguém e não somos capazes de cumprir essa obrigação a qualquer momento, estamos em servidão àquela pessoa e não estamos livres para responder quando o Senhor nos chama a ‘sair.’ Na verdade, naquele momento estamos servindo a Mamom, e não a Deus. Eu sugeriria que este é um assunto tão sério para o Senhor que não deveríamos sequer trazer os nossos dízimos e ofertas ao seu altar se outro tem algo contra nós, isto é, se estamos em dívida com ele.
Devemos sair das dívidas antes mesmo de entregar os nossos dízimos a Deus (Mateus 5:23-26).
Talvez seja isso o que o Senhor quis dizer quando afirmou: “o maior entre vós seja como o mais novo, e o que governa como o que serve” (Lucas 22:26). A diferença entre os irmãos estava nas suas atitudes para com as coisas do mundo. O irmão mais velho estava preocupado em que a sua herança não fosse desperdiçada numa festa para o pródigo que retornava. Ele não queria que ninguém sacudisse o seu barco; estava contente com o status quo. De modo semelhante, Esaú venderia o seu direito de primogenitura por uma satisfação presente e temporária, enquanto o seu irmão mais novo, Jacó, embora enganador, era um peregrino que caminhava — e lutava — com Deus.
Como o pródigo, Jacó foi levado ao arrependimento, mas não Esaú. Um tinha a sua herança em Deus; o outro, num ‘prato de lentilhas.’ É impressionante que Deus declarasse: “Amei a Jacó, mas aborreci a Esaú” (Malaquias 1:3). Vale ainda notar que as promessas dadas ao idólatra Abrão foram repetidas ao enganador Jacó, e ele também haveria de se tornar um dos três grandes patriarcas do povo judeu: Abraão, Isaque e Jacó.
Deus está procurando homens e mulheres como Abraão. Pessoas dispostas a serem conduzidas pelo Senhor exatamente quando e onde Ele quer conduzi-las. A nós Ele ainda diz: “Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça” (Mateus 6:33).
Consideraremos Abraão novamente em um capítulo posterior, no qual veremos mais evidências da sua caminhada de fé com Deus, evidências também invocadas por Tiago e Paulo, os apóstolos, em seus escritos.
Resumo. Abraão nos é apresentado em Hebreus 11 para nos ensinar estes princípios: 1. Deus não escolhe um homem por causa de qualquer coisa que ele alegue ser. Em vez disso, Ele escolhe as coisas fracas e loucas, as coisas humildes e desprezadas, para que nenhum homem se glorie (1 Coríntios 1:27-29).
2. As pessoas de fé são aquelas cujos olhos e coração estão fixos num reino celestial; cuja atitude é a do ‘mais novo,’ tendo apegos frouxos a este mundo.
3. Deus iniciou a obra de redenção em um homem que se tornaria o exemplo maior da caminhada de fé, demonstrada em uma confiança obediente.